Assad obriga EUA a defender curdos

Pela primeira vez, Damasco bombardeou milícias curdas e pôs em risco os conselheiros militares americanos no Norte da Síria. Aviões americanos foram ao encontro dos de Assad.

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Milhares de pessoas fugiram de Hassakah por causa dos bombardeamentos Rodi Said/REUTERS

Numa cidade do Norte da Síria disputada entre os curdos e o regime sírio, os aviões dos Estados Unidos enfrentaram pela primeira vez a aviação de Bashar Al-Assad. O regime de Damasco está a bombardear desde quinta-feira posições curdas na cidade de Hassaka, ao redor da qual há base onde se encontram alguns dos de cerca de 300 militares norte-americanos, que aconselham as milícias YPG, as forças paramilitares curdas que têm sido as mais eficazes no terreno a conter o avanço do Estado Islâmico.

Foram enviados caças norte-americanos ao encontro de aviões sírios SU-24, que bateram em retirada. “Isto foi feito para proteger as forças da coligação” anti-jihadista, explicou o capitão Jeff Javis, porta-voz do Pentágono. Não há tropas americanas em Hassaka, mas há bases americanas a cerca de seis quilómetros para Norte da cidade. “Mostrámos claramente que os aviões americanos defenderiam as tropas no solo se fossem ameaçadas.”

Mas este sábado os aviões sírios regressaram, diz a AFP.

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Os bombardeamentos da aviação síria contra alvos curdos são uma novidade nesta complexa guerra que se arrasta desde Março de 2011. Assad e o Estado Islâmico (EI) são um inimigo comum das Unidades de Defesa do Povo (YPG) curdas, pelo que o regime de Damasco tem mais ou menos fechado os olhos ao estabelecimento de uma entidade curda que se diz federal e se tornou virtualmente independente no Norte da Síria.

Esta entidade, Rojava, transformou-se também no maior aliado dos norte-americanos e coligação internacional na luta contra o terrorismo, que têm dado aos curdos treino militar e armas para que eles possam lutar contra o EI na sua terra.

Esse apoio, que alimenta as ambições curdas de construir um Estado verdadeiramente independente, em territórios retirados à Síria e Turquia, não é vista com bons olhos em Ancara – que sublinha as ligações das YPG ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização classificada como terrorista. A Turquia tem bombardeado sem cessar as posições curdas, temendo que a entidade independente curda criada na Síria se estenda para o seu Sudeste, de maioria curda, formando uma nova nação. Por isso, trata esta região com mão-de--ferro.

Por essa razão, embora a Turquia faça parte da NATO e considere Assad um inimigo, saudou os bombardeamentos da aviação do Presidente Assad sobre Hassaka: “É uma situação nova. Parece claro que o regime [sírio] compreendeu que a estrutura que os curdos tentam formar no Norte do país começou a tornar-se uma ameaça também para a Síria”, declarou o primeiro-ministro turco Binali Yildirim, citado pela AFP.

As causas próximas dos bombardeamentos da aviação de Damasco parecem ter a ver com uma ofensiva curda lançada para obter o controlo total da cidade de Hassaka, que antes da guerra tinha 300 mil habitantes, metade árabes e metade curdos, e ainda acolheu 114 mil deslocados. Hoje, dois terços dacidade estão na posse das YPG, e o centro é controlado pelas milícias leais a Assad. Mas nas últimas duas semanas tem havido grandes tensões na cidade, com violentos combates e acusações mútuas de detenções e raptos, diz o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma organização com informadores no terreno.

Milhares de pessoas fugiram na cidade, em resultado dos combates. Os curdos exigem a dissolução das Forças de Defesa Nacional (milícias pró-regime) nesta cidade. Por seu lado, o exército sírio acusou a polícia curda (Asayish) de estar na origem da violência, de ter criado “provocações, incluindo o bombardeamento de posições da milícia que levaram à morte de soldados e civis.

Estes bombardeamentos, disse uma fonte governamental local à AFP, “são uma mensagem para os curdos, para que deixem de fazer este tipo de reivindicações territoriais que afectam a soberania nacional”.

Até que ponto se abre uma nova frente de batalha, não é ainda certo. Mas este sábado ter-se-ão realizado conversações de paz preliminares, anunciou a rádio Sham FM, próxima do Governo de Damasco, diz a Reuters – num indício da relutância em criar uma nova frente nesta guerra, sobretudo quando o regime está a investir na tomada de Alepo.