Egalgia, uma DST

A egalgia pode ser confundida com "dor de cotovelo", inveja, orgulho (ferido), avidez; há que distinguir e suspeitar sobretudo dos utilizadores da velha frase de Nietzsche: "Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos dos que não sabem voar"

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A "egalgia" ou "dor de ego" é um sinal característico de uma perturbação que afecta muito especialmente o "ser humano", de origem funda e congénita. Em grande medida, a própria egalgia é uma patologia, uma doença socialmente transmissível (DST) cuja manifestação pode ser difícil de reconhecer. Daí, o necessário cuidado do cidadão e utente.

A egalgia possui uma história longa na civilização humana, se bem que, na modernidade, deixou de ser "patologizada" do modo como ocorria/ocorre na pré/pós-modernidade. Recentemente, tem desenvolvido um novo limiar, novel resistência aos meios de tratamento; para além disso, a dor de ego é progressiva e nem sempre consciencializável. Em caso de suspeita de infecção ou agudização, recomenda-se manter a distância ao padecente, pois o sinal é altamente contagioso e difícil de controlar.

Sendo incurável, não deixa por isso de ser tratável e/ou parcialmente controlável. É importante entender que a egalgia alivia com a inter-ajuda, mas agrava quando existe um risco, ofensa ou ostentação alheia. O tratamento é conservador, sugerindo-se períodos prolongados de silêncio e clausura, nem que seja para não infectar os vizinhos; o prognóstico é reservado, mas a reserva melhora o prognóstico. Os "modernos" e alguns psicanalistas aconselham tratar a egalgia com recurso ao próprio Ego, reforçando-o, mas há quem vislumbre nisso resquícios de "filosofia homeopática", apesar de haver quem "contabilize" resultados favoráveis ao bom modo "materialista", associando a intervenção por "mutismo" a pseudociência, crença espiritualista. De resto, a meditação e a psicanálise não são incompatíveis, pois que, em ambas, se pede um foco, um alvo que acaba por ser desindividualizador.

Psicose e delírios

A determinada altura da evolução da doença pode ser que se conquiste algum nível de consciência acerca da "infecção", mas não consta que esta mesma consciência limite a progressão da patologia. Dados há que sugerem que os esforços agenciados no sentido de conter a egalgia aumentam a própria egalgia. Recomenda-se extrema precaução, particularmente no respeitante àqueles que se pensam transcendidos, livres, austeros e altruístas, pois a dor em causa é comummente acompanhada de psicose e delírios.

Uma ressalva para o diagnóstico diferencial. A egalgia pode ser confundida com "dor de cotovelo", inveja, orgulho (ferido), avidez; há que distinguir e suspeitar sobretudo dos utilizadores da velha frase de Nietzsche: "Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos dos que não sabem voar". Desconfiar também dos grandes feitos, por trás deles há sempre dor de ego, tanto nos que edificam como nos que derrubam.

Se te identificares com o que aqui vês escrito talvez tenhas um nível controlado de egalgia. Se, no entanto, te lembrares de outras pessoas, então é provável que sofras do mal. Mas não desesperes. Põe-te de quarentena e avisa as autoridades, evitando o excesso da tua própria autoridade. Não contactes a linha de saúde 24, que costuma agravar a egalgia, nem tomes Calcitrin, não vá a dor calcificar-se. Não granjeies obstinadamente o divã, que queremos a coisa bem resolvida em tempo útil e não disfarçada, e medita, medita muito, de preferência não te confinando a fingir que o fazes, e, quando, no fim, perceberes que é tudo inútil, não te mates, pois o suicida procura continuamente conforto, não faças nada e não te inquietes, pois, se te limitares a "existir", outros virão "desegotizar-te" bem depressa. Se, acaso, estiveres preocupado com a egalgia dos outros, seja porque os contagiaste, seja porque não os querias contagiar, podes usar um repelente, que, aplicado no próprio, afasta toda a concorrência.