Fernando Martins viu luz nas sombras de Lisboa

Depois de dois anos a caminhar sozinho pela cidade, o ilustrador e fotógrafo descobriu-se com um projecto em mãos: Cidade Sombra

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Fernando Martins começou a fotografar "a sério" depois de 2011. Vive em Londres há um ano e meio Enric Vives-Rubio

A sequóia, fotografada no Jardim Botânico em 2013, é o começo de tudo: do livro que Fernando Martins abre à nossa frente e do projecto que lhe deu origem. Cidade Sombra, chamou-lhe, é uma obra que faz luz sobre uma Lisboa a pedir mais atenção do que a que habitualmente, na correria dos dias, conseguimos dar. A cidade-atelier a que o autor, a viver há um ano e meio em Londres, onde trabalha como ilustrador e editor de fotografia, regressa esporadicamente.

Uma das últimas vezes que Fernando Martins esteve em Lisboa foi no dia de inauguração da exposição, na Galeria Torreão Nacional da Cordoaria Nacional, que termina na próxima quarta-feira. Quase a empacotar as 40 fotografias expostas nas paredes, o fotógrafo aceitou “percorrer” as 116 escolhidas para o livro com o mesmo título que decorre de dois anos de passeios, solitários, pela cidade.

O interesse pela fotografia esteve sempre lá, mas foi em 2011, numa visita à Feira da Ladra, que o ilustrador decidiu fazer algo mais a sério quando viu algumas  máquinas fotográficas à venda. Começou por registar tudo de “forma muito emocional”, evitando, contudo, um registo documental. “Não é que não goste, mas isso já foi feito de uma forma tão espectacular desde os anos 40 que achei que não ia acrescentar nada”, explica, assumindo que a opção o levou ao registo mais pessoal que é bem visível em Cidade Sombra

A recolha não foi pensada e só ao fim de mais de um ano é o autor se apercebeu de que tinha um corpo de trabalho que se relacionava entre si. “Começei a olhar para as coisas e a juntar tudo. Quando o trabalho começou a ganhar mais forma, percebi que tinha construído uma visão pessoal da cidade.” Pessoal e, também, “intemporal”, acrescenta. Nesta obra há como que uma suspensão no tempo, como numa foto de quatro manequins despidos, uma imagem que tanto pode ser do século XXI, como dos anos 40 ou 70 do século passado. 

O instante certo pode, nas suas mão, demorar a chegar. “Já tive meia hora para fotografar algo ou até dias inteiros em que não fotografava nada, mas via imenso. Já tive rolos para dois meses. Quando estava mais fascinado, no início de 2012, gastava sete rolos, mas há pessoas que gastam muito mais em uma hora”. Também teve rolos que encravavam e o fizeram repetir fotografias que apenas estavam na sua memória. Mesmo agora, em que, revela, tem fotografado menos, anda sempre com uma câmara. “É algo obsessivo”, assume.

Há poucas pessoas, na cidade deste fotógrafo. Mas elas estão lá, garante. Seja no sofá vazio, que encontrou no Martim Moniz, seja no poster rasgado, que anuncia ainda um evento passado. Há um rasto, não é uma cidade abandonada”, insiste. Mas é, admite uma cidade que já foi. Ou não notasse ele, a cada regresso de Londres, a mudança, no espaço urbano. que ele trata também de transformar, com enquadramentos enigmáticos, “apocalípticos”, ou de “ficção científica”, como aquela fotografia com contentores que ninguém consegue desvendar onde é. E isso, vinca, é pouco importante. “São simplesmente fotografias minhas da cidade”, conclui.

A luz de Lisboa não é evidente neste livro, porque muitos dos enquadramentos são fechados. A cidade chega a ficar irreconhecível também por isso. Mas Fernando sente falta dela quando está em Londres. “É comovente, porque parece que lá poupamos na luz. É quase como estar num quarto escuro”, brinca. Ao folhear o livro, confronta-se com uma das primeiras fotografias. “É como o Big Bang, como disse o meu irmão”. É um negativo queimado, o primeiro fotograma que apanhou luz.

Num livro que se fecha, surge a mesma sequóia do Jardim Botânico. Passados dois anos, Fernando Martins voltou ao local para fotografar a árvore. Esta mudou pouco, mas à sua volta cresceu vegetação. “Tudo o que está aqui dentro é o que aconteceu entretanto”, explica o fotógrafo que promete  “continuar a fotografar sem pensar muito nisso”. Em Londres, Lisboa, ou noutro sítio qualquer. Texto editado por Abel Coentrão