Nova app portuguesa quer ajudar a reduzir o risco do cancro

Com uma mensagem por dia, a HAPPY promove pequenos hábitos no comportamento dos utilizadores para uma vida mais saudável. Desde Agosto que a aplicação pode ser descarregada gratuitamente.

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Nuno Ribeiro vai testar a aplicação para saber se as pessoas evitam comportamentos de risco HUGO SANTOS

São gestos simples, mas têm repercussões: comprar fruta e vegetais no supermercado, ir para debaixo do guarda-sol na praia, substituir a cerveja por uma bebida sem álcool, fazer o exame médico que está atrasado, levantar-se do banco e caminhar no jardim. Com os anos, a soma destas acções tem influência na saúde e pode ajudar a diminuir o risco de doenças como o cancro. Mas na nova aplicação portuguesa para telemóveis, a HAPPY, este tipo de acções dão pontos. Quem tiver 150 pontos está a fazer tudo o que pode, dentro do universo da aplicação e das suas sugestões diárias, para reduzir o risco de vir a ter cancro.

Criada e desenvolvida nos últimos dois anos no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S), a HAPPY (sigla em inglês para Health Awareness and Prevention Personalized for You, qualquer coisa como Sensibilização para a Saúde e Prevenção Personalizada para Si) já está pronta para ser descarregada gratuitamente. Os utilizadores que fizerem o download da aplicação em Setembro e Outubro com idade entre os 18 e os 40 anos poderão entrar num estudo anónimo de Nuno Ribeiro, investigador do I3S, que vai analisar a eficácia da aplicação na prevenção do cancro.

“Não basta ter o conhecimento [sobre os riscos associados ao cancro] para alterar o comportamento. Muitas vezes, as pessoas conhecem o risco mas assumem-no ou ignoram-no e continuam com o comportamento que lhes dá prazer”, diz Nuno Ribeiro ao PÚBLICO, dando o exemplo de quem continua a fumar. A aplicação não dá só informação às pessoas, também oferece “a oportunidade de alterar os comportamentos”.

A HAPPY envia diariamente uma única mensagem a cada utilizador. Essa mensagem é aleatória em relação à hora do dia e ao tema do conteúdo, mas está condicionada pela situação em que o utilizador se encontra. A aplicação tem acesso temporário ao lugar onde o utilizador está. A partir daí, tem em conta factores como a meteorologia, os raios ultravioleta ou se alguém está num supermercado, para escolher dentro da sua colecção de mais de 1500 mensagens aquela que é mais apropriada. 

“São coisas simples. Mudar uma sobremesa por outra, fazer um exame médico”, diz o investigador, que trabalha há alguns anos na área da prevenção na saúde e está a fazer um doutoramento, na Universidade de Aveiro, onde está a desenvolver esta aplicação. À medida que os utilizadores vão cumprindo as acções, ganham pontos, até um total de 150. Podem depois “competir amigavelmente” com outros utilizadores para ver quem tem mais pontos. “O principal desafio é que as pessoas mantenham o uso da aplicação e depois alterem elas próprias o seu comportamento. Às vezes, mudar uma coisa simples tem uma amplificação na vida das pessoas porque mostra que somos capazes de mudar.”

PÚBLICO -
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Hugo Santos

Nuno Ribeiro foi durante dez anos professor de ensino básico e secundário na área da Biologia e da Geologia. Em 2006, ligou-se ao Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), hoje integrado no I3S. Lá, desenvolveu projectos para a sensibilização sobre o cancro, mais precisamente, como se pode reduzir o risco de desenvolver estas patologias.

“Havia algum aumento do conhecimento por parte das pessoas e um indício de que podia haver uma mudança de comportamento”, explica. Mas isto pode não ser suficiente. Há três factores importantes para haver uma mudança de comportamento: tem que haver motivação para isso, a pessoa tem que ser capaz (é preciso ter sapatos de desporto para correr, por exemplo) e, por fim, tem que se ser lembrado no momento mais apropriado para se mudar o comportamento.   

“Há automatismos instituídos em nós que são difíceis de quebrar porque não temos consciência deles. O uso de tecnologias é uma forma de chamar a atenção para esses automatismos”, diz Nuno Ribeiro, que contextualiza a sua investigação com a teoria desenvolvida pelo investigador norte-americano B. J. Fogg, que na década de 1990 fez uma série de experiências na área da psicologia experimental demonstrando que os computadores eram capazes de influenciar os comportamentos humanos.

“Hoje, estamos rodeados por tecnologias persuasivas”, escreveu este teórico da Universidade de Stanford, em São Francisco (EUA), num artigo em 2010, referindo-se a todo o aparato tecnológico com que lidamos, dos smartphones às redes sociais como o Facebook. “Em todos os locais onde os media digitais tocam nas nossas vidas, há um elemento de persuasão.” Para Nuno Ribeiro, este tipo de persuasão é mais positiva ou menos positiva, dependendo da “intenção que está por trás”. Por isso, é necessário estar bem informado para compreender essa intenção, argumenta.

A HAPPY está dirigida a utilizadores entre os 18 e os 40 anos. Quanto mais cedo alguém adoptar comportamentos saudáveis, mais impacto essa mudança terá anos depois, quando o risco de se ter cancro aumenta. As pessoas acima desta faixa etária poderão usar a HAPPY, mas a aplicação não tem todas as recomendações previstas para a redução do risco do cancro (há exames médicos que só são recomendados a partir de uma certa idade, por exemplo).

Durante os testes da versão beta da aplicação, 32 pessoas usaram-na durante um mês. “Houve uma redução no número de cigarros fumados e no álcool”, refere Nuno Ribeiro, acrescentando que 83% dos utilizadores recomendariam a aplicação a outras pessoas.

Para já, a ciência associada à aplicação irá continuar. Os utilizadores que quiserem fazer parte da experiência irão ajudar Nuno Ribeiro a avaliar a eficácia da aplicação, se há mudanças no comportamento e se há aumento de conhecimento sobre este tema: “A aplicação é completamente gratuita e sem publicidade associada. Não é para a promoção de nada, a não ser da saúde. Não tem nenhum pensamento institucional por trás. As directrizes de saúde por trás da aplicação são internacionais, fruto de um consenso.” 

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