Morreu João Havelange, ex-presidente da FIFA

Brasileiro, com um longo passado no dirigismo desportivo, tinha 100 anos. Para trás, deixa uma carreira marcada pela inovação e pelas suspeitas.

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REUTERS/Jorge Adorno

Morreu João Havelange, antigo presidente da FIFA e da Confederação Brasileira de Futebol (CFB). O ex-dirigente estava internado, devido a uma pneumonia, e, segundo a imprensa brasileira, não terá resistido a uma infecção respiratória. Aos 100 anos, o brasileiro deixa um legado marcado pela inovação e pela globalização do futebol, mas também pelas suspeitas de envolvimento em esquemas de corrupção e favorecimentos.

O início da ligação de João Havelange ao desporto remonta aos longínquos anos 30. Em 1936, o brasileiro foi atleta de natação nos Jogos Olímpicos de Berlim. O filho de belgas, radicados no Rio de Janeiro, não ganhou nenhuma medalha, mas uma outra missão foi cumprida: Havelange garantiu que não contribuiu para a propaganda nazi, nesses Jogos de Berlim, ao contrário das comitivas de outros países, que desfilaram sob as ordens de Hitler. “Posso assegurar que nenhum atleta brasileiro fez a saudação nazi”.

Alguns relatos dizem que o Governo de Getúlio Vargas, então a liderar o Brasil e com alguns simpatizantes da causa nazi, não terá gostado da postura firme da qual se orgulhava Havelange. Histórias à parte, o ex-desportista acabou por experimentar outras modalidades como o pólo aquático, o voleibol, o basquetebol e até o futebol.

Depois de ocupar a liderança da Federação Paulista de Natação, o brasileiro, de origem belga, chegou ao comando da Confederação Brasileira dos Desportos - agora CFB -, durante alguns dos anos mais vitoriosos do futebol “canarinho”. Com Havelange e com nomes como Pelé, Garrincha, Tostão ou Zito, o Brasil tornou-se tricampeão mundial de futebol, com a conquista dos Mundiais de 1958, na Suécia, de 1962, no Chile, e de 1970, no México.

Chegado à presidência da FIFA, em 1974, Havelange é, ainda hoje, detentor do segundo mandato mais longo na presidência do organismo que rege o futebol mundial. Enquanto presidente da FIFA, idealizou um “Mundial global”, com o dobro das equipas (32 em vez de 16). Criou ainda os Mundiais Sub-17 e Sub-20, bem como a Taça das Confederações, competição que tem servido de antecâmara dos Mundiais e que junta as melhores nações de cada continente.

Foi membro do Comité Olímpico Internacional (COI), mas saiu, no final de 2011, pela porta pequena. Nos últimos anos da sua vida, Havelange viu a sua imagem enublada por algumas investigações a esquemas de corrupção e favorecimentos. Já em 2013, renunciou também ao cargo de presidente honorário da FIFA, novamente devido a suspeitas de subornos e corrupção.

O homem do futebol global

Ter levado o futebol aos quatro cantos do mundo é mesmo um dos principais elogios que são feitos a João Havelange. A CFB destacou a “importância eterna” de um homem que se “empenhou em transformar o futebol num espectáculo”. O órgão brasileiro destaca ainda que “a organização dos Mundiais pode ser dividida em antes e depois de Havelange”.

Para além do futebol, o antigo desportista e dirigente é elogiado por ter sido uma peça essencial na missão de levar os Jogos Olímpicos até ao Rio de Janeiro.

Joseph Blatter, o sucessor de João Havelange na presidência da FIFA, que chegou a ser secretário-geral do brasileiro, destaca a “linguagem universal” que Havelange trouxe para o futebol. Também ele envolvido em escândalos de corrupção, Blatter assume que “o futebol tem para com ele [Havelange] uma dívida de gratidão”.

Para Gianni Infantino, actual presidente da FIFA, a globalização do futebol também é o principal elogio a fazer ao percurso de João Havelange como um dos homens mais importantes da história do desporto. "Durante os 24 anos em que foi presidente da FIFA, transformou o futebol num desporto verdadeiramente global, alargando-o a novos territórios e a todas as partes do mundo", escreveu Infantino.

Texto editado por Nuno Sousa