O vício da peripécia

Tenho pena de nunca ter visto nenhuma telenovela. Tentei ver, em 1975, dois ou três episódios da Gabriela, Cravo e Canela, mas desisti.

Foi o saudoso João Bénard da Costa que me ensinou a apreciar e a respeitar o melodrama. Iniciou-me sabiamente com os filmes do genial Douglas Sirk.

Nada poderia ser mais diferente de Sirk do que uma série espanhola chamada Gran Hotel, transmitida em Portugal pela Netflix. É uma espécie de telenovela só que muito mais rápida e muito mais estereotipada. Não há qualquer pretensão de plausibilidade. Tudo acontece mal queremos que aconteça. Qualquer episódio da primeira temporada daria para cinco temporadas do Downton Abbey.

Gran Hotel é viciante por satisfazer imediatamente todas as vontades do espectador. Mal surge um segredo é logo desvendado. Se alguém está a esconder um documento revelador há sempre outro a espiar.

Não há meias-tintas. Os bons são totalmente bons e os maus totalmente maus. Sabemos que os bons – regra geral os personagens mais jovens e bonitos – vão triunfar. E depressa. Todos os lugares-comuns estão de tal maneira concentrados que se tornam num delirante somatório de todos as figuras do melodrama.

A principal virtude de Gran Hotel, para além da grande velocidade, é o descaramento. Tudo está feito para divertir e apanhar o espectador numa sucessão de enredos que se esgotam tão depressa que até têm a lata de repetir-se. Nós não nos importamos, vamos atrás. Estamos enganchados. Que fazer? Ver.