Este piquenique leva-nos ao paraíso ou ao inferno?

Festival Todos arranca na Colina de Santana, com dança, música, teatro, visitas guiadas, comidas do mundo – e quatro piqueniques inspirados por Bosch.

Fotogaleria
O espectáculo Piknik Horrifik será um dos pontos altos da oitava edição do Festival Todos – Caminhada de Culturas DR
Fotogaleria
DR
Fotogaleria
DR

Querem participar num piquenique? A proposta é tentadora, certo? O que há de mais inocente e agradável do que um piquenique no paraíso? É essa a proposta da empresa Paradise Inc.: se vocês pedirem, nós organizamos um piquenique em qualquer lugar, só precisamos de um chão de cimento, quanto ao paraíso… somos nós que o criamos.

Paradise Inc. é uma empresa fictícia, criada pela companhia teatral belga Laika, e propõe-se organizar os seus piqueniques – paradisíacos ou infernais, é o que vamos ver – a partir desta quinta-feira, e durante quatro dias, em Lisboa. O espectáculo Piknik Horrifik será um dos pontos altos da oitava edição do Festival Todos – Caminhada de Culturas (de 8 a 11), uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa e da Academia de Produtores Culturais.

Este ano, o centro do Todos volta a ser a zona do Campo Mártires da Pátria e Colina de Santana e os quatro piqueniques acontecem dias 8,9, 10 e 11 pelas 20h (com duração de 90 minutos e reserva de lugar obrigatória por email) no antigo quartel da GNR no Largo do Cabeço da Bola.

Peter de Brie, criador e um dos fundadores da Laika, explica que a ideia partiu da obra Jardim das Delícias Terrenas do pintor holandês dos séculos XV e XVI Jheronimus Bosch – um “jardim” aberto a muitas interpretações, mas no qual as “delícias terrenas” surgem entre uma representação do paraíso e outra do inferno. Os Laika decidiram juntar aqui outro elemento: o livro Hamburgers in Paradise no qual a autora holandesa Louise O Fresco analisa, de forma crítica, a actual produção industrial de comida.

“O livro descreve a forma como os humanos passaram sempre grande parte do seu tempo à procura de comida e como hoje vivemos nesta espécie de paraíso em que, desde que tenhamos dinheiro, podemos comprar toda a comida que quisermos vinda de qualquer parte do mundo”, resume Peter de Brie. “Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas começam a interrogar-se sobre como nos iremos alimentar quando formos muitos mais, se podemos continuar a comer carne, etc.. Para nós, isso levanta duas perguntas: estamos mesmo num paraíso ou estamos a caminho do inferno?”.

Voltemos à diligente empresa Paradise Inc., que não se limita a organizar piqueniques mas aproveita-os para testar novos produtos. E, desta vez, o que têm para apresentar são salsichas de árvore. “A máquina de produção começa a funcionar e percebemos que há também seres humanos nela”, explica Peter de Brie. “Começam a servir salsichas de seres humanos, o que é um comentário à forma como lidamos com a indústria alimentar. Estamos numa máquina de produção e já não fazemos comida porque precisamos de comer mas porque precisamos de a vender.”

Nem tudo terá um aspecto atraente, mas é aí que reside a arte dos Laika nos espectáculos em que utilizam a comida, seja como tema ou como parte da história. “Todos os anos fazemos três ou quatro novos espectáculos e um deles é aquilo a que chamamos sensorial”, diz Peter. “Geralmente estamos demasiado centrados na visão e na audição mas nós gostamos de trabalhar com os cinco sentidos”.

Há muitos anos que os Laika apresentam os seus espectáculos em Portugal e em 2004 fizeram mesmo um de raiz: o Hotel Tomilho, com o Teatro Regional da Serra do Montemuro, em que o público “pegava numa mala, escolhia o quarto ideal para a noite, em cada quarto passava-se uma cena e de manhã, ou seja, duas horas depois, era servido o pequeno-almoço”.

Noutro espectáculo, Aromagic (2013), um cenário de programa de televisão é o pretexto para explorar a neurogastronomia (e aí era preciso comer um cérebro ensanguentado). Uma experiência provavelmente tão radical como a de um outro trabalho dos Laika, em torno da figura do Don Juan, em que um busto deste em chocolate acaba derretido e devorado pelos espectadores. “Aqui Don Juan seduz as pessoas pela comida e mesmo na morte, em chocolate, continua a seduzir.”

Entre a sedução e o horror

E as pessoas comem sempre o que lhes dão? Estão menos abertas a novidades gastronómicas do que visuais ou auditivas, admite, mas, acrescenta sorrindo, “temos que caminhar na fronteira entre a sedução e o horror – se elas não estiverem dispostas a comer não funciona, mas até agora acabaram sempre por comer”.

Mas a programação do Todos tem muito mais para além do Piknik Horrifik. Há vários espectáculos, entre os quais, no dia 10 às 21h30 no Jardim do Campo Santana, um de funambulismo no qual a artista francesa Tatiana-Mosio Bongonga irá caminhar sobre um arame até ao topo da Nova Medical School, acompanhada, no solo, por 50 guitarras eléctricas dirigidas por Pedro Salvador. No, agora encerrado, antigo hospital psiquiátrico Miguel Bombarda haverá poesia e música em torno do tema Mas está tudo louco? e no Jardim do Tourel os N3rdistan (França/Marrocos) vão cruzar o rap, a música electrónica e a poesia árabe.

Há também visitas guiadas a vários locais da Colina de Santana (é uma oportunidade única para visitar a sede do Todos, no antigo Palácio do Patriarcado, onde estão algumas exposições de fotografia), debates, actividades no jardim, e experiências gastronómicas nas Cozinhas Paraíso, com cozinheiros amadores vindos de vários pontos do mundo mas todos habitantes do bairro.