Crónica

Ericeira morena, café queimado

Ericeira morena, café queimado, se fosses mais boémia roubava-te só para mim.
As tuas curvas baloiçam-se ao som de bossa nova.
Cambaleias, inocente, sobre as areias terrentas da Foz do Lisandro.
Danças nua, derretida nas lágrimas perdidas que deslizam
se-re-na-mente através das pálpebras anciãs dos teus filhos.
Nas redes de pesca e nas mãos tremidas e calinadas, és imortal!

Agosto tem dado que falar Ericeira, o sol esconde os teus segredos, mas eu vejo-os à superfície. Sei que gostas de vaguear como um lobo pelas rochas das Furnas à procura de um pouco daquela nervosa luz do luar que só a ti te pertence, sei que os teus lábios salgados estão entreabertos, atrapalhados no meio das algas. Não te escondas na miscelânea de “bifes” e “bifas” que penetram a tua vila como touros bravos, porque eu vejo o mar a beijar-te levemente o pescoço e a correr como cascata através da tua pele. Sei que és selvagem e que se pudesses, te deixavas cair de costas contra as ondas frias que partem na Praia do Sul, mas deixa-me contar-te um segredo Ericeira, tu és o meu vício.

Crescer aqui, foi diferente. Foi mágico. O mar era o meu quintal, a areia o meu chão. Lembro-me de pegar em Legos e Playmobil e simular a batalha de Aljubarrota em castelos feitos de restos de madeiras que boiavam no rio Sizandro. A minha avó adormecia-me com a história de como os Jagozes acolheram e ajudaram D. Manuel II a fugir para o exílio, por entre a praia dos pescadores. Sonhava, dentro dos meus lençóis do Beyblade, em combater em lutas heróicas dignas de Aquiles ou Hércules.

Depois veio a pré-adolescência, a minha cara encheu-se de borbulhas e comecei a reparar mais nas raparigas, mas como podem imaginar, acne e uma vozinha irritante não era propriamente a melhor primeira impressão que podia dar, comecei a refugiar-me mais no conforto do sofá e Nickelodeon, para desgosto do meu pai que me tentava sempre puxar para o surf e conhecer gente nova.

Passados alguns anos, fui estudar para Lisboa e foi aí que comecei a sentir falta de estar na Ericeira, comecei a conviver mais com os meus amigos da primária e depressa compreendi que não só tínhamos os mesmos interesses, como partilhávamos algo que na altura não percebíamos, mas hoje entendo perfeitamente, os teus filhos, Ericeira, não têm o mesmo sangue, mas possuem dentro de si as mesmas raízes, o mesmo sal e, sem sabendo, éramos irmãos. Descobrimos o surf juntos, não como desporto, mas como uma forma de ficarmos mais próximos de ti, de te conseguirmos tocar no rosto, pintar-te os olhos com aquele azul celestial. Invadimos florestas, saltitámos sobre pedras escorregadias, para descobrir picos novos e solitários para te podermos sentir com mais calma e nitidez.

Aluno do 12.º ano, Escola Secundária Rainha Dona Amélia, Lisboa