Editorial

Durão e a decadência do projecto europeu

Se há um aspecto positivo na contratação de Durão Barroso pela Goldman Sachs é ter ajudado à sensibilização da opinião pública para a necessidade de escrutinar e impor novas regras de funcionamento à oligarquia de Bruxelas. Casos como este ajudam a mostrar à generalidade dos cidadãos europeus, que pagam o funcionamento principesco de uma burocracia tão opaca como arrogante na sua falta de transparência e nos seus métodos, que a continuação destas práticas tem o mesmo efeito que uma sentença de morte sobre a democracia. Isto é visível na máquina europeia e na forma como a esmagadora maioria das suas instituições se foram transformando num edifício muito pouco democrático, com os seus tratados cifrados e os seus códigos de regras não escritas ditadas pela lei do mais forte. Não é, por isso, de estranhar, que o sentimento de sub-representação política se venha sedimentando a par da crescente rejeição popular contra a União Europeia. E nem vale a pena meter a cabeça na areia invocando a extrema-direita e o populismo porque o essencial da degenerescência do ideal europeu é da responsabilidade dos seus protagonistas políticos, muitos dos quais dão demasiada atenção aos jogos de poder ou a articular contactos capazes de lhes garantir vantagens pessoais. A porosidade destes relacionamentos sobressaiu em casos como os de Monti, Draghi, Juncker, Kroes ou Barroso, que têm aumentado a pressão sobre Bruxelas. Daí o inquérito ao ex-presidente português por parte da Comissão e a petição pública, que conta já com muitas dezenas de milhares de assinaturas, pedindo a sua punição exemplar. É a vigilância dos cidadãos, cada vez menos disponíveis para tolerar situações pouco recomendáveis.

Durão Barroso bem pode tentar vitimizar-se, reclamando contra a “discriminação” de que se sente alvo por ter nascido num pequeno país pobre e periférico. Mas os factos falam por si, como ficou patente no trabalho que publicámos sobre a sua relação de proximidade com a Goldman Sachs. Se quisermos ser muito indulgentes, o mínimo que se pode dizer é que o relativismo ético do seu comportamento é tão plástico como as suas explicações. Os encontros discretos, os mails, as nomeações polémicas, as justificações inconsistentes… tudo contribui para iluminar a decadência do próprio projecto europeu, no sentido em que dá maior visibilidade ao bicho que lhe está a corroer as entranhas. Ainda será possível curar esta doença? O antídoto seria aplicar uma forte dose de autoridade ético/política a todas as instâncias comunitárias. Mas como?