Pablo Escobar morreu mas Narcos deve continuar

A segunda temporada da série que há um ano surpreendeu e se tornou uma das estrelas do Netflix chega nesta-sexta. É a última do protagonista Wagner Moura. Não é novidade, Pablo Escobar morrerá. E se ela continuasse sem ele?

Fotogaleria
Wagner Moura sai da série no fim desta segunda temporada - Escobar morre, já sabemos - mas diz que ela devia continuar Netflix
Fotogaleria
Netflix
Fotogaleria
Netflix
Fotogaleria
Netflix
Fotogaleria
Netflix
Fotogaleria
Netflix

Há criminosos e criminosos e depois há Pablo Escobar, o homem que morreu há mais de duas décadas mas que ainda hoje desperta a curiosidade de tantos. A prova? O sucesso de Narcos, a série do Netflix que se estreou no ano passado. Podia ter sido só mais uma história sobre o barão da droga mais conhecido do mundo, mas o impacto desta mega produção internacional do serviço de streaming deixou meio mundo a repetir as expressões do Patrón e atirou as atenções para o protagonista Wagner Moura, o actor brasileiro que dá vida a Escobar. Esperámos um ano pela segunda temporada – os dez episódios chegam nesta sexta-feira – e não há alerta spoiler que esconda o desfecho da história. Sabemos todos o que aconteceu e muitos ainda se lembram da imagem de Pablo Escobar morto num telhado de Medellín.  É o fim de Narcos? Moura espera que não. Enquanto houver cocaína, há história para contar.

Uma coisa é certa: Narcos acabará para o actor brasileiro de 40 anos. É o próprio quem o confirma, sem esconder o alívio em deixar para trás um personagem que o ocupou tanto nos últimos dois anos. “Fazer esta temporada deixou em mim um misto de sentimentos. Isto foi uma parte muito importante da minha vida. Dediquei-me tanto a esta série, a este projecto, e recebi tanto”, começa por dizer Wagner Moura sentado à mesa com vários jornalistas europeus num quarto de hotel em Londres. “Não digo que tenha sido o meu trabalho de carreira porque nem gosto da palavra carreira, mas para a minha vida foi muito bom”, continua, lembrando que quando chegou ao projecto nem espanhol sabia falar.

Escolha arriscada dissseram muitos na altura, aposta certa clamam agora. A crítica foi unânime e Moura arrecadou até uma nomeação para os Globos de Ouro. José Padilha, o produtor executivo da série, foi o grande responsável pela escolha de Wagner Moura. No serviço de streaming ninguém o conhecia mas Padilha sabia o que o actor valia desde o carismático Capitão Nascimento de Tropa de Elite.

PÚBLICO -
Foto
Wagner Moura tem sido muito elogiado pelo seu trabalho na série Netflix

Para interpretar Pablo Escobar, Moura não tirou apenas um curso intensivo de espanhol. O actor mudou-se para a Colômbia, viveu na cidade de Medellín, a 400km da capital, Bogotá, onde a presença do barão da droga ainda hoje se faz sentir. “Foi muito importante para mim. Como no Brasil falamos português, estamos muito isolados na América Latina, com Narcos, e por trabalhar com actores não só da Colômbia, como do Chile, Argentina ou México, senti pela primeira vez que fazia parte de algo maior.”

Anos de terror

Deixar morrer Pablo Escobar é deixar para trás uma experiência tão intensa quanto negra. Por mais fascinante que a vida do narcotraficante tenha sido, não se fala de Escobar sem falar do terror que ele espalhou pela Colômbia nos anos 1980. Uma guerra fria e sangrenta que deixou milhares de mortos e feridas abertas que demoram a sarar.

“Aprendi muito sobre algo que sempre me interessou perceber que é o tráfico de droga, uma questão muito séria no meu país”, diz o actor, que engordou 18 quilos para o papel, algo que, garante, não voltará a fazer por ser tão exigente.

Já com a forma recuperada, depois de uma dieta vegetariana, Wagner Moura olha para o legado que deixa em Narcos com o desejo de que a série continue, lembrando que a produção não se chama Pablo Escobar.

“A ideia por detrás da série foi perceber o tráfico de droga. É por isso que eu acho que devia haver uma terceira temporada, apesar da morte de Escobar”, acrescenta. “Claro que não me compete a mim dizer isto, é o Netflix que decide, mas acho que devia haver uma terceira, e até uma quarta temporada”, continua, dando várias hipóteses: “Podem ficar na Colômbia e falar do cartel Cali [concorrente do cartel Medellín]. A história do cartel Cali e a forma como este apoiou o Presidente que sucedeu a César Gaviria, Ernesto Samper [chegou ao poder no ano a seguir à morte de Escobar, em 1994], é muito impressionante, é incrível. Ou podem até mudar-se para o México, que é agora a Colômbia dos anos 1980 – é praticamente um país narcotraficante.” O actor não duvida de que “o tema está lá para ser continuado”. O serviço de streaming ainda não se pronunciou sobre eventuais novas temporadas mas Padilha também já mostrou vontade de continuar a contar a história do narcotráfico. O Netflix não revela números de audiências das suas séries mas Ted Sarandos, o CEO responsável pelos conteúdos da empresa norte-americana, já deixou fugir que Narcos é mais vista do que A Guerra dos Tronos, a série provavelmente mais mediática da actualidade. Apenas um sinal da importância da série para o serviço.

Temporada mais negra e violenta

Sobre o que podemos esperar nestes dez novos episódios, o brasileiro não quer adiantar muito. Se o desfecho é conhecido, o resto não tem de ser. No trailer e nos teasers que têm sido lançados nas últimas semanas há uma pergunta no ar: “Quem matou Pablo Escobar?” A versão oficial dá conta de que o narcotraficante, que chegou a figurar na lista dos mais ricos da revista Forbes, foi morto pela polícia. Mas há também a tese de que se matou para não ser capturado, algo que Escobar garantiu mais do que uma vez que faria se estivesse prestes a perder a liberdade.

“Na primeira temporada cobrimos cerca de 15 anos da vida de Pablo Escobar. Não sendo só sobre o Pablo, a série vai desde o primeiro dia em que este viu cocaína pela primeira vez até ao dia em que fugiu da Catedral [a prisão que construiu para si]. Do dia em que ele foge da Catedral até morrer são 11 meses, não era possível fazer mais do que uma temporada com isso”, explica Wagner Moura, adiantando que estes novos episódios serão por isso mais intensos. E mais negros e violentos.

Com o cerco cada vez mais apertado, Escobar tornava-se ainda mais perigoso. As primeiras críticas à segunda temporada são novamente unânimes: Narcos 2 consegue ser ainda mais viciante e não é apenas Wagner Moura que é elogiado mas todo o elenco. Destaque aqui para a dupla da agência norte-americana de luta contra a droga (DEA), Steve Murphy, interpretado por Boyd Holbrook, e Javier Peña, protagonizado por Pedro Pascal.

PÚBLICO -
Foto
A dupla da agência norte-americana de luta contra a droga (DEA), Steve Murphy (Boyd Holbrook) e Javier Peña (Pedro Pascal) Netflix

Murphy continua a ser o narrador da história mas, se na primeira temporada o seu papel estava mais próximo do herói, agora esse lugar fica tremido. Ou como Moura explica, as pessoas não são só boas ou más, são o que as circunstâncias as obrigam a ser. E isso também se aplica a Pablo Escobar? “Acho que toda a gente é um ser humano. Acreditem ou não, Osama Bin Laden era um ser humano. E eu aposto que uma data de pessoas o achava interessante, divertido, sexy”, diz, em resposta ao PÚBLICO. “Por exemplo, Pablo deu muitas casas a pessoas pobres de Medellín. Não as consigo culpar por pensarem que Pablo Escobar é uma boa pessoa. Sabemos como as diferenças sociais são um problema sério na América do Sul. Os governos habitualmente não querem saber muito, o Estado não chega às áreas pobres. Se eu estou nesta situação e um tipo vem ter comigo e me pergunta: ‘Queres uma casa? Eu dou-te uma casa.’ Eu acharia esse tipo muito fixe e não quereria saber de mais nada. Depende da perspectiva como se olha para ele”, continua, separando o homem temível do narcotráfico do homem de família e fiel ao seu amigo. “Era um bom pai, um bom amigo, mas era um tipo mau”, afirma, ao mesmo tempo que admite ter sido surpreendido pela vida do chefe do cartel de Medellín. “É de doidos mas eu não sabia muito sobre a sua vida. Sou brasileiro, supostamente devia estar próximo da Colômbia mas a verdade é que não sabia muito. Lembro-me da imagem do tipo gordo morto no telhado e da bomba em Bogotá [atentado de 30 de Janeiro de 1993], mas não sabia muito sobre ele. Tudo o que sei hoje descobri ao fazer o personagem”, diz, insistindo em deixar claro que não falou com ninguém da família Escobar por opção.

PÚBLICO -
Foto
Narcos dá-nos a conhecer os dois lados de Pablo Escobar, o familiar e o dos negócios Netflix

Para esta temporada, o irmão de Pablo, Roberto, chegou a pedir para avaliar os episódios antes da estreia da série, afirmando-se como a pessoa indicada para o fazer. “Retrata-me a mim, a minha vida, a minha família, e o meu irmão”, escreveu num comunicado que ficou sem resposta. No ano passado, pouco depois da estreia, o filho do narcotraficante já se mostrara pouco impressionado com a série, apontado falhas à história.

“Não quis ninguém na rodagem a dizer-me para não fazer isto ou para fazer aquilo. Algo como: 'o meu pai não era assim', 'o meu pai não fazia isto'. Não queria essa pressão”, conta Moura, explicando que leu tudo o que havia para ler, em inglês e espanhol, sobre o barão. “E fiz questão de viver em Medellín. Tudo isto aconteceu há 25 anos, é uma história muito recente. Quase toda a gente na Colômbia conhece alguém que esteve envolvido de alguma forma naquela guerra”, justifica, fazendo questão de dizer que nunca tentou imitar Escobar. “Eu aprendi tudo isso, estudei tudo isso, para me esquecer de tudo e criar a minha própria versão de Pablo Escobar.”

Wagner Moura lembra ainda a interpretação de Benicio del Toro em Escobar: Paraíso Perdido, filme de 2014 de Andrea di Stefano: “Eu reconheço o Escobar que estudei, mas é completamente diferente daquele que eu faço. Não quero comparar o Escobar com o Hamlet mas é a mesma coisa. Cada actor que interpreta o papel vai abordá-lo de forma diferente. E esta é minha forma.”

PÚBLICO -
Foto
Netflix

O PÚBLICO viajou a convite do Netflix