Mulher transgénero queimada expõe clima de intolerância na Turquia

Comunidade LGBT marcou para este domingo protesto na praça Taksim, em Istambul. Caso mostra ambiente crescente de transfobia e homofobia que se vive no país.

Marcha LGBT de Istambul em 2014
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Marcha LGBT de Istambul em 2014 Bulent Kilic/AFP

Hande Kader fez-se notar em Junho de 2015. A marcha LGBT tinha sido proibida em Istambul, onde acontecia desde 2003, mas a jovem foi à mesma para a rua e fez frente à polícia de choque - foi apanhada pelas câmaras fotográficas. “Hande era uma das pessoas mais simpáticas do mundo. Ela era normalmente muito calma, mas também era hiperactiva. Ia sempre às marchas LGBT. Lutou até ao fim por uma causa que sentia ser a causa certa”, disse Davut Dengiler, falando à BBC da sua amiga transgénero, com quem dividia a casa.

Foi Davut Dengiler quem identificou um corpo queimado numa morgue de Istambul como sendo o de Hande Kader, encontrado a 8 de Agosto. O assassínio desta activista transgénero e trabalhadora do sexo de 23 anos está a causar uma vaga de protestos nas redes sociais.

Esta tarde um protesto no centro de Istambul, em que participaram cerca de 200 activistas e transexuais. Segundo a AFP, decorreu com tranquilidade apesar de as manifestações estarem proibidas pelo estado de emergência, em vigor desde o golpe de Estado fracassado de Julho.  A comunidade LGBT sente-se particularmente desprotegida pelas autoridades e pelo Governo do Presidente turco Recep Erdogan.

“Hande enlouquecia quando pessoas transgénero eram mortas. Ela ficava tão triste… No passado, ela já tinha sido esfaqueada e já lhe tinham batido. Isto não aconteceu apenas à Hande. Está sempre a acontecer”, explicou Davut Dengiler.

“Estamos a ser mortos, e eles não ouvem as nossas vozes, porque as leis na Turquia não nos protegem”, disse Emirhan Deniz Celebi, director da organização LGBT Turca, citado pelo site de notícias Inquisitr. A Turquia é o país da Europa mais perigoso para se ser transgénero. Entre 2008 e 2015, foram assassinadas 41 pessoas transgéneros, de acordo com a associação Transgender Europe.

No último mês houve outro caso que chegou aos media. Muhammad Wisam Sankari, um refugiado sírio homossexual de 25 anos, foi degolado em Julho. O seu corpo apareceu em Yenikapi, um bairro de Istambul, a 25 de Julho. Cinco meses antes, tinha sido raptado por um grupo de homens, que bateu no sírio e o violou. “Queixámo-nos no posto de polícia mas não aconteceu nada”, disse um amigo da vítima à BBC, no início deste mês. “Eu recebo ameaças pelo telefone… Tanto faz se somos sírios ou turcos, quando se é gay, passa-se a ser um alvo de toda a gente”, disse Diya, outro amigo do sírio assassinado.

Os activistas LGBT queixam-se de complacência por parte das autoridades. O caso da proibição das marchas LGBT em Istambul em 2015 e 2016 é paradigmático. A desculpa para a proibição é ser o mês do Ramadão. Mas a ameaça vem de grupos extremistas que exigiram o fim daquela celebração anual.

“Não queremos que eles caminhem nus em solo sagrado do nosso país no mês abençoado do Ramadão”, declarou a Associação Juventude Muçulmana da Anatólia, um grupo islamista citado pelo jornal britânico The Guardian. Numa conferência de imprensa, um outro grupo de jovens de extrema-direita chamado Aleperen Hearths juntou-se ao protesto fazendo ameaças. “Não somos responsáveis pelo que possa acontecer a partir deste momento”, disseram numa conferência de imprensa. “Aos degenerados não lhes vai ser permitido continuarem com as suas fantasias nesta terra.”

A câmara de Istambul cedeu à ameaça. Em 2013, cerca de cem mil pessoas participaram na marcha. Em Junho último, a polícia turca disparou balas de borracha e libertou gás lacrimogéneo para dispersar os activistas LGBT que tentaram marchar apesar da proibição.

Para os extremistas, os “degenerados” não são apenas transgéneros, lésbicas e gays. Também em Junho, jovens que cantavam e ouviam músicas da banda inglesa Radiohead junto a um bar num bairro alternativo de Istambul foram alvo de agressões por um grupo de homens. Para Erdogan, tanto os atacantes como os jovens a ouvir música tiveram culpa pelo que aconteceu: “Aqueles que não respeitam as sensibilidades da sua nação e da sua cidade, e aqueles que respondem a esta situação com uma reacção não democrática, infelizmente ensombram a nossa hospitalidade com a rixa que iniciaram.”

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