Lembras-te de Emir Kusturica? Sim, merece ganhar o Leão de Ouro

Este cinema talvez já não exista. Leão de Ouro para quê, então? Para nos lembrarmos que ele existiu: On The Milky Road em Veneza.

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O leiteiro e A Noiva em On the Milky Road Marcel Hartmann
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On the Milky Road Marcel Hartmann
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On the Milky Road Marcel Hartmann
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Emir Kusturica e Monica Bellucci em Veneza REUTERS/ Alessandro Bianchi

Foi há 35 anos que um júri de Veneza presidido por Italo Calvino dava o Leão de Prata para uma primeira obra a uma evocação nostálgica da Jugoslávia dos anos 60: Lembras-te de Dolly Bell? Foi há muito, muito tempo. Silvestre, de João César Monteiro, também concorria. Fora de concurso passava, em 1981, Os Salteadores da Arca Perdida, de Spielberg, o cinema era outro planeta. Há quase duas décadas, o realizador dessa primeira obra, Emir Kusturica, participava no concurso de Veneza: Gato Preto, Gato Branco, o Leão de Prata dessa edição. A trepidação ainda estava connosco. Foi a última vez, a trepidação e Veneza.

Depois de um documentário sobre Maradona e de uma longa, Promise me This, perguntámo-nos: lembras-te de Emir Kusturica? Parecia que o cinema dele tinha sido há demasiado tempo. E que se tinha também esquecido de si. Ele começou a ser rock star de charuto. Agora já passou mais tempo. Há oito anos que não filmava. Mas nunca um filme de Kusturica nos tinha antes olhado nos olhos – forma de acordar a nossa memória de espectadores – para nos devolver de outra maneira essa inquietação. Lembras-te de Emir Kusturica? Sim, e On The Milky Road merece ganhar o Leão de Ouro da competição de Veneza.

Dirigindo animais como um director de zoo – gansos, falcões, cobras, galinhas, um urso que conhece há cinco anos e por isso atreve-se a partilhar com ele uma refeição de laranjas (os animais, diz, são como as pessoas, dá-se-lhes comida e os milagres acontecem; e com excepção de uma cobra que é efeito especial, tudo é real) -, Kusturica começa também a conduzir os planos iniciais de On The Milky Road como um director de orquestra. 

Retirando de cada “instrumento”, em qualquer lugar do ecrã em que ele esteja, mais possibilidades do que aquelas para que foi criado. Não é fogo-de-artifício: para manter um filme em levitação é preciso mise-en-scène. Kusturica é o primeiro a dizer que estamos a ressacar pela falta que essa coisa nos faz. A melancolia está no olhar dele, aliás. Olhar, sim, ainda não tínhamos dito mas Kusturica é também intérprete: um leiteiro e músico que atravessa a Guerra dos Balcãs como um dissidente do jogo que se joga na História. Vai encontrar uma igual, A Noiva, uma italiana que foi amada por um general sérvio (Monica Bellucci).

Ele mandou matar a mulher para poder ficar com a amante, mas a amante denunciou-o, e o general começou a perseguir a ex-amada, que foge para fora do mundo (uma das histórias verídicas que povoam a imaginação do filme). O leiteiro e A Noiva esqueceram-se de quem foram antes da Guerra. Fecharam as suas portas. Conhecendo-se ao ritmo da música de casamentos e funerais – e dos rasgões na pele causados pelo mecanismo de um velho relógio austro-húngaro -, começam a abri-las. Emir e Monica iniciam uma história de amor.

É a lindíssima possibilidade de reinvenção do cineasta Kusturica, quando, na espantosa última hora de On the Milky Road, faz o maduro casal aprender a respirar debaixo de água (uma noiva, como em O Atalante, de Jean Vigo, é claro), baixa a música para casamentos e funerais, deixa o vento tomar conta da guerra e do filme.

Ouvir o tom diferente de uma melodia que se conhece pode ser comovente. Emir não sabe se voltará a filmar. Diz que fazer um filme hoje é muito difícil quando “se leva o cinema a sério”. Ele é como Fellini, manda construir todo um set e depois coloca a câmara para filmar um cantinho dele. Pior, manda construir todo um set e depois manda destruí-lo.

A rodagem de On the Milky Road durou três anos, por causa das tempestades que se abateram sobre a Sérvia e por causa de um falcão, que primeiro não havia e depois havia e o filme teve de ser mudado. Este cinema talvez já não exista. Leão de Ouro para quê, então? Por isso mesmo, porque é vital lembrarmo-nos dele.