Nelson Garrido

De cápsula pela floresta

No Parque Fluvial da Lavandeira, concentram-se os mergulhos, a música de praia, a festa das crianças. E é daqui que sai a barca encomendada pela Junta de Freguesia, a alimentar as raízes de Janeiro de Cima. Do rebuliço do Verão para uma cápsula do tempo, Zêzere acima.

 “Isto dá a velocidade que a gente quer. Querem forte ou a boiar?”, pergunta Eduardo, o barqueiro. Tem as mãos carnudas, convincentes, o tronco encorpado e a felicidade de viver num lugar como Janeiro de Cima escapada dos lábios com frequência. Mas custa a acreditar que, com uma vara de cinco ou seis metros, a barca atinja a velocidade que quisermos. Ainda assim, “depressa”, pedimos, “depressa”. E está montada a mesa de café. Do lado esquerdo, com o pé sobre um milímetro de água que subiu para a barca, Aníbal, que também já foi barqueiro mas agora se ocupa das alfaces e tomates viçosos do quintal, começa a encavalitar histórias. Mas as de Eduardo parecem melhores. E depois voltam a soar mais mirabolantes as de Aníbal. Barqueiros à desgarrada. Há a mulher que se afundou no Zêzere e foi contra a corrente porque era torta, os forretas que não davam gorjeta aquando da travessia, o homem que andou metros preso por baixo da barca e não morreu, os rebeldes de Janeiro de Baixo com quem se andava à porrada. “O meu tio, Joaquim Franco, é que ia à cabeça da zaragata. Media 2,10 metros. Não te lembras dele, pois não?” “Do Joaquim? Então não me lembro!”

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Não há memória mais forte nas aldeias ribeiras do Zêzere do que a dos tempos em que a ligação entre margens era feita a remos e vara. É a barca serrana, aliás, que dá cor ao brasão de Janeiro de Cima, a aldeia de xisto implantada no Fundão de onde se transportavam animais, bens agrícolas, madeira, linho e pessoas a Brejos de Baixo, no concelho de Pampilhosa da Serra (onde acontecia a feira), do outro lado do Zêzere. Pagava-se uma avença mensal, em alqueires de milho, por exemplo, e estava garantido o transporte. No bar do Parque Fluvial da Lavandeira, uma fotografia atrás da ventoinha mostra os cadernos, o coeiro, o nado, a âmeda, a cadeia e o galaripo da barca. E no panfleto turístico de Janeiro de Cima é esta construção em pinho e oliveira que se põe a gritar “Ó da barca!” como nos tempos antigos (o transporte terá funcionado nos moldes originais até ao final dos anos 1970).

Neste fim de tarde, sol poente, os insectos teimam em zumbir mais alto e a floresta apodera-se do leito do rio. Nós, no meio dele, somos cada vez menores, e mesmo que a barca continue como cápsula de conversas não deixaremos de ouvir os galhos que se partem de vez em quando nem o eco das gotas até à central hidroeléctrica, ponto de regresso da viagem.

O Zêzere, o segundo maior rio exclusivamente português (depois do Mondego), é verde e negro; impõe respeito. Sabemos que é a vara que nos faz deslizar na água, contra a corrente, e que se ela mede seis metros, o rio não pode ser mais fundo do que isso. Mas seis metros de profundidade e uns 30 de caudal chegam para desafiar a sorte. “Uma vez, quando íamos a atravessar para o outro lado, a vara ficou-me presa entre dois calhaus. Eu quis tirá-la e não conseguia. Fiquei ali, suspenso na vara, e a barca virou. Tive de saltar para dentro dela”, conta Aníbal, que aos 78 anos se aventura menos, mas talvez se ria mais.

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O rio e a roda

“Ali é a pedra grande”, indica Américo, como se aquela rocha granítica fosse um monumento em equilíbrio contra o rio, mas sem tocar nele. E assim é. Na verdade, tudo parece estar no mesmo ângulo — como os salgueiros e a vida ancestral da população —, em vertigem sobre a água. 

A Roda de Janeiro, por exemplo, cuja réplica foi feita nos anos 2000 como “recordação do que era o rio”, servia para fazer funcionar o sistema de rega. “Antigamente, havia 30 rodas daquelas. Como não havia motores, mandava-se a água para uma represa e depois ela era distribuída. Era com os pés que a gente tocava à roda, e eu andei muitas vezes nela. Uma obra de arte”, considera o antigo barqueiro.

Foi Américo, carpinteiro de profissão e natural de Janeiro de Cima, que construiu a nova roda, bem como a barca que hoje navega neste pequeno troço do Zêzere (o passeio dura cerca de meia hora). “Havia um barco no rio, mais pequeno, e então fui-me orientando a ver a forma. Quando é a primeira vez que estamos a fazer, é difícil. Mas depois nem teve de ir a calafetar, foi logo para a água.” A construção demorou quatro dias a concretizar-se; o processo mais lento foi “arranjar os cadernos [peças de madeira nas esquinas da popa] às oliveiras, cortar as madeiras, trazer tudo”.

Também foi Américo quem construiu o bar O Passadiço, quase nas traseiras da aldeia, a poucos passos, por caminhos de xisto, do centro do centro. Procurou fotografias antigas de Janeiro de Cima, emoldurou-as, montou um sistema de luz e fê-las circular pelas paredes. É uma exposição permanente sem pensar em sê-lo numa típica casa de xisto recuperada, que põe Américo a falar com o entusiasmo de um adolescente. “Antigamente, se se construía uma casa, não vinha nada de fora! Até as telhas se faziam cá.” Depois eram colhidos os seixos, o xisto e as madeiras, e ainda não se conhecia a palavra “sustentabilidade”. Américo já a conhece e, no fundo, sustenta a memória da aldeia com a herança de carpinteiros já idos ou octogenários, para que possamos continuar a passear no rio sentindo o sabor da terra.

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