À abordagem!

O CDS de Assunção Cristas se prepara para fazer à classe média o mesmo que o CDS de Paulo Portas fez aos pensionistas.

A crassa inaptidão de Pedro Passos Coelho para a liderança da oposição abriu a dado momento a possibilidade de que, pelo menos na marcação de agenda, o PSD pudesse ser ultrapassado pela maior agilidade do CDS de Assunção Cristas. Enquanto Passos hesitava entre meter a primeira ou a marcha-atrás, o CDS podia meter a terceira, a quarta, a quinta — e despistar-se na curva. É o que costuma acontecer.

Num mesmo dia, que foi ontem mesmo, assistimos a Assunção Cristas acusar o governo de “atacar a classe média para fazer a vontade os sindicatos” e o líder parlamentar Nuno Magalhães anunciar ações do partido para tentar impedir o acesso das finanças às contas bancárias com mais de 50 mil euros. Ora, isto levanta a pergunta de quem pensa Assunção que os sindicatos representam em Portugal — em larguíssima medida, sendo o nosso país o que é, a classe média — e sugere a resposta de que para o CDS a “classe média” seja a das contas bancárias acima de 50 mil euros. Ou seja, a classe média de um país que não seja Portugal.

E se isto ainda pode ser atribuído à contingência de casos específicos que uma oposição sempre disponível queira aproveitar, o mesmo não se pode dizer da proposta de reforma fiscal do CDS.

No próprio dia em que o CDS anunciou a sua cruzada pró-classe média foi apresentada pelo partido uma proposta de um crédito fiscal reforçado a empresas capazes de realizar investimento produtivo de forma a descer a taxa efetiva de IRC destas para os 5,5%. Isto é, menos de metade da taxa ultra-competitiva de 12,5% que a Irlanda aplica às empresas que não têm a sorte de se chamar Apple. Dado o rombo certo no tesouro do estado, fica a questão: quem iria pagar o crédito fiscal reforçado que o CDS quer dar às grandes empresas? Não é difícil adivinhar: a classe média.

E porquê grandes empresas? Dada a formulação da proposta, está bom de ver que ela não se aplica a PMEs, mas que pretende captar empresas com capacidade de gerar bastantes postos de trabalho. O problema é que esses são postos de trabalho caros e sujeitos a uma chantagem permanente de saída casos os descontos nos impostos não se mantenham. Feitas as contas, a Irlanda pagou à Apple cerca de 200 mil euros por cada posto de trabalho, grande parte dos quais no seu call-center europeu (cujos salários não são certamente de 200 mil euros/ano). O CDS acabaria por implementar em Portugal um sistema no qual a classe média-alta pagaria para precarizar a classe média-baixa, ou os pais para precarizar os filhos.

Ora esta abordagem do CDS à classe média (e o termo “abordagem” deve provavelmente ser aqui entendido no sentido técnico que a pirataria lhe dava) tem a sua importância porque o CDS de Assunção Cristas se prepara para fazer à classe média o mesmo que o CDS de Paulo Portas fez aos pensionistas. Ou seja: prometer ser o porta-voz dos seus interesses específicos e depois, uma vez no governo, ir-lhes descaradamente ao bolso.

E se à primeira caem todos, à segunda só cai quem quer.