Opinião

“Que serais je sans toi?”

Quantas pessoas como Marie haverá em Portugal?

“O que será de mim se tu desapareces? O que farás se eu morro? Se tu desapareces, não conseguirei matar-me!”. Foi assim que, ao começo de uma destas noites, Marie se dirigiu ao marido Daniel (nomes fictícios). São cidadãos de um país em que a morte assistida continua criminalizada e têm mais de 85 anos. Daniel é desde há muito adepto da morte assistida e colocava-a como uma possibilidade para si próprio. No entanto, a mulher recusara-se sempre a discutir o assunto.

Há dois anos, Marie teve alguns AVC, de que resultou uma paralisia de toda a parte esquerda do corpo e danos cerebrais severos. Danos que, apesar de tudo, lhe permitem ter conhecimento do estado lamentável em que se encontra, embora não consiga acompanhar raciocínios elaborados e viva num estado de grande ansiedade, por vezes dir-se-ia mesmo que de pânico, que só a presença do marido consegue apaziguar.

Uma vez, Marie e Daniel ficaram estendidos toda a noite no chão de um dos seus compartimentos: Daniel fora incapaz de impedir que Marie caísse, mas ele próprio magoara-se e não tivera forças para se levantar, muito menos para levantar a mulher. Tiveram de esperar no chão pela manhã seguinte, quando chegasse a antiga empregada, que tinha a chave da porta.

Daniel tem-se queixado ao longo destes últimos anos da falta de informação credível por parte dos médicos, assim como da sua falta de empatia. Como se Marie já não contasse para o mundo dos vivos, como se o caso estivesse encerrado e Daniel fosse um estorvo por ainda fazer perguntas pertinentes sobre o estado da mulher.

O casal tem filhos, mas a viverem em cidades longínquas.

Muito boa pessoa, Daniel recusa a ideia de internar a mulher num lar. Conhece bem o péssimo funcionamento da maior parte dos lares do seu país (que diríamos dos nossos?) para colocar essa ideia. Esse foi um conhecimento traumático obtido com familiares internados. Mesmo que a mulher já não o reconhecesse, penso que se recusaria na mesma a interná-la – não conseguiria aguentar o sentimento de culpabilidade. Pior ainda numa situação em que Marie precisa tanto dele para ter os seus terrores acalmados.

Daniel diz-me: “A pergunta que Marie me dirigiu naquele fim de tarde exigiria uma resposta e uma solução inencontráveis na legislação, na opinião política e médica do meu país”.

A questão seria diferente se no país de Marie e Daniel a morte assistida estivesse despenalizada e houvesse também disposições de fim-de-vida em que a possibilidade de a pedir, em determinadas circunstâncias, estivesse prevista. Ou talvez não fosse assim tão simples. Quantas vezes é que Marie dá mostras da lucidez manifestada nas perguntas que dirigiu ao marido? Voltamos à velha questão bíblica: “Quantos justos será necessário encontrar para salvar Sodoma?”. Quantas respostas “verdadeiramente” lúcidas? Mas, claro, é melhor a sociedade não querer saber nem querer debater estes casos e deixar as famílias – neste caso, um cônjuge de mais de 85 anos -, arcarem sozinhas com este pesadelo. Quanto à classe médica em particular, não gosta de ser incomodada com casos difíceis, é melhor responder com a antipatia, a ver se, neste caso, o marido desiste de aparecer.

Na situação de Marie, Daniel diz-me que estão milhares de pessoas no seu país. E quantas em Portugal? E em que condições? Nos “defundos” de muitos lares, para utilizar o termo significativo do nosso sociólogo José Machado Pais?

Lembro-me de um médico amigo me ter dito, em relação ao fortíssimo AVC que atingira um colega mas que o deixara vivo, embora completamente “desfeito”: “Pena o INEM não ter aparecido seis minutos antes ou seis minutos depois”. Já não me recordo ao certo dos minutos que mencionou, a questão era óbvia: “antes”, para o conseguirem “ressuscitar” para uma vida decente, “depois”, para não o “ressuscitarem” para uma “vida” daquela ordem.

E foi ao pensar na vida aflita de Marie e Daniel que me surgiu do fundo da memória este título retirado de uma famosa e antiga canção cantada por Jean Ferrat, “Que serei eu sem ti” (trad. livre), baseada em estrofes extraídas de um longo poema de Louis Aragon.

Docente aposentada da Universidade do Minho