Publicitário de Passos e Portas custou 475 mil euros à coligação PSD-CDS

As contas das campanhas das legislativas mostram que a PaF pagou quase meio milhão a André Gustavo e gastou 134 mil euros no Pontal de 2015. Decoração de salas feita por Domingos Ferreira custou 751 mil euros ao PS. E há despesas improváveis de partidos, como multas de trânsito e a árvores.

O director financeiro da PaF diz que André Gustavo foi escolhido por “decisão conjunta” do PSD e CDS
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O director financeiro da PaF diz que André Gustavo foi escolhido por “decisão conjunta” do PSD e CDS Miguel Manso

Os cintos de cortiça que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas receberam no Pontal do ano passado custaram à coligação PSD/CDS-PP 246 euros – uma gota de água na conta da festa no Calçadão de Quarteira, que ascendeu a pelo menos 134.115 euros. E infinitamente baratos quando comparados com os 475 mil euros pagos ao publicitário brasileiro André Gustavo pelo aconselhamento a Passos e Portas para as legislativas. Os números estão nas listas de meios e acções de campanha que os partidos entregaram no Tribunal Constitucional e que são um mundo de contas, facturas e euros – algumas muito descritivas, outras perfeitas incógnitas – que a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) vai analisar nos próximos meses.

Pela lei, cabem aqui todas as despesas dos partidos desde 5 de Abril até 2 de Outubro relacionadas com a actividade eleitoral. Além das centenas de milhares de euros gastos no total dos almoços e jantares pagos pelos maiores partidos, nos sistemas de som, nos tempos de antena, bandeiras, panfletos e cartazes e em autocarros com que arregimentam militantes para as acções de campanha, há itens curiosos em todas as listas de despesas.

Na longa lista da coligação Portugal à Frente (PaF) aparecem registos de pagamentos, através de três “notas fiscais” à Arcos Propaganda, no total de 475 mil euros. Trata-se da empresa do publicitário brasileiro André Gustavo que já trabalhou com Passos para as legislativas de 2011, e que foi mencionado recentemente na investigação da operação Lava-Jato. O director financeiro da PaF, o centrista António Carlos Monteiro, confirmou ao PÚBLICO o valor e disse que André Gustavo foi escolhido por “decisão conjunta” do PSD e CDS. “Houve auscultação ao mercado, mas acabou por ser entendido adjudicar [ao publicitário André Gustavo] depois das sugestões feitas pelo PSD”, especificou este responsável, acrescentando que os serviços foram “prestados à campanha” e não a um dos líderes em especial.

Por pelo menos 66 estudos de mercado, a coligação PSD/CDS pagou à Pitagórica 184.217 euros. Mas há mais agências de comunicação e marketing na lista de fornecedores, como a Fullsix (176 mil euros), Fast Forward (51 mil), GMT (16.600) – cada uma para serviços diferentes como tempos de antena de rádio ou TV, apoio nas redes sociais ou elaboração de outdoors, descreveu António Carlos Monteiro. A licença para o uso de fotos do banco de imagens Shutterstock que levantou polémica custou 1800 euros. Até há uma multa de trânsito de 120 euros, oito mil euros em motoristas e facturas de combustível que chegam aos 3200 euros.

O PS, que ao contrário do PSD não identificou o nome dos fornecedores nas listas que entregou, continuou a ignorar os avisos do Tribunal de Contas sobre os contratos milionários que entrega, em campanhas sucessivas, a um antigo funcionário, Domingos Ferreira. À AEDIS, uma das empresas em que Ferreira é sócio, o PS pagou 751 mil euros pela decoração de salas, a iluminação e o som para dúzia e meia de comícios. Questionado pelo PÚBLICO, Luís Patrão, responsável financeiro do PS, explicou que a AEDIS fornece os cenários, a decoração do interior e exterior das salas, cadeiras, bancadas, palco, púlpitos e todo o som e iluminação e admitiu que é uma parcela muito significativa das contas.

"Mensagem telefónica" de 15.375 euros

O hino da campanha socialista custou 8610 euros e os tempos de antena 129 mil euros. Pela organização do YES Summer Camp em Santa Cruz, de 25 a 30 de Agosto, um acampamento de jovens socialistas europeus, o PS pagou pelo menos 31.700 euros. O programa incluiu a presença de António Costa - e só não teve Martin Schulz por este ter então adoecido – na mesma altura em que os sociais-democratas faziam a sua Universidade de Verão em Castelo de Vide. O PS gastou apenas 48 mil euros em sondagens mas inscreveu 121 mil euros de despesas em marketing – Luís Patrão diz que o partido trabalha com várias empresas e não as quis identificar.

No dia 4 de Outubro, além da noite eleitoral do Altis, está inscrita uma despesa de 15.375 euros com a descrição “mensagem telefónica”. Luís Patrão explicou ao PÚBLICO que foram enviadas mensagens durante a campanha a mobilizar os militantes para os comícios mas só terá sido contabilizada no dia das eleições.

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Para proteger os apoiantes do sol foram gastos 85 mil euros em bonés e 44 mil em T-shirts. Canetas e lápis custaram 30.750 euros, imprimir o programa eleitoral 27 mil e as bandeiras agitadas nos comícios 56 mil euros.

A multa do Livre

Entre as despesas do Livre/Tempo de Avançar encontram-se, por exemplo, a compra do filme O espírito de 45, de Ken Loach, e o aluguer do equipamento de projecção (1470 euros) que o partido usou na sua caravana de Verão no Algarve, a que chamou “Nosso querido mês de Agosto”; 1150 alfinetes com papoilas em feltro (o símbolo do partido) por 920 euros; 102 euros por 38 árvores que plantou no Parque Natural de Sintra-Cascais; 1034 euros pelo aluguer de bicicletas para o evento Pedalada Livre; e os três euros de uma multa de estacionamento em Vila Nova de Gaia.

Não apresentando uma lista detalhada sobre as dezenas de eventos, a CDU optou por agrupar as despesas por tipo de propaganda ou por campanha de mobilização e depois apresentar uma rubrica sobre despesas de apoio a iniciativas de pré e campanha eleitoral que não permitem perceber a que acções no terreno dizem respeito. No entanto, é possível contabilizar 128 mil euros em aluguer de autocarros e 2342 euros para fretar um barco entre Barreiro e Terreiro do Paço para a marcha nacional “A força do povo”, que desfilou do Marquês até aos Restauradores, em Junho. O evento custou, no total, cerca de 210 mil euros e a coligação diz ter recolhido quase 9900 euros em donativos.

O helicóptero do Bloco

Para mostrar a destruição provocada pela cimenteira na Arrábida, Catarina Martins sobrevoou a pedreira da serra num helicóptero acompanhada de repórteres de imagem e rádio e a factura foi de 2650 euros. O maior evento da campanha bloquista foi o almoço no Pavilhão Atlântico para 1350 pessoas: custou mais de 95.500 euros e o partido angariou apenas 11.555 euros.

Organizar o acampamento Liberdade 2015, no parque de Campismo de S. Gião, perto de Coimbra, com 127 participantes, custou ao Bloco 20 mil euros entre refeições, alugueres de espaços, autocarros e outras despesas. A gestão do portal de Internet do Bloco chegou aos 48 mil euros, sendo que a maior fatia (quase 35 mil euros) foi usada em remunerações e apenas 10.500 euros foram para pagar serviços relacionados com a presença na Internet.

Os restaurantes do PAN

Da lista de eventos do PAN, consta uma sessão de media training no Porto para quatro pessoas que foram comer ao restaurante vegan Pop 101. Mas as preferências gastronómicas não se restringem às opções vegetarianas. Há registo de duas facturas de restaurantes chineses em Lisboa associados a um evento no Vale do Tua, um de comida mediterrânea com especialidades vegetarianas em Almancil, um indiano na Madeira, e de outro na Foz do Tua, o Calça Curta, em que as especialidades são a lampreia e o sável de escabeche, diversos enchidos, e também javali, veado, lebre e coelho bravo estufados ou feijoada à transmontana.

Em todas as acções do PAN a quantidade de materiais usados é sempre a mesma independentemente do número de participantes – uma bandeira, 18 crachás e 8135 folhetos. Mas o que poderá levantar problemas ao partido é a apresentação de despesas de quilómetros no total de 2600 euros de vários candidatos, André Silva incluído – que a Entidade das Contas não aceita -, para acções de campanha, recolha de assinaturas ou sessões fotográficas.

Na única página entregue pelo PCTP/MRPP com as escassas acções de campanha, dois números saltam à vista: os 15.73,65 euros pagos à empresa DoWhile pelos serviços de multimédia e audiovisuais e os 17.500 recebidos pela Limitless Media pela “concepção, comunicação e estruturas”. O jantar de encerramento da campanha, na Casa do Alentejo, com 210 convivas, custou 4240 euros – 460 dos quais para o animador José Saraiva.

O MPT – Partido da Terra, limitou-se a entregar uma descrição das acções de campanha indicando “com” ou “sem custos financeiros”, mas sem indicar quanto custaram as que tiveram custos nem os meios empregues – como bandeiras, panfletos ou brindes distribuídos. Todos os jantares foram pagos por cada participante.