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Megafone

Os trinta são como os vinte, mas nem sempre

Se isto não é maturidade, então não sei o que é. Se vos disserem “aos 30, começas a ter outra maturidade e já não cometes os mesmos erros”, esqueçam

Uma vez que parte do público do P3 estará a caminho dos 30 anos, decidi escrever sobre essa coisa de “entrar nos trinta”. Escolhi fazê-lo no dia em que completo 32 anos, porque escrever sobre os 30, precisamente aos 30, é o mesmo que falar de um filme quando este está a começar. A não ser que seja o “Velocidade Furiosa”: nesse caso, podemos antecipar que será um filme em que os protagonistas, ao volante de carros de gosto muitíssimo duvidoso, cometerão uma série de infracções do código da estrada, enquanto se envolvem em diferendos com tipos perigosos que, invariavelmente, acabarão presos ou mortos; no final, a recompensa para os protagonistas serão novos carros de gosto muitíssimo duvidoso e, quem sabe, o amor de moças deveras sensuais.

Voltando aos 30. A grande diferença, nos 30, é saber antecipar. Vejam este exemplo: o meu joelho esquerdo dói-me, quando o tempo vai mudar.

Se isto não é maturidade, então não sei o que é. Se vos disserem “aos 30, começas a ter outra maturidade e já não cometes os mesmos erros”, esqueçam. Aos 30, fazemos asneiras na mesma. A diferença é que antecipamos que vai correr mal. Por exemplo: ter cuidado com as horas de sono. Aos 23, deitamo-nos tarde e arrependemo-nos, porque podíamos ter feito mais coisas. Aos 32, deitamo-nos tarde e sabemos que nos vamos arrepender ao acordar. E que vamos prometer nunca mais ir para a cama tarde. Aí está outra coisa: aos 23, mentimos aos nossos pais sobre a hora de dormir; aos 32, mentimos a nós mesmos. Aos 23, quando cometemos excessos de teor alcoólico, achamos que tudo vai acabar bem, porque nos sentimos indestrutíveis. Aos 32, quando cometemos os mesmos excessos, começamos a antecipar, praí a meio do segundo copo, que o caminho, não só, será sinuoso, como parecerá sinuoso, porque vai estar tudo a girar.

Aos 23, jogamos à bola depois de uma bebedeira; aos 32, dormir bêbado cansa mais do que fazer uma prova de triatlo. Comes porcarias na mesma, mas sabes que vai correr mal. Aos 23, sabes que deves comer coisas saudáveis porque a tua avó te diz. Aos 32, sabes que deves comer coisas saudáveis porque aprendeste que, afinal, azia não é mau feitio. Aos 23, achas que é cedo para pensar no futuro e olhas para a “idade adulta” como olhas para um carro que se desloca na tua direcção, à noite: só vês faróis e o carro parece parado. Depois, o carro atropela-te e, aos 32, já fazes planos a longo prazo e tens lucidez suficiente para antecipar que estás lixado. Mas há coisas que não mudam. A pressão social, por exemplo. Aos 23, usas aquela roupa manhosa porque todos os teus amigos usam.

Aos 32, se quiseres continuar a seguir o grupo, é bom que penses em procriar. Aos 23, segues as tendências e falas como um estrela de rock. Aos 32, continuas a seguir as tendências e falas como se tivesses a idade do Mick Jagger. Aos 23, a plena cidadania é ter um iPhone. Aos 32, também.

Apesar de cometermos os mesmos erros, embora muito menos vezes, porque entretanto crescemos um bocado, há uma coisa que ainda não consigo explicar: aos 32, parece que precisamos de desculpas para não fazer coisas. Quando estamos numa idade em que seria suposto termos vontade própria para dizer que não, parece que negamos a nós mesmos esse direito.

Passo a exemplificar. Aos 23, arranjamos desculpas para fazer coisas: “Tenho que ir àquela festa porque vai estar cheia de miúdas giras; porque vai ser fixe; porque me vou embebedar; porque ficar em casa é uma seca; porque nem me apetece ir, mas fica-me bem, porque faz-me parecer mais cool”. Aos 32, arranjamos desculpas para não fazer coisas: “Não vou porque hoje trabalhei muito, estou cansado; porque amanhã acordo cedo; porque estou mal disposto; porque dá futebol; porque as acções da PT estão em queda; porque está um cão grande à porta da minha casa (e outro dentro do meu carro); porque tenho a minha melhor camisa para lavar; porque a economia não arranca (esta desculpa resulta em Portugal desde sempre); porque o meu joelho esquerdo está a dizer-me que vai mudar o tempo”. Parece que temos que nos desculpar, quando bastava dizer: “Não vou porque não me apetece. E porque já sei que amanhã vou sentir-me como se tivesse feito uma prova de triatlo”.

Resumindo, malta dos 20: apesar de algumas contradições, ter 32 é espectacular, embora com um ligeiramente menor factor surpresa. É tipo fazer surf, mas com prancha. Aos 20, a prancha somos nós.

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