A minha primeira paixão

“Não sou músico. Mas a música ensinou-me que consigo sobreviver da escrita”

Kalaf Epalanga sente que os ponteiros do relógio se aproximam do meio-dia e depois disso fica tarde. Então, é preciso pôr a música e o sucesso que ela trouxe em pausa e escrever romances. Para que, tal como os Buraka chegaram ao mundo inteiro, um miúdo negro do Cacém possa descobrir Dostoievski.

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Kalaf Epalanga granjeou sucesso mundial com os Buraka Som Sistema Nuno Ferreira Santos

Nasci num país que vivia sob um regime comunista e em guerra. Sul-africanos a invadir o país, cubanos no território, e os meus pais nunca permitiram que lá em casa entrasse um único brinquedo bélico. Não havia brincadeiras de cowboys e de soldados, mas o que não faltava em casa eram resmas e resmas de papel e lápis de cor e canetas. Esses eram os nossos brinquedos.

O meu irmão deu um pintor de mão cheia e eu fui tentando seguir os passos dele, desenhando, riscando, rabiscando. Mas descobri que não conseguia igualar o meu irmão, ele desenha à Goya. Tentou explicar-me que nem todos são o Goya ou o Jackson Pollock, que tudo é expressão, que o importante não é a técnica, é conseguir contar uma história. Quando começámos a ter essas conversas, já eu estava envolvido na escrita. Aquilo que eu procurava no desenho - conseguir emocionar com um traço – é exactamente o mesmo que se faz com as palavras. Não vejo diferença entre as duas expressões artísticas. É pores emoção no papel. Não sei se é igual na música. Eu não sou músico. Não entendo de música.

Então escrevia, talvez influenciado pelo meu avô que que queria ser escritor mas não conseguiu escrever. Ele era um excelente contador de histórias e incentivava a escrita, o desenho, a expressão. Mas não escreveu porque nunca teve tempo. Era político e trabalhava muito, estava sempre disponível para os outros. Por isso nunca o incomodávamos demasiado – sabíamos que o dividíamos com o mundo, com a comunidade. Esperávamos pelas seis da tarde que era quando o dia dele terminava e antes do jantar ficávamos a mastigar cana-de-açúcar no quintal para ele desligar. Contava histórias sobre tudo e sobre nada, não me lembro de nenhuma e lembro-me de todas ao mesmo tempo. Guardo os diários dele.

Mas eu não escrevia para ser escritor. Ia à escola e pensava que ia estudar para ter uma outra profissão. Em Angola, todos os poetas que conhecia tinham outra profissão, mas a escrita não era vista como algo menor. Muitos dos pais da nação eram escritores e para mim ser escritor era tão sério como salvar pessoas num bloco operatório ou pensar políticas de educação. Só descobri os escritores em Portugal. 

Cheguei a Lisboa com 17 anos para terminar o liceu e depois estudar Gestão. Em Angola eu conseguia vender os quadros do meu irmão e senti que um de nós tinha de saber fazê-lo bem. Mas quando cheguei, caí no início do movimento hip-hop, no meio daqueles jovens de segunda geração a gritarem que também existiam e também tinham algo a dizer. Pela primeira vez vi-me a conviver com guineenses, cabo-verdianos… – que se parecem comigo, mas são diferentes ao mesmo tempo - o que nunca tinha acontecido em Angola. Ouvia-os falar de África com tanta paixão sem nunca lá terem estado. Tinham uma ideia romântica de Angola, desfasada da realidade de um país que passava por uma guerra civil sangrenta. E eu senti que podia participar na discussão. Que tinha algo a dizer. E queria contribuir para o discurso de ambos os lados. Faço arte para toda a gente que respira, sente e chora como eu. Comecei a escrever com a ideia de que aquilo que escrevia seria publicado quando fosse maduro o suficiente. Mas a música tornou-se muito atractiva. Aquilo que eu queria dizer era tão urgente que precisava de uma via mais rápida.

Procurei pessoas para cantarem as minhas letras, mas todos se recusaram. O rap é solitário, os artistas escrevem as suas próprias canções. Comecei a perseguir compositores e músicos de todos os géneros, do rock ao jazz. Numa sessão de gravação, enquanto eu corrigia um verso, um cantor de música electrónica ouviu o meu tom de voz e disse: ‘Já experimentaste gravar os teus poemas em cima de uma base de música electrónica?’ Mostrou-me Massive Attack e eu, que nunca me tinha visto a fazer aquilo, achei fantástico. Fui buscar os poemas e os escritos que tinha em arquivo e comecei a gravá-los. 

Tinha consciência de que a música que eu fazia era demasiado esquisita para ser consumida por uma grande massa. Mas tal como olhava para a pintura e sabia que nem todos os pintores tinham de ser o Goya, pensava que nem toda a música tinha de encher pavilhões ou passar na Rádio Comercial. E acreditei sempre nisto: ‘Se eu sinto que é válido e conheço mais como eu, os outros vão achar o mesmo’. As resistências com que esbarrei eram fruto de ignorância pura e dura. A luta que foi fazer música electrónica em português… Ouvia o Rui Veloso cantar as canções do Carlos Tê e pensava: ‘Se tu cantas isso e te emocionas com isso, porque não é possível pôr essa poesia em cima de um beat de trip hop e criar algo que é só teu?’ Trata-se de traduzir sentimentos comuns à humanidade em canções que podem dizer algo específico à comunidade africana, à comunidade branca ou a todos. Quando me fartei de ouvir discursos absurdos, criei uma editora.

O meu envolvimento com a música deu-se porque senti que podia contribuir. Senti que ouvindo Kizomba e Kuduro e Samba e tendo Viriato da Cruz e Ruy Mingas na minha bagagem cultural podia sentar-me com alguém que só ouve [John] Coltrane e chegar a um ponto de convergência. O sucesso que atingi com a música foi maravilhoso, não me arrependo de nada. Sempre acreditei que havia um público para os Buraka Som Sistema, mas nunca imaginei o sucesso que o grupo acabou por ter. Mas a música para mim existiu sempre devido à escrita. A música ensinou-me que consigo sobreviver da escrita. 

Dizem-me que sou maluco por deixar os Buraka e me dedicar à literatura. Não vou deixar de trabalhar com a música porque continuo a trabalhar com pessoas em quem acredito piamente, de quem sou fã. Mas estou a envelhecer. Estou a dois anos dos 40. O ponteiro do relógio está quase a passar o meio-dia. Agora tenho de escrever. E para isso preciso de parar. Nos últimos dez anos viajei bastante para representar música e não para ouvir histórias. Identifiquei ideias nessas viagens e agora tenho de me isolar e de me ausentar para ir até certos lugares sentir o pulsar daqueles sítios e colocar as ideias em prática. 

Estou neste momento a escrever o meu romance e a mostrá-lo ao meu editor. Sinto-me escritor, mas não tenho confiança para perceber se o tom é aquele… Há momentos em que sei que estou lá e há dias em que não. Há dias em que sei que encontrei a minha voz. Mas estou mais perto do que estava há dez anos. Não há uma resposta certa, as chances de termos sucesso em qualquer expressão artística são mínimas. Mas há um certo espírito kamikaze, aquele instinto do or die… Aquilo que diferencia não é saberes construir um texto, mas sim não teres alternativa, minares o teu próprio caminho de forma a impedires-te de cair na tentação do trabalho nine to five. A escrita pura e dura não me dá garantias de sucesso, mas viver dá-me garantias de sucesso. Não há nada como viver para se conseguir acertar. E tal como eu sabia que havia público para as minhas músicas, sei que haverá público para os meus livros.

Quando cheguei a Portugal lembro-me de visitar o Cacém, que me pareceu um cemitério. Um lugar triste, sem quiosques para comprar revistas e jornais, um local onde era difícil chegar aos livros. E eu que tinha tido acesso a eles num país com tantas carências… Nos bairros sociais há a escola, o autocarro e o McDonald’s e ‘safem-se’. Um hambúrguer custa menos do que um bilhete de autocarro, o que prova a segregação. Não se investe para o sonho. Se começas a quebrar o espírito de uma pessoa com cinco anos de idade, o que vais fazer quando ela tiver 15? No meio de todos aqueles africanos em busca da sua voz, fiz uma pergunta a mim mesmo: ‘Aquilo que eu escrevo é necessário?’ Há cerca de 300 mil cidadãos de origem africana em Portugal e as suas vozes só são ouvidas em circunstâncias particulares. Em confrontos com a polícia. Quando marcam um golo para a selecção nacional. Quando conseguem fazer uma canção que transponha as diferenças culturais. Em 300 mil, quantos pintam? Quantos empreendem? Quantos escrevem? Quantas livrarias de literatura africana existem em Lisboa?

Eu quero ser artista, mas ao mesmo tempo sou obrigado a fazer da minha escrita uma ferramenta útil de discussão. Quero que a minha escrita seja um clique. É preciso deixar pegadas de ratos e isso só acontece quando há pessoas parecidas connosco que deixam essas pegadas. Não há diferença entre mim e o Jacinto Lucas Pires e o José Luís Peixoto. Temos a mesma idade, somos da mesma geração. Eu quero participar nesta conversa para trazer outros para a conversa. Se aquilo que o Peixoto escreve sobre o pai me ajuda a apaziguar as minhas próprias perdas e ausências, esse livro também vai ser útil a um miúdo que vive no Cacém. A literatura africana no Cacém é um bom passo para chegar à literatura russa. Se um miúdo negro chegar ao Jacinto e ao Peixoto por causa dos meus livros, está aí a utilidade da minha escrita.