OCDE baixa a previsão de crescimento económico mundial

Comércio mais fraco e dificuldades no sistema financeiro comprometem crescimento global. OCDE está mais pessimista sobre zona euro este ano.

Foto
A OCDE, liderada por Ángel Gurría, prevê que a economia mundial cresça menos de 3% este ano Miguel Manso

Um ritmo de crescimento mais lento do que o esperado ainda há três meses, um ambiente de taxas de juro baixas com riscos para o sistema financeiro e arrefecimento económico nos Estados Unidos, zona euro e países emergentes – é assim que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) olha para a evolução da economia mundial.

A instituição liderada por Ángel Gurría baixou nesta quarta-feira as previsões de crescimento globais para este ano e o próximo, alertando para os sinais mais fracos no comércio e para os riscos de instabilidade financeira. A economista-chefe da OCDE, Catherine Mann, avisa mesmo que o abrandamento prolongado pode tornar-se numa “armadilha de baixo-crescimento”, com reflexos no comércio, investimento, produtividade e salários.

Depois de uma variação de 3,1% no ano passado, a OCDE prevê que o PIB mundial avance 2,9% este ano, menos 0,1 pontos percentuais do que a previsão feita em Junho. Para o próximo ano, a organização  já espera que a actividade económica mundial acelere (3,2%), mas menos do que na previsão feita há três meses.

Os dados apresentam previsões apenas para as principais economias e regiões mundiais. Para os Estados Unidos – “onde o consumo robusto e a criação de emprego são mitigados por um fraco investimento” – o corte na previsão foi mais acentuado. O crescimento previsto é de 1,4% em 2016, menos 0,4 pontos do que em Junho. Para 2017 espera-se uma aceleração da actividade económica, para 2,1%, mas também inferior às expectativas de há três meses. As previsões e os alertas da OCDE foram conhecidos no mesmo dia em que a Reserva Federal dos EUA viria a adiar uma subida das suas principais taxas de referência.

Para a região do euro, a OCDE está a projectar um crescimento de 1,5%. A revisão em baixa é também de 0,1 pontos em relação ao valor referido há três meses e representa uma desaceleração mais acentuada. As perspectivas para o próximo ano continuam a ser de abrandamento económico, com o PIB a progredir 1,4%. A descida na previsão para 2017 é mais pronunciada, com uma diferença de 0,3 pontos em comparação com o valor de Junho.

A OCDE está mais optimista em relação à Alemanha, prevendo que cresça este ano 1,8%, mas mais pessimista em relação ao próximo ano, em que a principal economia do euro deverá desacelerar. Para França e Itália, as previsões foram revistas em baixa tanto para este ano como para o próximo. A organização conta que a economia francesa cresça 1,3% este ano e mantenha o mesmo ritmo em 2017. Quanto a Itália, aponta para um crescimento de 0,8% neste e no próximo ano.

Reflexos do “Brexit”

Não só o abrandamento dos Estados Unidos e das principais economia europeias, nomeadamente o Reino Unido, levam a OCDE a rever em baixa as suas projecções. Também pesam a desaceleração que se assistiu no comércio com a Ásia no início do ano e as “distorções do sistema financeiro [que] ensombram as perspectivas de crescimento”. E não é apenas para a economia europeia que o processo de negociação da saída do Reino Unido da União Europeia ensombra os níveis de crescimento. Segundo a OCDE, a “ligeira revisão em baixa” das perspectivas mundiais reflecte a redução das previsões nas principais economias desenvolvidas, nomeadamente o Reino Unido em 2017, contrabalançada por uma melhoria progressiva da actividade dos principais produtores de matérias-primas”.

Para o Reino Unido, a instituição associa o abrandamento económico ao resultado do referendo de 23 de Junho pela saída do país da União Europeia. À semelhança da economia mundial, o Reino Unido vai crescer este ano menos do que em 2015. Mas se a OCDE até reviu ligeiramente em alta a previsão para 2016 face ao que projectava em Junho – para 1,8%, em vez de 1,7%, as perspectivas para o próximo ano são de desaceleração, numa trajectória contrária ao andamento da economia mundial.

“Graças à forte resposta do banco de Inglaterra terem contribuído para estabilizar os mercados, a incerteza continua a ser extremamente elevada e os riscos são claramente negativos”, prevendo-se que o Reino Unido cresça “muito abaixo do ritmo dos últimos anos”, frisa a organização.

Para a OCDE, é preciso ter em conta que “as taxas de juro excepcionalmente baixas – e nalguns casos negativas – estão a distorcer os mercados financeiros e a acentuar os riscos no sistema financeiro. A desconexão entre a alta dos preços das obrigações e acções, e entre a deterioração de resultados e expectativas de crescimento, conjugada com o sobreaquecimento dos mercados imobiliário em muitos países, aumenta a vulnerabilidade dos investidores” no caso de uma forte correcção dos preços dos activos, avisa a OCDE.

Da economista-chefe da OCDE, Catherine Mann, partiu um apelo para que haja um resposta global para aumentar a procura, ao considerar “muito preocupante a ausência de apoio político a favor de políticas comerciais cujos benefícios seriam largamente partilhados [entre os países]”.

A instituição defende que os governos com margem orçamental possam ir mais longe nos estímulos à procura, sem descurarem a aplicação de “reformas estruturais”. A OCDE sustenta que os países devem procurar que os “ganhos da globalização são amplamente partilhados” e que as medidas voltadas para o crescimento global reduzem os riscos sobre o sistema bancário.

O mesmo apelo é dirigido em relação à UE por Catherine Mann, numa posição pessoal publicada no blogue da OCDE Ecoscope. “A política orçamental da zona euro também deve fazer mais para apoiar o crescimento, flexibilizando a aplicação do Pacto de Estabilidade e Crescimento da UE e excluindo [a contabilização da] despesa do investimento líquido das regras orçamentais”, escreve a economista-chefe.