Países do Sul reforçam cooperação perante desconfiança da Alemanha

“Quando líderes de partidos socialistas se encontram não sai, na maioria das vezes, nada de muito inteligente”, disse Schäuble.

Os líderes do bloco do Sul vão voltar a reunir-se em Lisboa
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Os líderes do bloco do Sul vão voltar a reunir-se em Lisboa Michalis Karagiannis/Reuters

É preciso mais investimento para combater a estagnação da economia, repetiram os líderes dos países do Sul da União Europeia no final de uma reunião de sete governantes esta sexta-feira em Atenas. A cimeira terminou com a promessa de continuar a “iniciativa de diálogo e coesão”, como lhe chamou o anfitrião, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, numa data a definir em Lisboa.

O chefe de Governo de Itália, Matteo Renzi, declarou que “a Europa não pode ser mais governada pela austeridade, detalhes e considerações fiscais”, enquanto o português António Costa repetiu que o reforço do investimento é necessário acrescentando que há diferenças entre os países. Aqueles que têm largos excedentes têm “o dever de investir mais”, cita a agência portuguesa Lusa.

O Presidente francês, François Hollande, afirmou ter esperança de que “quando os populistas e extremistas esperam que a Europa se disperse, possamos enviar uma mensagem de unidade, de coesão e possamos trazer a contribuição do Sul à União Europeia”. Além de Tsipras, Renzi, Hollande e Costa estiveram presentes Nicos Anastasiades, de Chipre, Joseph Muscat, de Malta, enquanto Espanha foi representada pelo secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Fernando Eguidazu.

Mesmo que tenham sido repetidas declarações de que o que se quer não é uma divisão – esta reunião serve para mais união na Europa e não mais divisão, repetiu Tsipras –, e que logo no segundo parágrafo da declaração final os governantes sublinhem o seu forte empenho na Europa, as reacções vindas da Alemanha foram de desconfiança e desagrado. O ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, comentou mesmo a propósito da reunião que “quando líderes de partidos socialistas se encontram não sai, na maioria das vezes, nada de muito inteligente”.

Este encontro precede uma reunião informal de líderes europeus em Bratislava (Eslováquia) na próxima semana, com a participação de todos excepto do Reino Unido, já que o objectivo é a antecipação das consequências da saída do país após o referendo.

Schäuble não foi a única voz alemã a fazer-se ouvir. Já antes, o eurodeputado Markus Ferber, da CSU (União Social-Cristã, o partido-gémeo da CDU de Merkel na Baviera) partilhou com o jornal conservador Die Welt a sua preocupação de que os países do Sul pudessem formar uma “coligação de redistribuidores” que ameaçasse “a estabilidade financeira da Europa”: “Depois da saída da Grã-Bretanha, o ‘Clube Med’ [o grupo dos países do Sul] terá uma minoria suficiente para bloqueio que poderá impedir em Bruxelas [a aprovação de] todo o tipo de leis de que não goste”, disse.

Curiosamente, observadores da cimeira comentavam na direcção oposta, questionando-se sobre quão unificada seria esta posição do Sul em Bratislava e que continuidade poderia ter a plataforma. Afinal, a tentativa anterior de formação de uma frente anti-austeridade do Governo grego falhou quando o país tentou, no ano passado, evitar um penalizador memorando (que foi rejeitado em referendo e depois aprovado pelo Executivo), e não encontrou então aliados entre outros países do Sul.

Outro responsável alemão, Manfred Weber, do Grupo Popular Europeu (democratas-cristãos) no Parlamento Europeu, reagiu acusando Tsipras de uma “tentativa de divisão” na Europa e de uma manobra de diversão quando Atenas está sob pressão para cumprir objectivos do terceiro acordo com os credores. “A pressão está de volta”, disse em Bruxelas o chefe do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, em relação à Grécia. “O Verão acabou. Precisamos de progresso. É altura de arrumar o material de campismo”, disse o holandês.

Em relação ao investimento, os líderes propõem na declaração final medidas concretas como a duplicação da capacidade financeira do Fundo Europeu para Investimento Estratégico (“Plano Juncker”) e destacam em particular a necessidade de “fortalecer programas para os jovens”.

Outra questão importante foi a das migrações. “Estamos na linha da frente de crises paralelas que testaram a Europa”, disse Tsipras no início da discussão, referindo-se ao facto de os países que “têm sido desproporcionalmente afectados pela crise económica nos últimos anos” estejam também “na linha da frente dos fluxos migratórios”.

Tsipras apresentou aliás este grupo como uma espécie de contra-peso a outro grupo informal dentro da UE, o de Visegrado, na questão da imigração – o grupo que inclui a Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia formou-se na sequência do apelo da Alemanha aos países para redistribuir os refugiados que o Verão passado chegaram à Europa e num encontro esta semana também de preparação para Bratislava disseram querer uma “revolução cultural na Europa”.