Por que é que há tantos sismos (e vulcões) em Itália?

Um mar antigo desapareceu, nasceram cadeias de montanhas, dois continentes estão em colisão — um resumo da dinâmica geológica da zona onde está Itália.

Vulcão Etna em 2006
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Vulcão Etna em 2006 Antonio Parrinello/Reuters

A Europa e a África estão a colidir. Ou melhor, as suas placas tectónicas. Aqui reside a génese do último sismo no Centro de Itália, tal como o de Áquila em 2009 e de muitos outros que atingem o território italiano.

Essa colisão entre a placa africana e a placa euroasiática criou no Mar Adriático uma zona de subducção — zona onde uma das placas tectónicas está a enfiar-se por baixo da outra placa, destruindo-se. Ora a zona de subducção do Adriático provoca sismos e vulcanismo. O Vesúvio e o Etna são manifestações disso mesmo.

Para explicar o contexto geológico complexo da Itália dos tempos de hoje, o geólogo Rui Dias, da Universidade de Évora e do Instituto de Ciências da Terra, recua até à altura da Pangeia, o único supercontinente da Terra há 250 milhões de anos. “O Mediterrâneo marca o local onde outrora — na altura da Pangeia — existiu um grande mar, o Tétis. Nas margens deste mar caminhavam os dinossáurios, só para dar uma ideia do tempo de que estamos a falar. Desde há pelo menos 150 milhões de anos que este mar começou a fechar-se, nas chamadas ‘zonas de subducção’”, diz-nos Rui Dias “E como sempre acontece quando um oceano se fecha, em seu lugar originou-se uma cadeia de montanhas. É o caso dos Andes e da subducção do Pacífico.”

Ora o Tétis, cujo fecho se iniciou há cerca de 150 milhões de anos, encontra-se agora totalmente fechado. “Por isso, os continentes que o marginavam colidiram um com o outro. Como sempre acontece, a cicatriz do fecho deste oceano — o que chamamos ‘sutura’— é marcada por uma complexa série de cadeias montanhosas alinhadas. No caso do fecho do Tétis, estas cadeias montanhosas têm nomes como Alpes, Apeninos, as montanhas de Zagros no Irão e... os Himalaias.”

Percorrendo Itália ao comprido como uma coluna dorsal, “os Apeninos desenvolveram-se de forma paralela à zona de subducção do Adriático”, explica o geólogo. “A zona de subducção do Adriático é o continuar da zona de subducção do Tétis, que esteve na origem das cadeias de montanhas que estão lá.” E este “continuar” traduz-se agora na colisão das placas euroasiática e africana.

“Tal como sempre acontece nas zonas de subducção, os sismos e os vulcões — como o Vesúvio [que destruiu Pompeia] — são uma constante. Por isso, Itália tem sido sempre palco de sismos destruidores ao longo do tempo e com uma frequência muito importante”, acrescenta. “Essa zona de subducção vai mexendo e dando os vários sismos.”

É este o enquadramento do sismo da última quarta-feira no Centro de Itália, que atingiu 6,2 de magnitude na escala de Richter. Originou a morte de pelo menos 250 pessoas. O de Áquila, a 6 de Abril de 2009, teve 6,3 de magnitude e matou mais de 300 pessoas.

Mas esta zona de fronteira de placas, em que a placa euroasiática é que está colocar-se por baixo da africana, diz ainda Rui Dias, é tudo menos simples na zona de Itália. “A complexidade da evolução das cadeias de montanhas que marca o fecho do Tétis é enorme. O facto de no caso dos Apeninos termos uma zona de subducção muito bem marcada, evoluída e activa explica a grande frequência dos sismos na zona de Itália”, volta a sublinhar.

Desta complexidade resulta que não é fácil traçar uma linha entre as placas. “A zona de fronteira euroasiática e africana não é uma coisa que se marque com um risco, não é bonitinha, é mais complicada”, resume o geólogo português.