Editorial

Uma Caixa de más surpresas

Solução (transitória) para o banco público é o corolário de uma série de erros de palmatória

O infeliz processo da nomeação da nova administração da Caixa Geral de Depósitos continua a acumular um interminável acervo de erros políticos, de trapalhadas processuais e de sinais de desnorte. Depois de ter ultrapassado todos os prazos admissíveis para substituir a equipa de gestão actual, que deveria ter saído em Dezembro, o Ministério das Finanças conseguiu finalmente concertar com o Banco Central Europeu uma solução de recurso para evitar danos maiores. Mas fê-lo expondo com uma crueza de principiante as fragilidades e o destempero da sua solução. A acumulação de funções de controlo e executivas numa única pessoa está apenas garantida por um prazo de seis meses; três dos gestores nomeados vão ser obrigados a frequentar um curso de gestão bancária; no futuro próximo, terão de ser cooptadas mulheres; e da lista de 19 administradores propostos, oito foram excluídos pelo BCE por violarem uma lei da República Portuguesa.

Apesar de todas as evidências, o Governo tenta fazer crer que resolveu um problema e que, no final do dia, os seus planos para a Caixa vão avançar. Não é verdade. A solução aceite pelo Banco Central Europeu é claramente uma solução de recurso destinada a evitar um mal maior – o completo vazio na gestão da Caixa. É uma solução a prazo no modelo de governação, o que deixa transparecer uma cedência táctica do BCE. É uma solução na qual uma entidade externa obriga o Governo a cumprir as leis do país.

Ao contrário do défice, da dívida ou da austeridade que resultam de erros próprios e de heranças indesejáveis, o caso da Caixa é uma ferida auto-infligida pelo ministro das Finanças. É uma síntese exemplar de incompetência e desleixo que envergonha o Governo e o país e coloca um dos pilares da economia nacional num plano de fragilidade que denuncia irresponsabilidade. A Caixa devia ser a Waterloo de Mário Centeno.