Entre montes e fracturas e talvez fontes hidrotermais

Missão oceanográfica ligada ao projecto de extensão da plataforma continental parte na próxima semana.

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O robô submarino Luso EMEPC

A fractura de Hayes já é sua conhecida. Os montes submarinos Tyro, Cruiser e Irving nem tanto. Mas em relação a todos estes relevos no fundo do mar, a sul dos Açores, a equipa do projecto de extensão da plataforma continental portuguesa quer ter mais dados e amostras. Principalmente rochas, e as suas assinaturas geoquímicas específicas, que corroborem a proposta de alargamento da plataforma continental de Portugal.

Para apanhar do fundo do mar as rochas, a equipa da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC) a bordo do navio Almirante Gago Coutinho conta com um robô submarino, o Luso, capaz de mergulhos até seis mil metros. Na missão oceanográfica, de 2 a 21 de Setembro, estão planeados oito mergulhos para este veículo operado remotamente (ROV) que tem sido usado nos trabalhos de extensão da plataforma desde a sua compra, em 2008.

Com aparelhos instalados no navio, onde segue uma dúzia de cientistas (geólogos e biólogos), também serão recolhidos dados sobre a morfologia do fundo do mar. Certas características do fundo marinho, como a morfologia e a assinatura geoquímica das rochas, são importantes para demonstrar que a crosta do território emerso se prolonga pelo mar. Por outras palavras, até onde vai a dita “plataforma continental”, que o país quer ter sob sua jurisdição, mais os seus potenciais recursos.

No caso dos montes submarinos Tyro, Cruiser e Irving e da zona de fractura de Hayes, o objectivo é ter mais amostras que provem que as rochas destes locais têm, de facto, uma assinatura geoquímica idêntica à das rochas dos Açores. Aqueles montes e aquela fractura na crosta situam-se precisamente perto dos limites sul da plataforma continental que Portugal reivindica na ONU, daí a importância de demonstrar que há uma continuidade geológica dos Açores até a essas zonas.

Se é fácil depreender que os montes submarinos são elevações no fundo do mar (o Tyro, o Cruiser e o Irving estão só a cerca de 800 metros de profundidade), quanto à zona de fractura Hayes é preciso dizer que está ligada a uma estrutura incrível que percorre o Atlântico de alto a baixo. É a Dorsal-Médio Atlântica, que parece uma coluna vertebral. Aí está a formar-se crosta terrestre nova, por isso as placas tectónicas estão a afastar-se lentamente umas das outras. Esta cordilheira, não muito longe dos Açores, é cortada transversalmente por muitas fracturas — uma delas é precisamente a zona de fractura de Hayes, a 2000 metros de profundidade.

A equipa da EMEPC já tinha estado na zona de fractura de Hayes em 2012, numa missão chefiada, tal como agora, pelo geólogo Pedro Madureira. O que tem de interessante a zona de fractura de Hayes para Portugal é que a assinatura geoquímica das rochas é diferente de um lado e do outro desta depressão.

Os cientistas querem obter mais provas de que a assinatura geoquímica do bordo norte da fractura tem paralelo com a dos Açores. “A sul da fractura de Hayes já se encontra outra assinatura geoquímica, por isso ela é um limite”, explica Pedro Madureira. E depois, usando os critérios da Lei do Mar, contam-se 60 milhas para sul e marca-se um dos limites da plataforma continental.

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Na missão serão ainda testados uma série de equipamentos novos no robô Luso, desde um software de apoio à navegação e aparelhos para apanhar sedimentos (ambos desenvolvidos em Portugal) até a uma máquina fotográfica de alta resolução. Com esta máquina, os biólogos registarão a vida nas profundezas, ou não fosse a caracterização da biodiversidade nos três montes submarinos outro objectivo da missão.

E se se confirmarem os actuais indícios (excesso de metano na água) de que há fontes hidrotermais na fractura de Hayes (emanações de água quente com gases e metais que despertam interesse a biólogos, geólogos e a muitos de nós), essa será uma boa surpresa.