Crónica

Quo vadis? Emigro...

Não quero que me peças para emigrar, quero antes que me valorizes, que me dês oportunidades para vingar aqui, para ostentar o meu mérito e vigor, para dar à tua língua novos paladares, mostrar-lhe novos caminhos.

Portugal, a ti entrego o meu coração. Cresci a saborear os teus feitos heróicos, as tuas aventuras, a tua vontade de crescer, de voar, de ser algo mais do que o nariz do Ocidente. E o teu mar! O teu mar é o meu sangue, a tua costa a minha pele.

Mas se tiver de emigrar, faço-o e espero que não leves a mal.

De fora, é espectacularmente fácil falar. Tenho alguns tios que foram viver para o estrangeiro e quando ocasionalmente os vejo oiço todas as histórias magníficas, todos os toques de diferenças culturais e isso excita-me! Mas depois olho para ti, meu esplendor lusitano, e não te quero perder. Abandonar o café ocioso, o beijo impetuoso, o teu cheiro temperado. Tu vives em mim e nas tuas raízes amadureço, mas eu sou apenas um “pirralho" com ideias meio megalómanas de opulência e, agora, não tenho a certeza se mas podes concretizar. Não sei.

Não quero que me peças para emigrar, quero antes que me valorizes, que me dês oportunidades para vingar aqui, para ostentar o meu mérito e vigor, para dar à tua língua novos paladares, mostrar-lhe novos caminhos. Peço-te, deixa-me fazer isso por ti, prometo que não te arrependerás. Porém, só nado em marés de más notícias, menos emprego, menos qualidade de vida, menos hipóteses de concretizar aquele sonho de desfrutar de um jantar na ternura da minha casa, constituir uma família numerosa...

Antes da época de exames começar vieram à minha escola uns oradores, dois adultos, a gesticular energicamente enquanto nos deslumbravam com todas as oportunidades lá fora, e eu, sentado na minha cadeira de metal, não parava de me imaginar de fato e gravata, armado em “big shot” a apertar mãos e a fechar negócios em Berlim ou Moscovo. No entanto, um certo sentimento de culpa nasceu dentro de mim, como se fosse casado e estivesse a fantasiar com outra rapariga qualquer. Não quero desistir de ti, Portugal.

Mas se tiver de emigrar, faço-o e espero que não leves a mal.

Se não entenderes a tempo o que eu valho, não duvides, partirei e tu sabes, mais que ninguém, que não tenho medo.

Por amor de Deus, olha para os teus filhos a despedirem-se do conforto e segurança dos seus lares, a contentarem-se com o carinho platónico de conversas comoventes à frente de um ecrã. Já chega, não achas? Já é tempo de os trazer de volta! É altura de cresceres, Portugal, de compreenderes de uma vez por todas que, se permaneceres nessa ingénua inércia, ficarás reduzido a anciãos melancólicos e desvalorizados sentados no jardim, afogueados pelo domingo soalheiro de Outubro, a atirarem pedaços de pão a pombos vagabundos. A mesma lengalenga repete-se.

Não acreditas em mim? Basta pores os pés em qualquer intervalo de secundário, em qualquer workshop que promova os segredos da empregabilidade. Atenta nos olhos esperançosos dos rapazes e raparigas da minha idade, vê como eles falam do exterior como um oásis de trabalho e realização profissional. Eu tinha ciúmes se fosse a ti!

Dou-te um conselho de amigo: investe na tua educação, melhora a qualidade das escolas. Não trates os teus professores como se exercessem uma carreira de segunda ou terceira, porque, no final de contas, todos os profissionais reconhecidos prestigiosamente no mundo possuem dentro de si a visão e a sombra dos seus mentores.

Não é tarde para mudares.

Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal!

18 anos, à espera de ingressar no ensino superior