Vilar de Mouros, “o bom filho à casa torna”

O primeiro dia de mais um renascimento do Vilar de Mouros fez regressar a velha guarda. Mas também trouxe muita gente nova que quer saber de que(m) se fazem 50 anos de história.

Fotogaleria
Peter Murphy quinta-feira à noite em Vilar de Mouros Hugo Santos
Fotogaleria
Peter Murphy Hugo Santos

Talvez seja mentira aquela ideia de que não se deve regressar ao sítio onde já fomos felizes. Vilar de Mouros arriscou voltar a abrir as portas à música e esta vontade de ressurreição – cujo programa apela a públicos novos, mas pisca muito os olhos a quem por lá passou em 1982, 1996, ou noutras edições posteriores parece ser acompanhada por muita gente. É verdade que muitos chegam porque ouviram falar, mas não é difícil encontrar por estes dias nas margens do Coura, em Caminha, quem, como o festival, esteja de regresso. 

Numa tarde quente de Agosto abre-se um novo capítulo na história do festival que celebra 50 anos, mas que está longe, muito longe de ter chegado às 50 edições. O ano de 2016 é de ressurreição, de quem já nasceu e morreu mais de um par de vezes. E difícil é encontrar quem não saiba de trás para a frente a história do mais antigo festival da Península Ibérica.

Atravessando a também ela mítica ponte de pedra que dá acesso ao festival, e numa das ruelas da aldeia granítica está o Café Regaleira. Às 17h, Micael Braga, 35 anos, não tem mãos a medir. Sai cerveja, sai bifana, afinal a aldeia está em festa. "Há muito tempo que não havia um festival. E este ano está a ser muito bom, muito bom mesmo. Muito acima das minhas expectativas comparado com 2014 que foi mais fraco. Se continuar assim, acho que vamos ter o regresso do festival em peso", prenunciava.

Mas afinal o que é que Vilar de Mouros tem? "Vilar de Mouros é o pai deles todos, é tão simples quanto isso. É especial. Esperava aquilo o ano inteiro. Eu era emigrante e todos os anos marcava as minhas férias em função da data do festival. Era ver a minha freguesia animada, conhecer gente de todo o lado", relembra com orgulho.

Pelo caminho até ao parque de campismo, as mochilas carregadas indicam planos para três dias de estadia. Já no parque, serpenteia-se num labirinto de tendas, tropeça-se em arcas congeladoras, escapa-se com alguma sorte do atropelo de um bote pronto a entrar no rio Coura. Àquela hora, já é difícil encontrar o tão desejado lugar à sombra. É do que andam à procura Maria, Ricardo e Francisco, três amigos, que se conhecem há 40 anos e que chegam do Porto. "São os 50 anos do Vila de Mouros. Eu tenho 51 e é a primeira vez que aqui venho e que vou acampar", conta a marketeer Maria Cordes. "O cartaz é fabuloso. Estou à espera de Waterboys [sábado, às 22h45] e de Echo and the Bunnymen [regressados aqui esta sexta-feira, às 22h35]", revela. Mas é preciso "levantar arraiais", porque ali o sítio não agrada.

Mudar o chip

Ricardo Antunes, 49 anos, já é repetente nestas andanças. Esteve ali em 1982 e testemunhou a primeira passagem dos U2 por Portugal, no mesmo festival em que os Echo & The Bunnymen actuaram. "Era para vir no ano passado [a edição foi cancelada].Venho ouvir bandas que adorei. Passo aqui quatro dias e mudo o chip", admite. Vilar de Mouros também tem esse poder, de lavar e de renovar a alma. Mas também de educar, "para que as pessoas ganhem liberdade e sensibilidade". Por isso, a vasta oferta de festivais não é, para Ricardo Antunes, um problema. "É bom haver muita variedade para cada um poder escolher o que mas gosta. O que é preciso é que, desde crianças, se ouça música, se vá ao cinema, ao teatro para um dia termos um taxista que tenha interesse em ir a uma ópera", sustenta.

Mas quem pensa que o festival puxa apenas pela velha guarda engana-se. Cláudio Carneiro e Pedro Dinis, 19 anos, de Vizela, estão cá pela primeira vez. "Gosto muito de uma banda que está no cartaz [os alemães Milky Chance, esta sexta-feira, 21h10] e os meus tios, que vinham cá sempre, falaram-me muito bem", diz Cláudio. Já Pedro quer ver Linda Martini (esta sexta-feira, 20h) e Peter Hook. É a prova de que Vilar de Mouros é um encontro de gerações entre quem faz replay à banda sonora da sua vida e quem pode muito bem adoptar a banda sonora das vidas dos pais ou dos avós.

Perto da entrada, o avolumar de pessoas com t-shirts dos Joy Division e dos Bauhaus de Peter Murphy já fazia adivinhar quem seriam os protagonistas da noite. Mas antes de o sol se pôr tempo ainda para escutar o Cancioneiro de Caminha que fez as honras e abriu o festival com uma actuação com mais de 50 músicos e artistas do concelho para recordar a música tradicional e as origens de um festival que começou por ser dedicado ao folclore do Minho e da Galiza.

Já no palco principal, e perante uma tímida assistência, os portugueses Manuel Fúria e os Náufragos inauguram uma marotona que seria dividida entre actuações de portugueses e de britânicos. E o que eles querem é "Que haja festa na aldeia/ Que se dance em cadeia" para preparar o público para a apresentação do novo single 20.000 Naves, antes de se despedirem com Vá lá senhora, conhecida pelo dueto com Rui Pregal da Cunha, dos Heróis do Mar. Concerto curto, porque estavam para chegar uns dos protagonistas da noite: Peter Hook and The Light. 

A banda do ex-baixista dos Joy Division e dos New Order os primeiros a pôr Manchester no mapa da cena alternativa  puxou pela memória desses idos de 80, com Isolation, She lost control ou Shadowplay dos primeiros, atirando-se ainda a Temptation, dos segundos, em que Hook, cantando "Up, down, turn around/Please don't let me hit the ground", parecia pedir para que não se deixe, de novo, "morrer" Vilar de Mouros. Os 60 anos já não permitem grandes aventuras nem todos somos Iggy Pop –, ainda que Peter Hook se tenha atrevido a tirar a t-shirt e a atirá-la à (pequena) multidão. 

Saído da sua "cave" escura, cheia de fumo, de onde emana o blues e o rock’n’roll, Paulo Furtado, The Legendary Tigerman, aqueceu a noite para outro regresso, desta vez aos anos 90, e de novo a Manchester ou "Madchester", como a cidade ficou então conhecida, quando os urbanos deprimidos deram lugar à euforia das festas –, desta pela mão dos Happy Mondays. Estática mas inquietante, a trupe de Shaun Ryder percorreu temas do álbum Pills 'n' Thrills and Bellyaches, logo a abrir com Kinky afro, Donovan, Dennis and Lois e Step on. Com Harmony ouviu-se um tímido uníssono, mais forte em Hallelujah. E que feliz ficava Rui Freitas, 44 anos, por ter ouvido a banda da sua juventude. "Eu pensava que eles já tinham acabado e, quando soube [que vinham], era evidente que tinha de vir cá", assumiu.

Cinco mil bilhetes por dia

Estava na hora, mas aqui a pontualidade não é britânica. Seguiu-se Peter Murphy, que até agradeceu à assistência, a maior da noite, por ter esperado. Numa hora de concerto revisitou os temas dos míticos Bauhaus, retomando a rota até aos anos 80 com Silent hedges, A god in an alcove e Passion of lovers, num alinhamento que tinha de incluir, do seu repertório individual, temas como Strange kind of love e Cuts you up, do álbum Deep, de 1989. Autor nos Bauhaus de uma das melhores versões de Ziggy Stardust, Murphy não esqueceu David Bowie, interpretando uma cover de Bewlay brothers perante um público que se ia libertando.

Já para lá das 2h, António Zambujo, em jeito de embalo depois de um dia de muitas emoções, fechava um primeiro dia sem enchentes, mas em que o "objectivo mínimo dos 5 mil bilhetes diários foi cumprido", segundo o presidente da Câmara de Caminha, Luís Miguel Alves, que já tinha garantido que o Vilar de Mouros veio para ficar, pelo menos por mais cinco edições. Há uma máquina que precisa de ser afinada (é só o primeiro dia), mas a noite de quinta-feira terá sido a prova de que o pai dos festivais ainda faz sentido.

Para já, sem a pressão das grandes enchentes, o recomeço faz-se sem filas monumentais, empurrões, nem gente a atulhar o recinto. Cada um tem o seu ritmo e há crianças a brincar na relva e a dançar ao som de músicas que têm quatro, cinco, seis vezes a idade delas. Sérgio Baptista, 37 anos, não perdeu uma edição desde 1996. "Sempre que venho fico mais novo um ano", afirma, garantindo que esta edição, em que Vilar de Mouros ajustou contas com a sua (e a nossa) história, é a sua preferida. 

Texto editado por Abel Coentrão