Não vou na tua cantiga

Vieram de Veneza os últimos três grandes vencedores dos Óscares, e La La Land, que abriu a 73.ª edição do festival, parece ter desencadeado entusiasmo. Mas é um filme que vive à custa do glorioso passado do musical, mastigando de novo uma tradição.

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Damien Chazelle e Emma Stone em Veneza REUTERS/Alessandro Bianchi
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La La Land, que abriu a 73.ª edição do festival, parece ter desencadeado entusiasmo dr
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La La Land, que abriu a 73.ª edição do festival, parece ter desencadeado entusiasmo

O musical é o novo hype? Lady Gaga vai entrar no remake, mais um, de Nasceu uma Estrela? Veneza, 73.ª edição, La La Land: filme de abertura, realizado por Damien Chazelle, a sua terceira longa-metragem, mas a primeira depois de Whiplash (2014), o filme dos solos de bateria e… lá está… um filme que viveu do hype.

Ryan Gosling é pianista de jazz, Emma Stone aspirante a actriz, chocam um com o outro entre cenários e estúdios de cinema enquanto tentam ambos furar para chegar lá acima, e já toda a gente sabe como vai acabar (lembrem-se de Robert de Niro e de Liza Minnelli no New York, New York, de Scorsese).

As expectativas tinham sido acicatadas (mas é preciso ser muito crédulo …) pelas declarações tonitruantes dos programadores de que com isto se reinventava algo, de que aqui se colocava um género, o musical, num novo horizonte de possibilidades. (Não inventamos nada, foi o director Alberto Barbera que anunciou que o “seu” festival iria abrir as hostilidades, porque o filme também está a concurso, com uma declaração deste calibre: “La La Land não é apenas um filme que reinventa o género musical, coloca-o num novo ponto de partida").

Afinal não se vislumbra alguma coisa a olhar para o futuro, como olhava, mesmo que ferido de morte, Do Fundo do Coração, de Coppola, em 1982, não escamoteando que essa coisa, o musical, tinha acabado (e como sabemos foi o começo do fim de Francis Ford).

Passamos La La Land a pensar nesse Coppola, claro, em Teri Garr e em Frederic Forest, mas também no New York, New York, no A Roda da Fortuna (1953), de Minnelli, em Cyd Charisse e em Fred Astaire, e na série/filme Fame e nos videoclips, como o de Everybody Hurts, dos R.E.M., inspiração confessa para a sequência de abertura, uma coreografia numa auto-estrada engarrafada de Los Angeles. La La Land vive à custa do passado e de fazer um best of. A lógica é de regurgitação, já era esse o pulsar de Whiplash.

Aparentemente, o filme manifesta-se contra a corrente, semeando posters e paredes pintadas com “filmes antigos”, filmando salas de cinema de reposições que fecham, calculando nos diálogos de Ryan Gosling e Emma Stone os espaços para o name-dropping (de nomes do jazz, para ele; de nomes da Hollywood clássica, para ela). Ou atirando “coisas” como: “Em Los Angeles adoram tudo mas não respeitam nada”. Este pedaço acaba por ser um espelho de La La Land, dizendo alguma coisa sobre o próprio filme, sobre a sua afectação vintage, sobre cultivar uma nostalgia de fachada, sobre não dialogar com os clichés mas apenas reuni-los e repô-los.

A primeira longa de Damien Chazelle, 31 anos, já era um musical, Guy and Madeline on a Park Bench (2009), e a insistência confirmará um gosto do realizador pelo “género”. Ele admitiu-o em conferência de imprensa: disse que o mundo hoje precisa do tipo de possibilidades em que o musical acredita, da simplicidade e da naturalidade com que o cantar e o dançar irrompem numa realidade fabricada. (Mas sobre essa mistura de fantasia e realismo, Damien, que tal Jacques Demy?). Não, Damien não parece um cínico. Mas não basta gostar, é preciso saber fazê-lo. Há aquela sequência de abertura, pré-genérico, na auto-estrada, que na primeira sessão de imprensa foi completada com aplausos dos espectadores: há algum momento surpreendente, em que se inventou alguma coisa, ali? Não, palmas para o que se mastiga de novo.

Há outro momento revelador do que (não) se passa aqui: enxertando, a dado momento, em La La Land um pedaço de Fúria de Viver (1955), de Nicholas Ray, aquele em que James Dean entrava no Observatório de Griffith Park e uma voz anunciava o aparecimento de nova estrela no céu, Damien Chazelle vê-se aflito para responder ao que desencadeou; aquilo que consegue, prova da força transformadora que aqui (não) existe, é colocar as silhuetas dos esforçados mas nunca entusiasmantes Gosling e Stone no céu estrelado de Griffith Park, retro falhado, como um envergonhado Baz Lurhmann (agora é ele que aparece na playlist).

Já se reparou que nos últimos três anos o Óscar veio daqui, de Veneza, e dos seus filmes de abertura: Gravidade, Birdman, O Caso Spotlight. No que aos filmes americanos diz respeito, o hype, dizem, está agora com o Lido e não com Toronto, o festival concorrente que se sobrepõe daqui a dias. Os outros pregavam don’t believe the hype, mas, tendo em conta o – desajustado quanto a nós – entusiasmo que La La Land parece ter desencadeado, preparemo-nos.

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