Burka, burkini e outros velamentos

Dizem os proponentes da proibição do uso da burka e burkini nos países europeus que estes adereços representam uma forma de controlo de direitos. Então, o que é que nos distingue dos islâmicos?

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TIM WIMBORNE/ Reuters

A questão envolvendo o uso da burka, burkini ou outros adereços de latitude cultural enforma, na realidade, uma oposição entre a ética conservadora/dogmática e a ética liberal. Veremos que, com base nesta contraposição, há incoerências quase insanáveis a afectar o discurso eurocêntrico.

Dizem os proponentes da proibição do uso da burka/burkini nos países europeus que estes adereços representam uma forma de controlo de direitos (neste caso, femininos) que não se aplica à Europa, onde, supostamente, vigoram valores superiores. Deve, assim, ser proibida a utilização de uma veste, com base num conjunto de valores prévios. Curiosamente, é precisamente assim que funcionam os países islâmicos: concebem um mote de proibição com base em princípios precisos, valores "à priori". Então, o que é que nos distingue dos islâmicos? Para muitos, o facto de os nossos valores serem "superiores", isto, claro, já depois de se ter percebido, que não é na "liberdade" que parecemos ser "melhores" que os outros.

Ora, para um relativista como eu, não existem culturas, sociedades, tempos, valores, "superiores" ou "inferiores". O "superior" é o que cada cultura ou sociedade sanciona enquanto tal, pelo que é difícil estabelecer uma "razão" com base no dogma, na ética principesca. Não obstante, à imagem do liberalismo, qualquer forma de ética pressupõe que devemos ser, ou tendemos para ser, livres. Este é o objecto formal que serve de alvo a todos os "princípios". Uma proibição com base "cultural" fere o "objecto" de todas as morais, um pouco como se o "golo" não justificasse trair o jogo de valores. Como saber, aliás, se a "liberdade" justifica ou não a "traição" de certos princípios conservadores, como saber se esta suposta traição compensa ou não a frustração da liberdade a curto prazo? Bem, a verdade é que não há ainda algoritmo suficientemente robusto que nos permita certificar o que quer que seja.

Fiquemos, então, pelas variáveis locais. Os argumentos parecem sempre frustres, mas o pior é que o seu jogo não tem sido perfeito. Geralmente, quando se discute o tema em análise, o preconceito vem retalhar a visão objectiva (não deixando esta de ser também um preconceito). Claro, nem sempre a verdade deve ser discutida, até porque a verdade é a que cada um quer reconhecer enquanto tal; por vezes, há que "iludir", se a ética o demanda. E neste jogo de retóricas, ilusões é o que não falta. Face a tamanho relativismo, fica o tema por "resolver", a não ser que tenhamos em conta outros factos. Pensemos se uma "proibição" é a melhor forma de nos mostrarmos "superiores" face às culturas islâmicas. Há, até, a possibilidade de o seu radicalismo se "radicularizar" (ou será "ridicularizar"?) ainda mais; até agora, todas as formas de radicalização eurocêntrica têm contribuído para sublevar ainda mais as reacções dos radicais islâmicos, a mensagem feminista ocidental simplesmente passa-lhes ao lado, incluindo as mulheres inconscientemente "livres" do oriente. Para quê, então, forçar uma proibição que parece tão pouco vantajosa, tamanhamente inútil? Para satisfazer os egos islamofóbicos, ou a sede de guerra e controversão?

A História tem mostrado, quase sempre, que a liberdade possui maiores atributos que o dogmatismo encartado. Obviamente, há algo de egóico no desejo de "libertação", como há no próprio desejo de "verdade", mas isso é como em tudo na vida. Entretanto, por mim, sejam bem-vindas as culturas, as línguas, a variabilidade babélica, sem elas a vida seria o "mesmo de sempre".