Larry Clark e a vida secreta dos adolescentes

Em entrevista ao Ípsilon, o realizador explica o regresso aos seus temas essenciais. E fala dos improvisos que aproveitou na rodagem do filme

Foto
Havia a ideia “de filmar num registo de algo como anti-publicidade”, atirar o “glamour” contra o carácter físico das personagens

Em O Cheiro de Nós Larry Clark volta, como sempre voltou, àqueles que são os seus temas essenciais: os adolescentes, os corpos deles, as vidas mais ou menos secretas deles, o “cheiro” que resulta dessa conjugação, um cheiro de que não é metáfora nenhuma dizer que é um cheiro a sexo, porque nos filmes de Clark um adolescente é, antes de tudo e independentemente de origens sociais ou étnicas, um pequeno dínamo de infinitas energia e voracidade sexuais.

Numa sociedade como a americana, que nunca perdeu por completo o seu fundo puritano, este retrato da juventude tinha que causar um efeito. “Foi por isso que deixei de ler os críticos, sobretudo os americanos. Não falavam dos filmes, convertiam o incómodo que os filmes lhe causavam num ataque pessoal contra mim. Fartei-me, passei a ignorá-los”, diz Larry Clark ao Ipsilon, num período da sua vida em que passa muito mais tempo em França do que nos Estados Unidos.

A conversa decorreu num hotel parisiense, onde Clark estava há meses e ainda sem planos para regressar ao país natal, Paris foi o cenário de O Cheiro de Nós, e como se tem visto nos últimos meses França foi o país em que, aos 73 anos, passou para a frente das câmaras a tornar-se um dos modelos da última campanha da Dior.

As pessoas têm tendência a ir para onde gostam delas, e Larry Clark não é certamente o primeiro cineasta americano a ser melhor acolhido em França (os Cahiers dedicaram capas e intermináveis “dossiers” a O Cheiro de Nós) do que nos Estados Unidos. Desde que Kids, o primeiro filme de Clark e o momento da sua passagem da fotografia ao cinema, foi mostrado em Cannes há cerca de 20 anos (é um filme de 1995) que alguns fãs franceses o desafiavam a filmar em França; outros, pelo contrário, diziam que ele não o podia fazer, porque os seus adolescentes “eram muito específicos, muito americanos”, e ele não sabia nada da juventude francesa. Claro que isto o espicaçou muito mais: “foi isso que me desafiou”.

PÚBLICO -
Foto

Adolescentes do mundo, uni-vos

Clark tem ideias muito precisas sobre o que é ou não “específico” dos adolescentes. Não diz, como a outra, que um adolescente é um adolescente é um adolescente, mas assevera que a sociedade moderna, com os artefactos tecnológicos que põe à disposição, tende a uma espécie de união dos adolescentes do mundo inteiro. “A internet tornou porosas as fronteiras culturais, anulou as distâncias, converteu ou replicou fenómenos ou culturas locais em reflexos do outro lado do mundo”. Conta que conheceu miúdos iranianos e iraquianos que conheciam e eram fãs dos seus filmes, e que estavam “perfeitamente identificados com as referências culturais dos seus filmes”.

“Os adolescentes desta época” tendem a aproximar-se, a diferença é com as pessoas que foram adolescentes noutras épocas: “Eu fui adolescente nos anos 50, e nessa época se precisava de saber alguma coisa tinha que perguntar aos meus pais. Era frequente ouvir como resposta um ‘tá mas é calado, ó palerma’. Os adolescentes de hoje não precisam de perguntar nada aos pais, perguntam ao Google”.

O interesse por estes adolescentes franceses que protagonizam O Cheiro de Nós nasceu, ainda assim, de um momento muito específico. “Foi numa altura em que vinha muito a Paris, em 2010, por causa de uma exposição de fotografias minhas organizada no Palais de Tokyo. Andavam sempre por ali uns miúdos ‘skaters’, imensos, cheguei a contar mais de cinquenta ao mesmo tempo. Eu ficava a vê-los às voltas para cima e para baixo, e perguntava-me: quem são estes miúdos? De onde é que vêm? O que é que fazem quando saem daqui?” Esta curiosidade foi crescendo até Clark sentir a vontade de lhe responder, ou de lhe inventar uma resposta, através de um filme.

Recorda-se de certa tarde ter telefonado a um dos jovens franceses que o instigavam a filmar em França, Mathieu Landais, uma espécie de candidato a Harmony Korine francês (Korine foi o argumentista de Kids, foi a partir daí que a sua carreira disparou), a dizer-lhe: “Vamos fazer o filme, começa a escrever”.

O último filme de Larry Clark que se tinha visto em Portugal era Wassup Rockers, com data de 2005 (pelo meio houve Marfa Girl, de 2012, não estreado por cá). Independentemente do que diz o cineasta sobre a “universalidade” adolescente, Wassup Rockers era um filme fortemente “local”, assente nas tribos de Los Angeles, dos miúdos brancos ricos de bairros como Beverly Hills aos garotos predominantemente latinos, filhos de imigrantes guatemaltecos ou nicaraguenhos, de zonas como South Central. Face a essa sociologia tão precisa, O Cheiro de Nós parece-nos mais abstracto, mais onírico, com momentos duma contemplatividade quase elegíaca, como imagens de publicidade onde tivesse sido instilada uma boa dose de veneno. Larry Clark reconhece isso como uma intenção. “As personagens são trabalhadas com uma psicologia mais opaca”, a sua posição como cineasta remete-se a uma condição mais próxima da observação do que da intervenção, como naqueles muitos planos em que só há miúdos, skates, música, a luz do verão parisiense: “Era isso, sim, aproximar-me destes miúdos como se estivesse a descobrir uma ‘espécie’ diferente”, sendo que o carácter em transformação, já não criança e ainda não adulto, dos corpos adolescentes é algo que evidentemente lhe interessa desde sempre.

PÚBLICO -
Foto

Aproveitar improvisos

E havia a ideia, diz, “de filmar isto num registo de algo como uma anti-publicidade”, atirar o “glamour” contra o carácter físico das personagens e dos seus gestos – foi por isso que aproveitou uma Fashion Week que decorreu em Paris durante a rodagem, filmou muito nessa altura, com a ideia de trabalhar o enquadramento dos seus jovens contra esse fundo quase irreal. “Era uma ideia que não estava prevista, aproveitei as circunstâncias”, e muito mais improvisos ao longo do filme. “O Mathieu não parava de escrever e reescrever o argumento, e eu não tenho problema nenhum em mudar tudo no momento de filmar, em seguir uma ideia que apareça de rompante, modéstia à parte sou muito bom a mudar coisas no calor da batalha”.

O aspecto elegíaco é reforçado pela presença da música, em especial duma canção cujo título não podia ser mais simbólico neste contexto: a célebre Forever young de Bob Dylan. “Foi ideia minha fazer o miúdo tocá-la, lembro-me de que ele não conhecia as palavras, fui à internet fazer o download da letra”. E não houve problemas com a autorização de Dylan? “Nenhum. O Dylan gosta de mim. Não somos amigos mas temos amigos em comum”.

Se a “adolescência é o seu território”, como diz com a naturalidade de quem reconhece um facto assente, O Cheiro de Nós ensaia uma aproximação, que talvez seja inédita na sua obra, ao seu contraponto: a velhice, os corpos envelhecidos dos adultos. A questão que se põe é se nunca pensou num filme onde os adultos seriam os protagonistas, e Clark responde que é justamente uma das ideias que tem em mente para um próximo projecto, já com título e tudo: Five Women, uma história sobre um grupo de mulheres todas de idades diferentes, umas mais jovens, outras mais velhas”.

Em todo o caso, não pensa abandonar o seu “território”. “Os miúdos do cinema de Hollywood são uma coisa inaceitável, é puro bullshit. Foi por isso que Kids teve o impacto que teve, simplesmente era um filme que nunca tinha sido feito, nunca se tinham visto personagens daquelas tratadas daquela maneira”. Mas não escapa nada, não há no cinema outros retratos da juventude onde Larry Clark encontre alguma coisa de autêntico? Ele abre três excepções: para Gus van Sant, “especialmente Paranoid Park” (de resto um filme onde é legítimo ver alguma da sua própria influência); para o Argent de Poche de François Truffaut, que Clark considera “maravilhoso” e é um dos filmes de que mais gosta em absoluto; e para o Rebel Without a Cause de Nicholas Ray, onde é capaz de reconhecer (é um filme de 1955) traços genuínos da sua própria adolescência.