Opinião

“Estás a falar connosco?”

A enorme força de Taxi Driver é a de, como muitos poucos outros filmes, nos interpelar directamente, e isso mantém-se incólume para lá de todas as suas características epocais

Taxi Driver regressa às salas numa nova cópia digital restaurada – supervisionada pelo realizador, Martin Scorsese, um paladino da preservação e restauro do património fílmico, e pelo director de fotografia, Michael Chapman – assinalando o 40º aniversário do filme (já?).

O pretexto tem o seu quê de singular – só muito raramente se assinalam aniversários de filmes. Mas não é sequer inédito: já em 1996 uma 1ª cópia com restauração digital foi lançada no 20º aniversário do filme. É caso para nos perguntarmos: porquê esta insistência?

Taxi Driver foi, é seguramente um filme marcante com um estatuto consolidado ao longo dos anos. Quando da estreia foi no entanto extremamente controverso, com o usual argumento da sua violência, a que acrescia a inaudita representação de uma prostituta de 12 anos, Iris/Jodie Foster. Isto nos Estados Unidos, que na Europa, na ressaca esquerdista dos anos 1970, o justiceiro solitário, Travis Bickle/Robert de Niro, foi tido por alguns como uma apologia fascista.

Taxi Driver obteve a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Nesse mês de Maio de 1976 estava em exibição em Lisboa o anterior filme de Scorsese, Alice Já Não Mora Aqui, pelo qual Ellen Burstyn recebera o Óscar da melhor actriz. Nem uma distinção, nem a outra eram a razão para ver Alice. O mais importante é que o primeiro filme de Scorsese (como os de Bogdanovich – o fundamental Targets – Coppola, Demme e muitos outros, produzidos por Roger Corman), Boxcar Bertha/Uma Mulher da Rua, uma história de luta sindical durante a grande depressão que tomava estranhas referências crísticas (aliás, foi Barbara Hershey, a protagonista, que durante a rodagem deu a Scorsese A Última Tentação de Cristo de Nikos Katantzakis, e por isso bem mais tarde, quando enfim Scorese conseguiu concretizar o projecto de adaptar o romance do escritor grego – com uma enorme controvérsia e actos de hostilidade - deu a Hershey o papel de Maria Madalena) e que indiscutivelmente chamava a atenção para o realizador.

(Entre Uma Mulher da Rua e Alice Scorsese realizou Mean Streets/Os Cavaleiros do Asfalto, obra decisiva, no seu território nova-iorquino, e encontro com Robert De Niro, mas esse filme só estreou em Portugal depois de Taxi Driver).

Agora, a referência ao 40º aniversário do filme remete de imediato para os anos 1970. O estatuto e a intensidade com que Taxi Driver nos perturba podem estar para além de uma datação, mas a inscrição da obra nos anos 70 é inquestionável.

Recorde-se que a década, hoje por vezes referida como “a idade de prata” do cinema americano (a de ouro sendo a do sistema clássico dos estúdios) é marcada pela fulgurante ascensão dos movies brats, a primeira geração de cineastas cinéfilos americanos, sobretudo formada já nas universidades, como Coppola, Scorese, Lucas e Spielberg (este tendo antes feito o seu tirocínio na televisão) e por dois acontecimentos traumáticos na sociedade americana, a guerra do Vietname e o escândalo Watergate que levou à demissão do presidente Nixon em 1974.

As feridas então abertas são um referencial imediato de uma das características mais salientes do cinema dos seventies, a paranóia. É recordar a propriamente chamada Paranoia Trilogy de Alan J. Pakula, com Klute, o extraordinário The Parallax View e Os Homens do Presidente, Os Três Dias do Condor de Sidney Pollack ou Um Dia de Cão, de Sidney Lumet. E Taxi Driver, claro.

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A frase “You talking to me?” dita ao espelho tornou-se celebérrima, ganhando um estatuto além do filme

Sem que os dois eventos, o Vietname e Watergate, sejam alguma vez referidos, eles estão subjacentes ao filme: Travis é um ex-marine e a acção decorre durante uma campanha presidencial nesse ano de 1976, com o democrata Jimmy Carter a bater o republicano sucessor de Nixon, Gerald Ford.

O que singulariza Taxi Driver é que Scorsese delimita um seu “território”, nova-iorquino, com uma fabulosa capacidade de enquadrar (a que acresce a fotografia de Michael Chapman e a insinuante música de Bernard Herrmann – foi o seu último trabalho e o filme é-lhe dedicado) e de criação de uma atmosfera, e a magistral composição de De Niro – não por acaso Travis Bickle é uma personagem que referimos directamente pelo nome. Mas houve um terceiro elemento.

Só por comodidade e força do hábito se dirá que Taxi Driver é “um filme de Martin Scorsese” – em rigor a autoria é partilhada por Scorsese, De Niro e o argumentista Paul Schrader.

Schrader é alguém obcecado com o pecado e com aquilo que será “a sujidade moral e social”, neste caso a prostituição. Entre o calvinista Schrader e o católico Scorsese há uma sintonia em torno da perdição e da redenção, como de resto a sucessiva colaboração em Toiro Enraivecido ainda melhor esclarecerá. Travis é um homem em perdição mas quando assim sendo investe a zona da prostituição, faz face aos chulos e resgata Iris torna-se num “táxi driver hero” e um salvador – e assim se redime.

Não por acaso o filme abre com um grande plano dos seus olhos, que depois muitas vezes vimos no retrovisor do táxi – Scorsese busca uma nossa relação directa com a personagem. Emblemática é a famosíssima cena em que ele, de cabelo cortado à Mohawk, torso nu com as pistolas, se olha ao espelho e “dialoga” com o seu reflexo perguntando “You talking to me?”, frase que se tornou celebérrima, ganhando um estatuto além do filme.

“Estás a falar comigo?” – “está a falar connosco?” Podemos sentir que a enorme força de Taxi Driver é a de, como muitos poucos outros filmes, nos interpelar directamente, e isso mantém-se incólume para lá de todas as suas características epocais.

Há apenas um travo amargo, a de ao revermos esta obra-prima, como Touro Enraivecido, Tudo Bons Rapazes ou outros filmes seus, mais termos presentes que aquele que foi um dos maiores cineastas americanos anda perdido há 20 anos.