Reportagem

Carolina Duarte, a velocista que quer voar para as medalhas

Passou como um furacão pelos últimos Europeus de atletismo e surpreendeu com a conquista de três medalhas para Portugal, cada qual mais brilhante. Com 10% de visão útil, a atleta lisboeta, que é também guia turística em Londres, é uma das grandes esperanças nacionais nos Jogos Paralímpicos do Rio.

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Carolina Duarte tinha 14 anos quando Francis Obikwelu conquistou e medalha de prata na mítica prova dos 100m dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Assistiu a tudo pela televisão e emocionou-se. Tomou também uma decisão que iria alterar a sua vida. Após o final do torneio, entrou n'Os Belenenses, clube do seu bairro, decidida a fazer carreira no atletismo de velocidade. E nem um problema genético na visão abalou a sua determinação. Passaram 12 anos e a jovem é hoje uma das maiores esperanças portuguesas para as medalhas nos Jogos Paralímpicos do Rio, após ter garantido para Portugal a medalha de ouro nos 100m, prata nos 200m e bronze nos 400m dos recentes Europeus do IPC (International Paralympic Committee), disputados em Junho, na cidade italiana de Grosseto.

“Dizem que vou ser uma das favoritas nos Jogos e penso que será um bom estímulo para mim. Acredito sempre que vou acabar à frente”, admitiu ao PÚBLICO, poucos dias antes de partir para o Brasil [onde irá competir nas provas de 100m e 400m], durante uma longa e descontraída conversa numa esplanada do Estádio Universitário de Lisboa, após mais um treino de preparação, seguido de uma recolha de análises clínicas. No dia seguinte, regressaria a Londres, onde vive e trabalha como guia numa agência de autocarros de turismo. Depois dos Jogos, quer regressar definitivamente a Portugal, para junto da sua mãe e irmã. Vai fazer uma pausa para descansar, antes de iniciar uma pós-graduação em marketing digital.

O êxito nos Europeus de atletismo tornaram-na conhecida e as expectativas para o Rio elevaram-se, mas procura afastar a pressão. “Tenho ambição e sou realista. Vou lutar pelas medalhas e quanto mais brilhantes forem, melhor para mim. O bronze é o mínimo e, se não conseguir nenhuma, confesso que vou ficar triste.” Quando está em Portugal, treina-se no Centro de Alto Rendimento do Jamor, em Oeiras, onde é apadrinhada por alguns dos ídolos da sua adolescência.

“O Francis Obikwelu e o Nelson Évora [medalha de ouro no triplo salto nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008] têm-me incentivado e dão-me muito apoio. O Francis disse-me que não preciso de ter medo, que o mais difícil serão as meias-finais, mas, chegando à final, tudo é possível. O Nelson diz-me o mesmo", confidencia, entre sorrisos. Exala felicidade e não o esconde. É contagiante. Não quer que este momento extraordinário na sua vida acabe: “Recebi tantas mensagens depois de ter conquistado as medalhas no Europeu! É muito reconfortante e adoro. É bom estar a ter estes resultados.”

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Na sua estreia nas Paralimpíadas, Carolina irá ficar inserida na classe T13. Consciente de que muita gente não está familiarizada com estas designações, ela própria as explica detalhadamente. Está tudo relacionado com as limitações individuais. O ‘T’ significa ‘Track’ e o ‘13’ é a categoria de deficiência visual na qual está inserida. No total, existem três: T11, T12 e T13. Na primeira, participam os cegos totais, que correm em duas pistas, acompanhados por guias. Os T12 também denotam profundas dificuldades de visão e correm também em duas pistas, com ou sem guia. Os T13 estão um degrau acima, já com mais autonomia - correm apenas numa pista e não necessitam de guia. “Eu estou entre estes”, remata.

Foi com quatro anos que os problemas de visão de Carolina foram diagnosticados. “Quando nasci vinha com os olhos tão fechados que até pensaram que era cega.” Mas não era. “Tenho uma retinopatia [termo que designa lesões não inflamatórias da retina ocular] e uma distrofia da mácula [área no centro da retina]. Se olhar de frente vejo apenas umas manchas, mas se olhar com a visão periférica, que é a minha melhor visão, já consigo ver.”

Com a idade, a visão de Carolina foi diminuindo, mas, no princípio, ela evitava, a todo o custo, usar óculos. “Chegava aos oftalmologistas e decorava as letras do quadro, procurando falsear os resultados. E o pior foi quando cheguei ao quinto ano. A minha mãe começou a pedir na escola para me darem testes ampliados. Eu odiava de morte, porque os meus colegas tinham todos testes normais. Morria de vergonha.”

A visão piorou quando entrou para a faculdade (onde tirou uma licenciatura e um mestrado em Gestão), por passar muito tempo a ler, e voltou a agravar-se nos últimos três anos, mas actualmente a situação parece ter estabilizado. “Em termos de défice visual, tenho uma redução do campo de visão para 10%. Ou seja, vejo menos de 10% em termos de visão útil. Mas tenho de viver bem com este problema, em relação ao qual não posso fazer nada. Lido bem com ele, caso contrário seria uma frustrada para o resto da vida. É claro que gostava de ver e dava tudo por isso, mas sou feliz assim.”

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Mesmo assim, os recentes avanços da medicina deixam-na esperançosa. “A ciência ainda não tem nada para recuperar as células da retina, que são muito próprias. Mas, recentemente, nos EUA, conseguiram fazer umas retinas electrónicas para pessoas totalmente cegas. Com elas, passam a ver a 5%. Não é nada de especial para uma pessoa normal, mas é muito importante para uma pessoa cega. Passa a ver sombras, consegue ter percepção das cores e muitos dos pacientes que foram testados garantiram ter tido sonhos coloridos.” O estudo é ainda experimental e para o problema de Carolina ainda não há soluções, mas permite-lhe sonhar.

A limitação visual nunca a impediu de se envolver no desporto. Natação, ténis, judo, voleibol, futebol, golfe e ginástica foram algumas das modalidades que praticou, antes de se dedicar de corpo e alma ao atletismo de velocidade. “Sou um bocado dotada para o desporto e era sempre a mais rápida na escola.” Com o tempo, teve de abandonar muitas destas actividades face ao agravamento do seu estado.

“No trabalho, por exemplo, muitas vezes não consigo ver os números na máquina com os preços dos bilhetes e tenho de fazer as contas de cabeça. Nos treinos, o mais complicado é quando está muita gente na pista. Tenho medo de chocar com alguém.” Mesmo assim, não hesitou em aventurar-se sozinha numa metrópole como Londres, há cerca de um ano. A experiência foi mais ou menos positiva e confessa sentir a falta do sol, da comida e do calor humano muito próprio dos portugueses.

Ansiosa por regressar a Lisboa, Carolina lamenta apenas vir a perder o actual treinador, Christopher Zah, de origem ganesa, fundamental para a sua evolução como atleta: “Ele é bestial e eu adoro-o. Ainda acredita mais em mim do que eu.” Será com ele que irá para o Rio na demanda pelas medalhas. “Ocupo o quinto lugar do ranking dos 100m, mas sinto que posso melhorar. Estou muito rápida, mas não tenho feito muitas provas ultimamente nesta distância. Estou mais focada nos 400m, que é a prova que mais gosto e exige muito mais ritmo.”

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Com a entrada no projecto paralímpico passou a ter apoios ao nível dos equipamentos, suplementos e nas viagens que frequentemente efectua entre Londres e Lisboa. “É uma bolsa boa”, garante, mas confessa que ainda não explorou a fundo aquilo de que poderá usufruir mais: “Como fui campeã europeia, estou no escalão A e recebo 500 euros mensais da federação, que é o rendimento mínimo nacional. Depois, temos os prémios que recebemos quando ganhamos medalhas.”

Não tem razões de queixa. “Mesmo no desporto adaptado, se eu for uma atleta de elite, consigo viver do atletismo. Mas tenho de ser campeão europeia, vencer medalhas nos Mundiais e nos Jogos Paralímpicos. Tenho de estar no top”, explica, admitindo que, neste momento, não tem qualquer patrocínio privado. O Marítimo, clube que representa, também não contribui financeiramente. “Eu não gosto de andar a pedir, mas se fizer uns bons Jogos vou procurar patrocínios.”

Por tudo o que está em causa, Carolina não esconde a ansiedade de entrar em acção no Rio de Janeiro. As eliminatórias da prova dos 100m começam a 10 de Setembro e a final será disputada no dia seguinte. Já nos 400m, entrará na pista a 16 de Setembro, com a final no dia 17. Em ambas as provas, as medalhas estão ao seu alcance. “Acredito sempre que vou acabar à frente. Sou bastante competitiva. Não detesto perder, mas enerva-me.” Sentada na esplanada do Estádio Universitário sob o tórrido sol matinal de Agosto, ainda com as roupas de treino vestidas, Carolina - “Cuca” como é conhecida entre amigos e colegas -, está radiante com a esta estreia numa paralimpíada.