Crítica

Três tempos

Jia aproxima-se do melodrama como nunca o tinha tentado.

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Jia usa as canções para as converter em matéria “fantasmática”, o lastro de um tempo perdido
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Jia usa as canções para as converter em matéria “fantasmática”, o lastro de um tempo perdido
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Jia usa as canções para as converter em matéria “fantasmática”, o lastro de um tempo perdido
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Jia usa as canções para as converter em matéria “fantasmática”, o lastro de um tempo perdido
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Jia usa as canções para as converter em matéria “fantasmática”, o lastro de um tempo perdido

Go West, cantam os Pet Shop Boys no início do filme de Jia Zhang-ke, canção que, aliás, voltará mais tarde à banda sonora, a sua euforia então já transformada numa qualidade, se não elegíaca, pelo menos evocativa, marcando literalmente outro tempo ou a memória de outro tempo, num filme que, como o de Hou Hsiao-Hsien, se podia chamar Três Tempos.

O uso das canções (e há outras em Se as Montanhas se Afastam), com este exacto propósito de as converter em matéria “fantasmática”, o lastro de um tempo perdido a insinuar-se na banda de som, não é inédito em Jia, e bem pelo contrário é elemento fulcral de vários filmes seus. Mas aqui, e tal como no precedente Um Toque de Pecado trabalhava a recordação do cinema de género (nesse caso o filme de artes marciais), Jia aproxima-se do melodrama como nunca o tinha tentado; e como na melhor tradição do melodrama o “significado” das coisas (canções, objectos), modula-se, flutua, desvia-se, constroi-se - e o Go West do fim terá, na mente do espectador, um peso bem diferente do da sua audição inicial.

Claro que há esta ironia, “ir para o Oeste”, e não é obviamente inocente, como não o é o facto de haver uma personagem (uma criança) chamada Dollar. O paradoxo crucial ao filme de Jia, mais uma observação sobre as rápidas transformações da sociedade chinesa e a sua particular sobreposição de comunismo e capitalismo, está no tratamento, ao mesmo tempo físico e simbólico, do espaço. Os três episódios do filme (passados em 1999, por altura de Plataforma, o filme de Jia com que este mais explicitamente se parece relacionar, em 2014 e em 2025, respectivamente) são assinalados por uma mudança no formato da imagem, do “quase quadrado” do primeiro tempo ao “muito largo” do derradeiro; seria um simples “truque”, mais ou menos inteligente (até por reproduzir a tendência para o “alargamento” da imagem que tem sido a do cinema e não só), se Jia não o tratasse ao contrário, e a imagem, quanto mais larga, não parecesse também cada vez mais comprimida, os exteriores a darem lugar aos interiores, os céus limpos a transfomarem-se em céus escuros, as personagens cada vez menos móveis, a abundância espacial uma mera ilusão que reflecte também a separação de todos eles, a mulher, os dois homens, a criança.

Jia não insiste especialmente, ou explicitamente, nisto - funciona como um “clima”, uma sugestão, quase subliminarmente a infiltrar-se no espírito do espectador e na disposição emocional com que recebe a história contada pelo realizador. História essa que, independentemente das questões narrativas propriamente ditas e das alusões que nela são contidas, é sobretudo, e como que revendo boa parte da obra de Jia, uma colecção de detalhes e notações. Da euforia da chegada de um novo século, no primeiro episódio, onde a manifestação folclórica e popular da “velha China”, ainda prevalece, a uma evolução à beira da “distopia” onde o novo-riquismo tecnológico, entre outros aspectos, vai avançando, como se fosse a visão distorcida de uma “modernidade” que chega por esmagamento (tal como a imagem se vai esmagando). Este carácter algo “remissivo” de Se as Montanhas se Afastam, aliado à relativa bonomia da sua colagem ao melodrama e a algumas das suas fórmulas clássicas (o triângulo amoroso, de onde tudo parte), tem porventura contribuído para uma recepção internacional um tanto tépida. Que nos parece imerecida: não será outro Plataforma, nem sequer outro Natureza Morta, mas é um belíssimo filme, que se inscreve na obra de Jia com inteira coerência.