Os filmes que cabem em ecrãs e galerias vão estar ao ar livre em Lisboa

A oitava edição do festival FUSO – Anual de Vídeo-Arte Internacional de Lisboa começa esta terça-feira e até domingo vai ter dez sessões de filmes de vídeo-arte com entrada gratuita.

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Dance de Hans Op de Beeck vai ser apresentado por Daniela Arriado na sessão A Journey on Salted Waters Cortesia da Dupla Cena
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Analogue Assemblage de Nam June Paik será apresentado por Lori Zippay Cortesia da Dupla Cena
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Los Encargados, de Jorge Galindo e Santiago Sierra, vai ser mostrado na sessão Tonteiras sem Fronteiras (Dizzy Mess), apresentado por Vivian Ostrovsky Cortesia da Dupla Cena
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Uma das últimas edições do FUSO na Praça do Carvão no Museu da Eletricidade, em Lisboa Cortesia da Dupla Cena
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As espreguiçadeiras são a imagem de marca do FUSO Cortesia da Dupla Cena

Cada vez mais as artes visuais se misturam com o cinema, no formato curta-metragem, num casamento entre meios, métodos e linguagens que serve de suporte à criação de obras de arte multimedia. A chamada "vídeo-arte", movimento artístico que surgiu nos Estados Unidos na década de 1960, apareceu numa época em que as tecnologias de vídeo se modernizaram e ficaram mais baratas, passando a fazer parte dos materiais usados pelos artistas visuais.

Pelo oitavo ano consecutivo, o FUSO – Anual de Vídeo-Arte Internacional de Lisboa vai dar vida às noites lisboetas com a projecção de dez filmes em espaços como os jardins do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu da Marioneta e o Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT). “Hoje podemos ver cineastas que fazem obras com determinadas características que podem ser colocadas num museu ou artistas plásticos que estão muito representados em festivais de cinema”, diz António Câmara Manuel, director-geral do festival.

Das criações do pioneiro coreano Nam June Paik nos anos 1960 aos vencedores da última edição do festival de vídeo-arte Loop Barcelona, o FUSO vai percorrer toda a história da imagem em movimento. Além disso, o festival aproveita a ocasião para celebrar os 45 anos de uma das mais prestigiadas instituições de vídeo-arte, a americana Eletronic Arts Intermix, com programação no pólo expositivo da Travessa da Ermida. Dirigida por Lori Zippay, a Intermix é uma instituição sem fins lucrativos sediada em Nova Iorque, com um grande arquivo de vídeo e outros media que inclui 3500 obras. “Os curadores convidados têm carta branca para exporem a linhagem artística e curatorial que caracteriza o seu trabalho”, diz António Câmara Manuel.

Tontura e inspiração

Lori Zippay tem-se dedicado à vídeo-arte nos últimos 30 anos e vai apresentar Edited at EAI nas ruínas do Convento do Carmo este sábado, numa sessão que vai resumir cinco décadas de trabalhos desta expressão artística que vão desde os anos 70 até ao final da década de 2000. Uma viagem do analógico ao digital que inclui, por exemplo, uma peça de Anthony Ramos que aborda identidades raciais, culturais e de género e a performance Kinetic theater, de Carolee Schneeman nos anos 1960. O francês Thierry Destriez, do Heure Exquise – Centre international pour les arts vidéo, estará à frente da sessão Desejo e Memória, com filmes que retratam vários tipos de desejos ou de memórias.

Vivian Ostrovsky, cineasta experimental e curadora norte-americana que pesquisa as representações da tontura no cinema e no vídeo e criou o blogue On Dizziness, chega esta quinta-feira a Lisboa para ocupar o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado com a sessão Tonteiras sem Fronteiras, em que vai apresentar os filmes One Week, de Buster Keaton; Düffels Möll, de Erik Wesselo; La Plage, de Patrick Bokanowski; Los Encargados, de Jorge Galindo e Santiago Sierra; Travelling Fields, de IngerLise Hansen; Dream Work, de Peter Tscherkassky, e Bouquets, de Rose Lowder. “A tontura que inspira artistas e cineastas para irem além das suas fronteiras é o que procuro”, descreve no site do FUSO a artista, que recebeu um convite para participar num projecto sobre o tema da tontura iniciado pelos artistas e cineastas australianos Ruth Anderwald e Leonhard Grond e que só terminará em 2017. Nos dias 26 e 27 de Agosto, Vivian Ostrovsky e a sua colaboradora Ruti Gadish apresentam a vídeo-instalação DizzyMessde 12 minutos, no Palácio Pombal.

No mesmo dia, o curador português Bruno Leitão, do centro de investigação artística Hangar, falará sobre Redistribuição do Poder. O formato da obra é o filme ensaio, "uma das formas artísticas que mais efectividade terá em provocar algum tipo de impacto social e político". Serão apresentados trabalhos de Filipa César, do The Otolith Group e de Pedro Neves Marques. O The Otolith Group aborda a supressão de momentos da história das independências em África; Filipa César questiona a necessidade de reavaliar a estatuária e a dificuldade que um povo tem em enfrentar a sua própria História, e Pedro Neves Marques tem como ponto de partida o Manifesto Antropofágico, de Oswaldo de Andrade, e "a possibilidade de uma epistemologia do Sul aplicada a noções de ecologia, cibernética, economia, produção e consumo".

Miguel von Hafe, que já foi comissário de vários projectos nacionais e internacionais e responsável pela área de Artes Plásticas, Arquitectura e Cidade do Porto 2001 – Capital da Cultura, estará no Museu Nacional de Arte Antiga na sexta-feira para apresentar Daquilo que fica do que não se vê, vendo, quatro filmes que confrontam as perspectivas opostas de Francisco Queirós e da dupla Von Calhau!. Enquanto a criação do primeiro é centrada no vídeo, o trabalho dos Von Calhau! associa a imagem em movimento à apresentação ao vivo.

Crise migratória

Também a curadora chilena e norueguesa Daniela Arriado vai explorar o encontro entre a arte e as novas tecnologias com A Journey on Salted Waters, um conjunto de trabalhos de cinco artistas inspirados na crise migratória: Dance, de Hans Op de Beeck, "um vídeo abstracto sobre pessoas em movimento"; Requiem to a Shipwreck de Janis Rafa, realizado em honra de um trágico evento na costa da Grécia; Somewhere in Between, de Mirelle Borra, que reflecte sobre a diáspora após a descolonialização das Índias Orientais Holandesas; Cruzar un Muro, de Enrique Ramírez, que representa o direito de se cruzar fronteiras; e The Last Carnival Cruise de Antoni Miralda, uma viagem inspirada no turismo, lazer e velhice.

O último dia terá como palco principal o Museu da Marioneta, onde estará Christine van Assche, curadora de novos media do Centro Georges Pompidou (que tem mais de 1700 peças vídeo e multimedia), para conduzir a sessão Dakar, Paris, New York, Praia, Londres, que junta "três artistas, três gerações, três eras e três culturas" e mostra obras de Chris Marker, Tony Ramos e Isaac Julien.

O festival conta ainda com os FUSO Files, uma série de encontros no Palácio Pombal com coordenação de Elsa Aleluia, que fundou o festival de vídeo-arte em 2009 com António Câmara Manuel. Pretende-se que sejam  conversas informais entre o público e os artistas com performances e exibição de documentação de arquivos que contam a história do vídeo e da imagem.

 Organizado pela Dupla Cena, estrutura interdisciplinar de produção de obras multimedia e de vídeo-arte, o festival tem direcção artística de Jean-François Chougnet, antigo director do Museu Colecção Berardo e actual director do Musée des Civilisations de l’Europe et de la Mediterranée. Como já é habitual, abriram um concurso a criadores nacionais ou estrangeiros residentes em território português e receberam mais de 200 trabalhos. “Começámos por receber cerca de 40 filmes [nas primeiras edições], mas verificamos que há um crescente interesse artístico em expor estas obras”, reconhece António Câmara Manuel.

A visualização e escolha dos trabalhos ficou a cargo de Jean-François Chougnet. Os 23 filmes seleccionados serão exibidos no MAAT esta quarta-feira e, no sábado, o público ficará a conhecer quais os vencedores do prémio Fundação EDP, que garante ao trabalho vencedor um lugar na sua colecção de vídeo-arte, e o prémio do público, realizado por votação. O vídeo de José Simões, Como Comem os Portugueses a Torrada em Pão de Forma, foi o vencedor da edição passada do Grande Prémio do FUSO – Anual de Vídeo-Arte Internacional de Lisboa.

Texto editado por Isabel Coutinho