Opinião

Atividade física: um novo sinal vital de saúde

Atualmente, a atividade física não é uma mera questão de estilo de vida — é uma verdadeira prioridade de saúde pública.

Durante os Jogos Olímpicos, entre a esperança de medalhas e a grande atenção dada ao desporto, muitos profissionais da saúde mas também pais, professores e outros cidadãos informados esperam que os movimentos “rápidos, altos e fortes” dos atletas de elite possam inspirar quem os vê a serem, também eles, fisicamente mais ativos. Atualmente, a atividade física não é uma mera questão de estilo de vida ou uma moda associada ao culto do corpo. Segundo as Nações Unidas, a OMS, e agora também para a Direção-Geral da Saúde em Portugal, é uma verdadeira prioridade de saúde pública.

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A inatividade física na população está diretamente associada a 4% dos casos de doença coronária, 5% da diabetes, 7% dos casos de cancro da mama e do cólon, e a 6% de mortes por todas as causas. Está comprovado o impacto protetor que a atividade física regular tem na depressão, na doença de Alzheimer (13% dos casos poderiam ser evitados) e na demência em geral. É também conhecida a diferença, para melhor, no rendimento académico e nas capacidades cognitivas dos jovens fisicamente ativos quando comparados com os seus colegas sedentários. A par com a alimentação, a atividade física é um dos pilares da luta contra a obesidade.

É assim imprescindível que os governos avancem com planos e medidas para promover a atividade física e desportiva dos cidadãos. Esta é, aliás, uma das recomendações internacionais mais consistentes da última década em matéria de saúde pública. No entanto, como se comprova no recente número especial da revista Lancet dedicado à atividade física, afirmar vontade política e implementar uma política eficaz não é a mesma coisa. A diferença verifica-se em dois aspetos essenciais: A existência de um programa nacional para a promoção da atividade física com um plano de ação pronto a operacionalizar; e a existência de financiamento à altura das necessidades. Só esta conjugação permite atingir os objetivos estratégicos que qualquer plano nacional de saúde deve ter, a saber: ter um vasto conjunto de profissionais de saúde treinados e com recursos para agir junto dos cidadãos; construir as parcerias intersetoriais necessárias ao impacto sustentado que se deseja; manter atualizada uma base de dados de vigilância epidemiológica que permita decisões com elevada probabilidade de impacto; e ser eficaz a informar e a motivar os cidadãos para terem vidas mais saudáveis.

Com precisamente estes propósitos, Portugal tem, desde Maio de 2016, um Programa Nacional de Promoção da Atividade Física. Foi uma decisão atempada e necessária para o país cumprir um desígnio a que se comprometeu internacionalmente, e de forma repetida, desde 2013. Estima-se que apenas 15-20% dos portugueses com mais de 15 anos cumprem as recomendações internacionais para a atividade física[1]. Mais de metade das crianças e adolescentes indica ver mais de 2h de televisão por dia, um indicador negativo. A meta deste novo programa é reduzir em 10% a prevalência da inatividade física na população portuguesa, até 2025.

Felizmente, o país não parte do zero. A Educação Física tem desde há décadas cumprido o papel de promover o desenvolvimento harmonioso dos jovens, incluindo a literacia e as capacidades físicas. O Desporto Escolar tem estimulado muitos novos praticantes de desporto e o programa Desporto para Todos do Instituto Português do Desporto e Juventude tem também dedicado recursos públicos à promoção da atividade física. Outros bons exemplos existem, dos quais se destacam iniciativas de âmbito local como a criação de ciclovias e passeios pedonais, a disponibilização de bicicletas públicas, e as muitas provas abertas de corrida.

É também crescente a procura pelos profissionais de saúde de formação na área da motricidade humana e as universidades e politécnicos na área das Ciências do Desporto têm aumentado e enriquecido a oferta de formação graduada e pós-graduada nesta área, a par das melhores tendências internacionais. Embora ainda sem carreira profissional bem definida em Portugal, a integração do Fisiologista do Exercício no sistema de saúde é uma evolução incontornável, das equipas dos cuidados de saúde primários (por exemplo, em programas de prevenção da diabetes nas USF) aos serviços hospitalares como os de cardiologia ou pediatria.

Algures entre uma criança a saltar com destreza uma poça na rua e um triplo salto perto dos 18 metros está um caminho que todos podemos percorrer durante a próxima olimpíada. Como? Acrescentando mais atividade física aos nossos dias. Pode ser a prática de um desporto organizado. Pode ser caminhar ou correr mais vezes numa semana habitual. Ou nadar, dançar, andar de bicicleta, até surfar. Pode ser ir ao ginásio ou ir a pé para o emprego. Pode ser subir o prédio pelas escadas em vez do elevador. Pode apenas significar estar mais vezes em pé quando se pode estar sentado, como no intervalo do cinema. Todas estas atividades contam e todas juntas contribuem para o nível de atividade física de cada pessoa, um verdadeiro ‘sinal vital’ de saúde, tão ou mais importante que o seu peso, pressão arterial ou história familiar de doença.

O programa que agora se inicia em Portugal tem como visão uma população com baixos níveis de inatividade física, sustentados num elevado interesse e prontidão para o movimento por parte de todos, e inserida num ambiente físico e sociocultural facilitador em casa, na escola, no trabalho, no lazer e nos percursos do dia-a-dia. Muitos serão necessários para que este programa tenha sucesso. Todos serão convidados a participar.

[1] As recomendações para adultos são: em cada semana, acumular pelo menos 150 minutos de marcha enérgica (ou atividade moderada equivalente, como andar de bicicleta ou jardinagem ativa); ou 75 minutos de corrida leve (ou atividade vigorosa equivalente, como dançar ou praticar um desporto ativo); ou uma combinação equivalente.

Professor da Faculdade de Motricidade Humana, UL; director do Programa Nacional de Promoção da Actividade Física da Direcção-Geral da Saúde