Editorial

As desconfianças da classe média

Mais um imposto sobre o património, mas ainda não se sabe bem quem o vai pagar.

Estão ainda longe de serem cabalmente conhecidos os contornos do novo imposto sobre o património imobiliário global acertado entre socialistas e bloquistas, mas a mensagem soprada aos quatro ventos é que os dois partidos garantem a protecção da classe média. Num país em que 46% dos contribuintes não paga IRS, segundo dados da Autoridade Tributária divulgados no final de ano passado, é natural que a classe média, ensanduichada entre os ricos que fogem ao fisco e os pobres que não têm rendimentos tributáveis e verdadeiro alvo do cobrador Estado, tenda a acreditar muito pouco em garantias partidárias. Composta na sua esmagadora maioria por assalariados, é este segmento da população activa que há anos vem sendo sucessivamente esmagado pelo fisco para sustentar políticas incapazes de traçar uma estratégia de crescimento de médio e longo prazo. Ora esta navegação à vista não dá sinais de ceder, como se vê no último relatório do Conselho de Finanças Públicas conhecido ontem, cujo pessimismo se reflecte na revisão em baixa do crescimento para este ano (de 1,7% para 1%) e nas fortes críticas de Teodora Cardoso à “falta de sustentabilidade disto”.

É neste enquadramento que surge mais este imposto-que ainda-não-se-sabe-bem-como-vai-ser, mais a subida dos impostos indirectos que o ministro das Finanças candidamente anunciou, em mais uma gafe daquelas que o PS tem cada vez mais dificuldades em digerir. A convidar à natural desconfiança da classe média sobre o seu futuro, juntam-se malabarismos verbais tentando iludir o verdadeiro significado do que está em causa. Entre a profissão de fé na certeza de que a classe média não será penalizada por mais este imposto, feita por Mariana Mortágua e Eurico Brilhante Dias, e a profecia de Luís Lima, da APEMIP, segundo a qual “os únicos que não serão afectados são os ricos, que têm a capacidade de distribuir o património por titulares colectivos (…)” vai uma enorme distância. No fim, uns pagam e outros escapam, mas será muito importante avaliar com que custos para a economia do país.

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