A Segunda Circular tem um “potencial fantástico”

Debate do Docomomo juntou Gonçalo Byrne e Joan Busquets para falar de Lisboa e Barcelona.

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A Segunda Circular poderia ser o pólo de onde começassem a nascer novos centros, diz arquitecto espanhol Sandra Ribeiro
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O turismo de massas em Lisboa “está a criar uma situação casas-versus-airbnb” com o consequente aumento das rendas. Daniel Rocha

Nestas primeiras décadas do século XXI, as cidades – neste caso Lisboa e Barcelona – oferecem desafios diferentes dos do passado? O que aproxima e o que divide as duas? Quais as estratégias que resultaram e as que falharam?

O Docomomo Internacional (Documentação e Conservação do Movimento Moderno) – cuja 14.ª conferência decorre até sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – desafiou o arquitecto português Gonçalo Byrne e o seu colega espanhol Joan Busquets a discutir o tema, numa conversa moderada por Josep Maria Montaner, actual vereador para a Habitação do município de Barcelona.

Um dos grandes problemas de Lisboa, lembrou Byrne, é a desertificação do centro histórico – um processo que começou recentemente a inverter-se devido a outro fenómeno em explosão, o turismo de massas, que, por outro lado, “está a criar uma situação casas-versus-airbnb” com o consequente aumento das rendas.

O arquitecto português falou de dois bons exemplos de estratégia para a cidade em Lisboa. Um deles foi o projecto de recuperação do Chiado feito por Álvaro Siza depois do incêndio que atingiu aquele bairro em 1988. “A estratégia de Siza permitiu uma refundação da centralidade histórica do centro” oferecendo no Chiado um misto de áreas residenciais, de comércio e escritórios, explicou Byrne – que seguiu a mesma lógica no seu Quarteirão Império, também no Chiado.

O outro bom exemplo é a Expo, onde assistimos a “um fenómeno muito forte de uma nova centralidade”, numa zona que também mistura residências, escritórios e comércio, espaços públicos de qualidade e uma frente ribeirinha de quatro quilómetros, mas que se assume igualmente como um hub para os transportes, com importantes vias de entrada e saída da cidade, comboio, metro e proximidade do aeroporto.

A propósito de novas centralidades, Busquets, que é arquitecto e urbanista, disse que Lisboa “é uma cidade de avenidas” e destacou o “potencial fantástico” da Segunda Circular como pólo em redor do qual começam a surgir novos centros.

Quanto a Barcelona, destacou como ponto negativo “a péssima qualidade” de muitos dos edifícios de habitação construídos na década de 60 – problema que Montaner também referiu, sublinhando que é preciso encontrar soluções – e, como aspecto positivo, a enorme quantidade de equipamentos que foram construídos nos últimos 30 anos. “Estas bibliotecas, escolas, centros comunitários são um elemento muito importante para a coesão social”, afirmou Busquets.

Problema comum a Lisboa e Barcelona é o facto de só o centro ser bem servido de transportes públicos, enquanto nas zonas mais periféricas “o carro continua a ser o protagonista principal”. Mas, a par da mobilidade, da habitação e da gestão do enorme fluxo de turistas, há, disse o arquitecto espanhol, novas questões a ser levantadas por estas cidades. Uma, que considera muito fundamental, é “a forma como a cidade pode reencontrar-se com a sua geografia, que não passa apenas pela água e os espaços verdes”.

A propósito de geografia, na sua apresentação Byrne tinha já referido que Lisboa é uma cidade “resiliente” na qual, através da natureza e da intervenção humana, se mantém um confronto entre “permanência e vulnerabilidade”. Para Busquets, o que pode marcar o olhar dos arquitectos actualmente é essa noção de que as características físicas do território são determinantes.

“As cidades hoje não têm uma forma clara, há pontos de atracção que mudam em cinco anos”, disse. “Por isso, não podem ser desenhadas numa só camada, precisamos de muitas camadas e nesse processo descobrimos que a cidade tem uma fisicalidade.”