Turquia expulsa Estado Islâmico da cidade síria mais próxima da fronteira

Ofensiva Escudo do Eufrates visa também os curdos, aos quais o vice-presidente americano, Joe Biden, avisa que não devem passar para ocidente deste rio.

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Tanque turco a avançar para a fronteira síria Bulent Kilic/AFP

Pelo menos seis grupos de combatentes ligados ao Exército Livre da Síria, apoiados por bombardeamentos turcos e da coligação internacional contra o Estado Islâmico (EI) liderada pelos Estados Unidos, entraram na cidade de Jarablus, até agora a última cidade na posse da organização jihadista junto à fronteira turca, usada pelo grupo para reabastecer a sua capital na Síria, Raqqa.

Mas a operação lançada na madrugada desta quarta-feira, denominada Escudo do Eufrates, tem também por alvo as forças curdas, as Unidades de Protecção do Povo (YPG). Estas estão relacionadas com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que a Turquia considera um grupo terrorista, por liderar, desde 1984, um movimento pela autonomia no Sudoeste do país, onde a maioria da população é curda, que tem sido ferozmente reprimido pelo Governo de Ancara.

É a primeira vez que a Turquia faz um avanço assim em território sírio e fê-lo no dia em que o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, visitava Ancara. Apesar de os EUA apoiarem militarmente as forças curdas, o governante  americano sublinhou a sua concordância com a posição turca: “Tornámos claro às forças curdas que têm de recuar para o outro lado do rio. Não podem atravessar para Ocidente do Eufrates. Não podem ter e não terão apoio dos EUA se não mantiverem esse compromisso. Ponto final”, declarou, ao lado do primeiro-ministro turco, Binali Yildirim.

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O vice-Presidente dos EUA, Joe Biden, com o Presidente turco, Recep Erdogan Kayhan Ozer/Palácio Presidenciaç/REUTERS

Enquanto os tanques do exército turco cruzavam a fronteira para se encontrarem com militantes da oposição síria, que terão a confiança de Ancara, a aviação turca e da coligação internacional bombardeava posições do EI, tomando também a cidade de Keklija, na Síria, a meros três quilómetros da fronteira. Um porta-voz do YPG anunciou que estas milícias se iam retirar da margem ocidental do Eufrates, a pedido “das forças democráticas da Síria, apoiadas pelos EUA” – num tweet retransmitido pela conta no Twitter da operação militar turca.

O primeiro-ministro turco, por seu lado, reafirmou a recusa da Turquia em aceitar “a existência de uma entidade curda na Síria junto à sua fronteira”. Refere-se ao Curdistão sírio, uma região no Norte do país que desde Novembro de 2013 se tornou de facto autónoma, no contexto da guerra na Síria, e que se transformou também no maior aliado dos norte-americanos, que têm dado aos curdos treino militar e armas para que possam lutar contra o EI na sua terra.

O Presidente Recep Erdogan disse que a operação tem como alvos “organizações terroristas como o EI e as YPG”. “Estamos determinados a proteger a integridade territorial da Síria e a garantir que aquele país é governado pelo seu povo, inclusivamente pelos nossos próprios meios”, assegurou.

Assad furioso

O regime do Presidente Bashar Al-Assad, em Damasco, condenou a intervenção turca, exigindo o fim “desta agressão”. “A luta contra o terrorismo não consiste em atacar o EI para pôr em seu lugar organizações terroristas apoiadas pela Turquia”, afirma um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Damasco.

Ancara afirma há muito que Assad tem de ser afastado antes de se poderem realizar verdadeiras negociações de paz para a Síria. Mas nos últimos tempos, depois do golpe de Estado falhado de Julho – e do restabelecimento de relações com a Rússia, que apoia Assad –, o discurso turco modificou-se um pouco. O primeiro-ministro disse, nos últimos dias, que a Turquia estaria preparada para aceitar que Assad desempenhasse algum papel durante uma transição para a paz – embora não a longo prazo.

Ao mesmo tempo, está interessada em conter a expansão para Ocidente da zona autogovernada curda, por receio de que se crie uma continuidade territorial até ao Curdistão turco. Saleh Muslim, líder do Partido da União Democrática Curda (sírio), escreveu num tweet que “a Turquia está a entrar no pântano da guerra síria”.

Na semana passada, a aviação de Assad bombardeou pela primeira vez posições curdas – tacitamente, estas duas partes têm-se mais ou menos ignorado no conflito sírio, já que ambos têm inimigos mais importantes – em Hasaka. Nos arredores da cidade há bases americanas, que aconselham os curdos na luta contra o Estado Islâmico, o que fez com alguns aviões americanos levantassem voo para proteger estas bases e enfrentar os aviões sírios.

A mudança de atitude de Damasco face aos curdos em Hasaka fez com que alguns observadores pensassem na possibilidade de um degelo das relações da Turquia com o regime de Assad. Mas foram os curdos que conseguiram o controlo da cidade e desta província do Nordeste da Síria, depois de assinado um cessar-fogo. Por isso, Assad ficou em posição de fraqueza, e essa leitura da guerra já não deverá ser a mais adequada.

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