Universidades arrancam o ano com programas alternativos de integração dos alunos

Em várias instituições as iniciativas já aconteceram em anos anteriores. O ministro com a tutela do Ensino Superior, Manuel Heitor, tinha apelado a que instituições encontrassem alternativas às praxes.

Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Durante a tarde de quarta-feira, o primeiro-ministro António Costa e o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), Manuel Heitor, estiveram na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (UNL) para assistir ao início do ano lectivo.

O arranque das aulas segue a pausa lectiva em que a praxe esteve constantemente na agenda. Desde o início do Verão, Manuel Heitor manifestou o “repúdio total” pela praxe académica, classificou-a como um prática “fascizante”, enviou uma carta às instituições de ensino superior a pedir programas alternativos de integração e um documento assinado por 100 personalidades, entre as quais políticos de vários quadrantes, apontava para a mesma necessidade.

Em Almada, ontem, o ministro gostou do que viu. "O que se viu hoje aqui é que o ensino superior é uma alegria e que estudar é um esforço, mas é um esforço que tem de ser feito com alegria. E o nosso papel é dar oportunidades para que todos os jovens, através do Ensino Superior, acedam ao conhecimento", disse Manuel Heitor, citado pela Lusa.

Ao final de uma tarde em que assistiu com Costa a actividades promovidas pela instituição com vista à integração dos novos alunos, Heitor manifestou-se satisfeito com a opção por uma alternativa às praxes.

Ao longo desta semana multiplicam-se um pouco por todo o país as sessões de acolhimento aos novos estudantes em universidades e politécnicos: a Faculdade de Arquitetura de Lisboa apresenta uma “nova abordagem da praxe”, que “envolve a comunidade de forma solidária”, incluindo a Comissão de Praxes; os alunos da Católica de Lisboa também participaram numa “alternativa à praxe tradicional” e foram passar um dia a apanhar batatas nos campos agrícolas da Golegã. Estes são apenas dois exemplos.

A designação varia conforme a instituição, com algumas a assumir uma “nova abordagem à praxe” e outras uma “alternativa à praxe”, mas parece haver uma maior sensibilidade sobre o tema.

No Porto, os recém-chegados à universidade são recebidos nesta quinta-feira em frente à reitoria, na Baixa da cidade. Como cumprimento de boas-vindas, mais de 4000 novos estudantes terão acesso gratuita a 16 pontos emblemáticos da cidade como a Torre dos Clérigos, o Museu Soares dos Reis ou Serralves. O reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo de Azevedo, começa por explicar que a iniciativa, ao acontecer nestes moldes pelo segundo ano, não é uma forma de reacção ao repto ministerial mas que, no fundo, o objectivo passa pelo mesmo: “proporcionar aos novos estudantes uma recepção que ajude a integração académica”. No entanto, o reitor não entende esta prática como “uma substituição da praxe”, até porque considera um “conjunto de actividades académicas”, como a imposição de insígnias, “interessantes”. O que a Universidade do Porto não quer é que haja actividades “pouco dignas” que acontecem, por vezes, no decorrer dessas práticas.

Em Lisboa, o ISCTE organiza o IUELCOME pelo terceiro ano, uma actividade que, ao longo da primeira semana do ano lectivo, envolve estudantes, docentes e serviços do instituto. Assim, “os alunos ficam a conhecer o campus, a conhecer outros colegas do primeiro ano, os colegas mais velhos, os docentes e os rostos das pessoas nos serviços”, explica a pró-reitora para a área da inovação curricular e pedagógica do ISCTE, Susana Carvalhosa. Mais uma vez, as palavras para definir a iniciativa são “receber e integrar”.

Em relação ao ano lectivo que arranca esta semana no ensino superior, o reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, refere que para além dos habituais programas de recepção aos novos estudantes, não houve nenhuma “alteração substancial”. O reitor da UC refere o apoio a iniciativas de estudantes (ver texto ao lado) e o diálogo com os estudantes como forma de evitar “que haja excessos”, mas diz que também não é isso “que faz desaparecer as actividades da praxe”.

Várias foram as instituições que proibiram actividades da praxe no seu campus, como ou ISCTE ou a Universidade do Algarve, que viu uma estudante sua internada em 2015 na sequência de uma praxe violenta.

Sem referir a palavra “praxe”, Feyo de Azevedo diz que “não são permitidas actividades nas instalações da UP que atentem contra a dignidade, liberdade e direitos dos estudantes”. O reitor entende no entanto que os problemas relacionados com praxes violentas “não se resolvem por decreto, mas por evolução cultural que temos que ajudar a que ocorra".

Discordâncias com Heitor

Por cada voz que se levanta contra a praxe, outras há que a defendem. Depois das declarações de Manuel Heitor no início do Verão, as juventudes partidárias de direita insurgiram-se através de comunicado em momentos diferentes.

A Juventude Social-democrata acusou em Julho o ministro de “radicalismo”, considerando que a praxe, “quando bem realizada, promove a integração de forma recreativa, lúdica e pedagógica”. Depois de Heitor se ter referido à “prática fascizante”, os social-democratas criticaram o ministro por “tratar de forma igual o que é diferente” e de não saber “distinguir o bom do mau”.

Mais recentemente, já em Setembro, foi a vez da Juventude Popular. Os jovens do PP, em reacção ao apelo do ministro para que as instituições de ensino superior encontrassem formas alternativas de integração, lamentaram as recomendações do responsável, que consideram “severamente generalistas, ideologicamente preconceituosas e tradicionalmente ignorantes”.

O Dux de Coimbra, João Luís Jesus, não vai tão longe como as jotas. “O senhor ministro pode decidir e tecer as opiniões que quiser. Não quer dizer que toda a gente neste país concorde com ele”, afirma. Para o responsável máximo pela praxe da academia mais antiga do país, as iniciativas promovidas pelas universidades são “bem-vindas”, considerando também que “tem que haver uma diversidade de ofertas” que mostre aos novos estudantes “aquilo de que eles podem usufruir no novo ambiente”. “As tradições académicas são uma das vertentes, mas não a única”, aponta.