Editorial

O sim, o não e o nim no PS

O imposto sobre o imobiliário é sinal de viragem ideológica no partido?

Algum dia haveria de começar o debate interno no PS, aberto pela chegada ao poder de António Costa, com a sua solução de alianças à esquerda para segurar o Governo. Podia ter sido mais cedo, porque essa solução quebrou a opção tradicional dos socialistas de procurarem entendimentos à sua direita, mas a regra é dar espaço às lideranças para fazerem o seu caminho, eximindo-se os críticos ao ónus penalizador de quem nega o benefício da dúvida a quem chega. Mesmo assim, não faltou quem desde o início levantasse a voz contra esta “aliança contranatura”, como fez Francisco Assis no último congresso do partido, mas essa oposição interna tem sido em geral muito discreta. Por vezes há um ou outro momento mais constrangedor, como quando aflorou a ideia de que haveria sectores próximos do primeiro-ministro abertos à renegociação da dívida. Ou há quem não perca a oportunidade de chamar a atenção para os perigos de o PS ser contaminado pelo novo “vírus ideológico” do “neopopulismo europeu”, cujo expoente em Portugal encarna no Bloco de Esquerda. Mais uma vez é Assis quem dá a cara, por vezes Sérgio Sousa Pinto, e pouco mais.

O novo imposto sobre o imobiliário teve o condão de desfazer o nó e dar o verdadeiro tiro de partida do debate ideológico dentro do Partido Socialista (págs. 6/7) — o que só pode ser positivo para a democracia. Mas também é muito interessante porque deixa muito claro que, neste momento, nada é óbvio entre os socialistas: tanto da parte dos que estão de alma e coração com António Costa, como João Galamba e Ana Catarina Mendes; como do lado de quem está contra, casos de Sousa Pinto ou de António Galamba. A acrescentar a estas “posições extremas” não deixa de ser curioso registar a prudência com que João Cravinho, uma referência da militância histórica mais à esquerda, analisa a presente situação. Cravinho não escamoteia os indícios de que se poderá estar a assistir a um processo que “leva a transformações ideológicas” no PS, cujas consequências levam a uma bipolarização esquerda-direita sem retorno.

Outra particularidade tem que ver com o núcleo duro de António Costa, que está longe de ser homogéneo. É verdade que João Galamba e Ana Catarina Mendes rejeitam que o novo imposto seja espelho de alterações radicais, mas a diferença é que o primeiro encara as alianças à esquerda como a única via para salvar o PS da hecatombe eleitoral e política dos seus congéneres europeus. Já a secretária-geral adjunta prefere fazer uma profissão de fé na matriz identitária do partido, como se o PS não tivesse estado sempre do outro lado da barricada dos seus actuais parceiros. Quanto aos actuais opositores de Costa, o seu problema é a dispersão. Os seguristas continuam perdidos no ressentimento do processo interno, como é patente nas graves acusações de António Galamba, enquanto personalidades como Sérgio Sousa Pinto vão disparando sozinhas, embora com a acutilância de sempre: “O problema surge quando uma deputada do BE expõe ao PS a mundivisão do Bloco: anticapitalista, anti-poupança, antiacumulação.” Não é nada claro quem vai vencer este debate.