Mariana Mortágua: a frase da polémica, os críticos, os defensores e a explicação

A bloquista começou por ser a deputada revelação na comissão de inquérito ao BES. Agora, dizem que manda no Governo. Afinal, o que pôs Mariana Mortágua no centro disto tudo? Quem a atacou e quem a defendeu?

Mariana Mortágua é a cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo de Lisboa.
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A deputada é criticada à esquerda e à direita Nuno Ferreira Santos

Já lhe chamaram “ministra das Finanças”, já disseram que é ela quem manda no PS e até arranjaram um nome especial para o imposto anunciado pelo Bloco de Esquerda, que está em negociações com o PS: Imposto Mariana Mortágua (IMM) ou "saque Mortágua". A deputada bloquista, uma revelação na comissão de inquérito ao BES, está debaixo do fogo da direita. E não só.

Fernando Medina, ex-número dois de António Costa na Câmara de Lisboa, lançou-lhe as críticas mais recentes: “Não é bom ter deputados a apresentar medidas importantes”, disse, referindo-se ao facto de ter sido ela, e também Eurico Brilhante Dias, pelo lado do PS, a explicar, no Parlamento, que PS e BE estavam a negociar a introdução e um novo imposto sobre o património imobiliário. “Acho que isso caberia ao Ministério das Finanças no tempo próprio.”

Meio a brincar meio a sério, o Expresso chamou a esta nova tributação o “Imposto Mariana Mortágua”.

A frase da polémica

A frase que pôs a bloquista no centro das críticas foi proferida no sábado, durante um debate sobre as Esquerdas e a desigualdade, na rentrée do PS, em Coimbra. “Do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro", disse Mariana Mortágua. “Não podemos ter vergonha de ter uma política social deste género. Cabe ao PS, se quer pensar as desigualdades, dizer o que é que pensa do sistema económico, do capitalismo financeirizado”, acrescentou. 

O ataque da esquerda

Do lado do PS as críticas estão frescas. Além de Fernando Medina, Sérgio Sousa Pinto também tomou a dianteira, com o apoio de segundas linhas.

Sousa Pinto escreveu no Facebook que esta “paródia senil” custará caro ao PS e classificou Mortágua como um exemplar dos "jovens burgueses criptocomunistas e habilidosos pantomineiros da velha escola”. Escreveu ainda que as palavras proferidas pela bloquista em Coimbra são uma “lição ministrada do alto do legado histórico do trotskismo ou de uma qualquer seita comunista heterodoxa”. O post teve “gostos” de outros socialistas, como Jamila Madeira.

Fernando Medina, que criticou o facto de a apresentação do imposto não ter sido feita pelo Governo, ainda avisou que “toda esta polémica sem nada de concreto tira toda a margem de manobra [ao Governo] para vir a aplicar a medida no futuro.”

O ataque da direita

O primeiro de todos os ataques a Mortágua – e a Centeno – visou a mesma questão e surgiu também sob a forma escrita, no Correio da Manhã de domingo. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, apontou: “Não é normal que os novos impostos sejam anunciados em público por partidos que não fazem parte do Governo. É uma demissão incompreensível do homem que tem a pasta das Finanças.” Mais tarde, acabaria por referir-se ao imposto apresentado pelo BE e pelo PS como "saque Mortágua".

Adolfo Mesquita Nunes, do CDS, também jogou ao ataque: “O BE pede ao PS que perca a vergonha de ir tributar quem acumula dinheiro, ou seja, quem poupa. O BE pede assim ao PS que perca a vergonha de ir tributar aqueles que, pagos os seus impostos, cumpridas as suas obrigações, conseguem depois de anos de trabalho pôr algum de lado, para comprar uma casa, acautelar a reforma, estudar, deixar aos filhos, investir ou criar postos de trabalho. Num país sem poupanças. O BE pede ao PS que perca a vergonha de ir tributar não os rendimentos mais elevados, não os consumos de luxo, mas as poupanças daqueles que aforram.” E questionava: “O CDS pergunta, por isso, ao PS o seguinte: vai perder a vergonha, continuando a dar protagonismo ao Bloco, ou vai ficar embaraçado?”

Ninguém do PS havia de responder a estas palavras, mas menos de 24 horas depois, na Assembleia da República, no final de uma conferência de imprensa sobre o novo Sistema Nacional de Informação Cadastral, Jorge Moreira da Silva insistia: “Na campanha eleitoral afirmei que não podíamos correr o risco de termos Jerónimo de Sousa e Catarina Martins como vice-primeiros-ministros (…), nunca me passou pela cabeça que Mariana Mortágua se convertesse verdadeiramente na ministra das Finanças deste Governo.”

As críticas seguiram pela voz de outro deputado de direita, Nuno Magalhães, líder parlamentar do CDS-PP, centradas na questão do imposto anunciado pelo BE. "Creio que pela primeira vez numa coligação – e sei bem o que vou dizer, sei bem daquilo que vou dizer e sei bem porque o vou dizer – não é o maior partido da coligação que anuncia matérias do ponto de vista fiscal e orçamental. Quando é o BE que anuncia em nome de um governo do PS mais impostos e mais taxas para os portugueses, eu creio que ou o senhor ministro das Finanças aparece ou facilmente será esquecido, ou facilmente deixará de ter condições para se manter no cargo, porque já percebemos que não manda, quem manda é a senhora deputada Mariana Mortágua", disse.

Nuno Magalhães deixou um conselho a António Costa: “É altura de o senhor primeiro-ministro meter um pouco de ordem nisto.”

A defesa

Nem só de ataques vive a história protagonismo incómodo de Mortágua. Do lado do PS, João Galamba assumiu a sua defesa, no Facebook. “Parece que houve uma iniciativa do PS em Coimbra em que a Mariana Mortagua terá dito que era preciso atacar as poupanças dos portugueses. Lendo o que se escreve por aí, diz que o PS que estava presente aplaudiu em peso e mostrou grande fervor anticapitalista (…). Esta história seria muito preocupante, se fosse verdadeira. Acontece que nem a Mariana Mortagua disse o que lhe atribuem, nem o PS aplaudiu em peso as declarações que ela não fez.”

Numa longa mensagem, Galamba defende que já percebeu que “há quem queira transformar um imposto justo e que não abrange a esmagadora maioria dos portugueses num confisco que abrange a maioria dos portugueses”. E conclui: “Por muito que inventem e distorçam, não transformarão um contributo justo numa coisa que ele não é.”

Na tentativa de recentrar o debate no que é realmente importante para o Bloco, Catarina Martins disse ontem que a questão essencial é “saber como é que o património imobiliário de luxo poderá ser chamado a contribuir com impostos para o país" para que, com isso, seja possível "aumentar as pensões mais baixas".

A explicação

Depois de instalada a polémica, Mariana Mortágua fez questão de se explicar nas redes sociais. “Taxar riqueza acumulada é taxar a riqueza que permite que o número de milionários aumente e, com isso, acabar com a sobretaxa de IRS da classe média”, escreveu. “Taxar riqueza acumulada é conseguir taxar riqueza que de outra forma tem fugido para aumentar pensões, rendimento social de inserção (RSI), complemento solidário para idosos (CSI) e o abono aos mais pobres.”

Recorrendo a uma imagem para todos perceberem o que está em causa, Mariana insistiu no Twitter: “Ricardo Salgado – riqueza acumulada. Trabalhador do banco – poupança. A diferença? O segundo já paga muitos impostos e o primeiro não.” Hoje mesmo, no JN, respondeu a Rui Moreira e à questão do saque Mortágua: "Redistribuir a riqueza por via fiscal é assim mesmo. É preciso escolher. Para baixar o IRS de quem recebe 900, 1500 ou 2000 euros de salário é necessário pedir um contributo a quem tem património muito avultado."

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