Miguel Vieira: aprender a cair sem ir ao tapete

Aos 20 anos, foi obrigado a desconstruir o mundo tal como o conhecia. Tijolo a tijolo, e com a ajuda do desporto, soube reerguer-se. E fê-lo com tanta disciplina e perseverança que já colocou o judo português no mapa paralímpico.

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Tudo começou sem praticamente nada. Um monte de serradura espalhado no chão, uma lona de plástico por cima e uns sacos de areia distribuídos em redor, para evitar que o tatami improvisado se desmanchasse. Em Sambizanga, na malha urbana de Luanda, a cultura do improviso está tão desenvolvida como em tantos outros bairros por essa África fora. Haja vontade, entusiasmo e tudo o resto se arranja. Foi assim, num pavilhão que nunca foi digno desse nome, que Miguel Vieira e o judo se conheceram há mais de duas décadas. A relação, armadilhada pela vida, haveria de ficar em banho-maria uns anos mais tarde, mas apenas para ser retomada com o compromisso renovado, já fortalecida pela distância.

“Estou, Miguel. Fala novamente do jornal PÚBLICO, recorda-se? Já está de saída para o treino da tarde? É que estamos quase a chegar ao hotel”. A sessão da manhã atrasou-se um pouco, e com ela o almoço, e com ele o descanso. Respeitamos a ordem natural das coisas, logicamente, e aguardamos pelo fim da sesta. Quando o judoca surge finalmente no lobby, já temos um quarto de hora de conversa adiantada com Jerónimo Ferreira, mestre, mentor, impulsionador da carreira de um atleta que já ganhou, por direito próprio, um lugar na história do paralimpismo português.

Foi talento à primeira vista. Quando Miguel Vieira surgiu nas instalações do Clube Judo Total, na Ameixoeira, em Lisboa, em 2012, os decanos da modalidade fizeram instantaneamente o diagnóstico: “Assim que o vimos a evoluir no tapete, pusemos logo uma espécie de cruzinha, como que a dizer: ‘Este é o tal’”. Era uma relação biunívoca: o clube agradecia um atleta com capacidade para servir de possível porta-estandarte, o “ex” e futuro judoca precisava de alguém que lhe reavivasse a memória e lhe ensinasse um novo caminho para chegar ao destino de sempre.

Há duas dimensões de judo distintas no percurso de Miguel Vieira porque há duas dimensões da vida que foi obrigado a assimilar. Uma realidade até aos 20 anos e uma volta de 180 graus a partir de então. Mas vamos por partes, começando por recuar até aos subúrbios da capital de Angola e a uma infância como tantas outras, influenciada pelas tendências familiares. Um dos irmãos de Miguel experimentara a modalidade e não havia razão para não tentar perceber de onde vinha o apelo. Mesmo que ainda hoje não consiga identificar com exactidão o que o atraiu, a verdade é que se deixou levar.

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“Treinava apenas com calças, porque na altura era muito caro termos um kimono. Nós comprávamos as calças, que eram feitas por alfaiates, e só tínhamos uma t-shirt e o cinto, que amarrávamos à volta do tronco e da cintura para podermos fazer a pega. Destruíamos muitas t-shirts”, conta, como se estivesse, ainda hoje, a reviver o momento.

A aventura continuou durante a adolescência, já estrategicamente encaixada nas sobras dos compromissos com a escola e com o trabalho, até que subitamente lhe puxaram o tapete. Uma doença ocular turvou-lhe a visão e, quando deu por ela, estava a viajar para Portugal para ser operado e submetido a tratamento. Foram várias as cirurgias, foi longo o período de convalescença, mas os resultados não foram animadores. Corria o ano de 2005, o ano em que Miguel cegou.

Saem-lhe em catadupa as palavras quando viaja de volta até aos instantes que ninguém quer viver: “No momento em que ceguei, a primeira coisa que me veio à cabeça, honestamente, foi: ‘Ceguei, prefiro morrer’. Todos me vão olhar de lado, apontar, desprezar. Fiquei muito frustrado. Entrei em depressão, não queria ninguém ao meu lado. Não queria ouvir os meus irmãos, não queria ouvir o meu pai, a única pessoa que ouvia era a minha mãe. Eu não comia, só chorava, muito”. É desarmante a frontalidade com que desfia os pormenores de uma caminhada sem chão.  

Foram meses de angústia, de desamparo. Um jovem acabado de chegar à maioridade, sozinho num país alheio, entregue à sua sorte, que era tão pouca. Houve períodos de revolta, de agressividade, de desnorte. “No momento em que pus os pés no avião, despedi-me dos meus pais e dos meus irmãos e nessa altura pensei: ‘Vou para uma terra incerta e vou ter de ser pai e mãe de mim mesmo, eu é que tenho de cuidar de mim’. A adaptação a Portugal não foi fácil. Tive situações delicadas. Já caí na linha do metro…” É curta a pausa que faz no discurso, mas é suficiente para recuperar o fôlego - e para tentarmos encaixar tudo de uma só vez.

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Enquanto conversamos, já longe do hotel, sentados no Pavilhão Multidesportos Mário Mexia, em Coimbra, há um outro judoca que se aproxima de Miguel para lhe desejar felicidades: “Boa sorte para os Jogos”, atira. Há kimonos de diferentes tamanhos espalhados pelos corrimãos que contornam as bancadas do recinto, há o burburinho típico de uma concentração de atletas, há esforço e ilusão a rodos neste treino de conjunto organizado pela Federação Portuguesa de Judo. Para muitos, é mais um estágio. Para Miguel, é a rampa de lançamento para o Rio de Janeiro.

Foi sinuoso o caminho para lá chegar, à epopeia dos Jogos Paralímpicos. Mas foi, acima de tudo, rápido como um relâmpago, se tivermos em conta que, durante sete anos, de 2005 a finais de 2012, o afastamento do desporto foi total. “Nesse período, estava a fazer um curso de telefonista, depois comecei a trabalhar na Agência Portuguesa do Ambiente e ainda estava a terminar o 12.º ano. Quando acabei o 12.º ano, não consegui entrar na faculdade. Foi então que andei na Internet à procura de um clube para treinar”, contextualiza.

Com a ajuda da Associação Distrital de Lisboa, foi encaminhado para o Clube Judo Total e, subitamente, as portas que pareciam fechadas começaram a abrir-se. Na cabeça, tinha ainda presentes as bases da prática da modalidade e a verdade é que foi como andar de bicicleta: ali, naquele espaço onde as diferenças se esbatem, encontrou a roda que faltava para voltar a equilibrar-se. Tinha de fazer uma espécie de reciclagem de conhecimentos, sim, tinha de adaptar-se às novas circunstâncias, mas cedo percebeu que o kimono, o primeiro completo que vestia, se lhe colava à pele.

A partir daí, foi arregaçar as mangas e ir à luta, romper fronteiras por tatamis nunca antes experimentados. Tornou-se rapidamente no primeiro judoca português a participar numa competição internacional para cegos e, em 2013, arrebatou a medalha de ouro num Open realizado na Lituânia, na categoria -66kg. “Foi o meu melhor momento. Deu-me aquela sensação de estar no pódio, com a bandeira do país a subir e a ouvir o hino a tocar”.

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Ele, que nem sequer tinha a alta competição na cabeça quando retomou o desporto, via-se agora projectado para cima, com as expectativas a incharem e as exigências a apertarem. Segunda, quarta e sexta-feira, a rotina impõe uma sessão de ginásio de manhã e treino no clube à tarde; terça e quinta-feira é a vez de cumprir trabalho técnico-táctico no Jamor de manhã, seguindo-se uma sessão na federação à tarde. Nos períodos de estágio, assinala, chega a submeter-se a três treinos diários.

“Eu treino muito, muito, muito… Há exercícios que não consigo fazer porque preciso mesmo da visão: saltar, por exemplo, ou fazer uma cambalhota ou um mortal, em que tenho de ter a noção da distância a que está o chão, são exercícios que por mais que eu tente… Às vezes até consigo, mas não posso correr o risco de me lesionar”. É um regime de atleta profissional com os apoios de um atleta amador.

Miguel não é propriamente de se queixar, mas também não é de meias palavras. Deixa claro que sente diferenças significativas, sim, quando fala com os adversários nas provas internacionais. “Eu, se vou treinar, preciso de alimentação, manutenção, essas coisas, e tem de ser tudo por conta do atleta. É preciso haver gosto e vontade, porque se pensarmos nos apoios… Todos reclamam, até os que têm muito, imagine agora nós que não temos praticamente nada. Eu treino com atletas olímpicos e há muita diferença entre uma bolsa olímpica e paralímpica. No entanto, quando treinamos, é igual”, expõe.

De facto, é. Visto das bancadas, sem se conhecer a sua história, Miguel é um atleta sem limitações aparentes. Ainda que esteja dependente do contacto [uma palavra-chave no judo], revela agilidade, força, perspicácia na defesa e arrojo no ataque, sempre à procura da melhor pega. Nesta terça-feira de Agosto, é João Machado, medalhado de bronze no último Campeonato do Mundo para surdos, realizado na Turquia, quem lhe serve de parceiro de trabalho. “Como é o Miguel durante o treino?”, perguntamos-lhe. “Porta-se bem, mas às vezes é um bocado preguiçoso”, brinca, em tom provocatório. Miguel, acostumado ao companheirismo genuíno, limita-se a sorrir.

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Ligeiramente à margem do tatami, mas sempre em registo de vigilância, mantém-se Vespa. Foi ela que conduziu o único representante português no judo paralímpico do hotel até ao pavilhão e ali ficará, à espera do momento em que terá de cumprir o percurso inverso. Por estas bandas, a sociável cadela de pêlo preto que acompanha Miguel Vieira de sol a sol é uma presença familiar. Para todos os outros, é um adereço bem-vindo. Para o dono, é algo mais.

“Ela significa os meus olhos e às vezes parece-me que ela faz mais por mim do que eu por ela. A Vespa não é tudo para mim, mas é uma peça fundamental, é o meu complemento. Aquilo que eu perdi, ela traz-me de volta: a minha orientação, a minha autonomia, a minha rapidez. Há sítios a que eu não conseguia ir, porque precisava sempre de alguém, e agora não, pego na Vespa e vamos embora”, expõe, enquanto a companheira de todas as lutas abana a cauda aos seus pés.

Pela cumplicidade entre os dois, ninguém diria, mas a verdade é que estão juntos apenas desde Dezembro do ano passado, altura em que a escola de cães-guia apresentou a Vespa ao seu novo habitat. “Nós adaptámo-nos com facilidade. Ela é muito apegada às pessoas, mas principalmente a mim”, acrescenta, sentindo necessidade de lhe colar mais um rótulo: "É uma amiga, sim”.

Miguel Vieira vai entrar na Arena Carioca 3, no Rio, com o estatuto de 20.º judoca do ranking mundial na sua classe, algo que não lhe passava sequer pela cabeça quando, ainda adolescente, se entretinha a comprar partes de bicicletas e a montá-las com as próprias mãos, peça a peça. “Era eu que as preparava para mim e para os meus irmãos”. Era um período em que o ciclismo também lhe ocupava os tempos livres, mas sem o mesmo impacto que havia causado a experiência nas artes marciais.

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Dentro do pavilhão e fora dele, há um fio condutor que tem acompanhado os últimos anos da vida do luso-angolano. Uma peça-chave num puzzle que tem sido construído a várias mãos. Ou, se quisermos uma metáfora diferente para definir a importância de Jerónimo Ferreira, podemos usar esta: “Costumo dizer que o veículo não anda sem um motorista. Na vertente desportiva, o meu treinador é o meu guia. É um amigo e, às vezes, brinco com ele e digo-lhe: ‘Tu deves ter feito um filho que não sabes, tu és branco e tens um filho preto’”, parodia, sem esquecer outros três mestres (Fernando Seabra, Ricardo Valentim e Filipe Figueiredo) com os quais partilha regularmente o tatami.

Deveria haver um outro kimono no balneário do Multidesportos de Coimbra reservado para o treino da tarde, mas a preparação por conta própria tem destas coisas, é permeável a um esquecimento pontual. Miguel terá de usar o mesmo que suou durante a manhã, o que significa que terá de se acostumar ao toque húmido do tecido. Mas para quem teve de ajustar-se bruscamente a uma nova realidade, para quem teve de aculturar-se à pressa num país que também lhe tem erguido alguns muros, este é apenas um detalhe. “Às vezes sinto-me um pouco dividido”, assume, quando questionado sobre se lhe passa pela cabeça representar o território onde nasceu. “Mas tenho muito orgulho em combater por Portugal e tenho noção da responsabilidade. Dou sempre tudo o que tenho”.

E o atleta de 31 anos tem mais para dar para lá dos ippons, dos wazaris e dos yukos. Para além de apontar a uma futura carreira em Psicologia do Desporto, criou há uns anos uma banda a que chamou Miguel Vieira Afrogospel e através da qual expressa a sua faceta evangélica. Um activo imaterial que carrega para onde quer que vá e que estará seguramente ao seu lado no Rio, independentemente do resultado: “Se não houver um Deus connosco, não faz sentido. Ainda há um Deus que me tem dado força para superar todas as adversidades”.