Simone Biles, a menina do Rio

Quarta medalha de ouro para a ginasta norte-americana no Rio de Janeiro.

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Biles voltou a brilhar no solo Toshifumi KITAMURA
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Já não há 10 perfeitos na ginástica artística. Se Nadia Comaneci tivesse competido em 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, já não teria aquela nota de 10.0 que, em Montreal 1976, se pensou que era uma avaria do marcador (que mostrava 1.00). Desde 2006, quando o sistema de pontuação foi revisto, deixou de haver uma nota perfeita e, na verdade, as ginastas, em cada um dos seus exercícios, recebem notas bem superiores a 10, contando, à partida, com a dificuldade da rotina que vão executar e a perfeição com que a executam. E cada vez que Simone Biles entra em acção, o nível de dificuldade do que ela faz está tão acima do que as outras apresentam que são as suas adversárias a dizer que não jogam no mesmo campeonato. Simone até podia falhar. Uma queda, uma aterragem deficiente. Mas isso nunca (ou raramente) acontece.

Simone Biles já era uma “estrela”, mas saiu dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro como uma “estrela” ainda maior. Competiu em cinco finais, ganhou quatro medalhas de ouro (e uma de bronze) e foi coroada como uma das rainhas dos Jogos, igualando os quatro títulos numa só edição da soviética Larissa Latynina (1956), da checoslovaca Vera Caslavska (1968) e da romena Ecaterina Szabo (1984).

Nesta terça-feira, fechou a sua colheita do ouro com o domínio absoluto da final do solo, acompanhada com um mix musical que incluía samba. Se Simone já era a mais saudada, mesmo não sendo da casa, passou a sê-lo ainda mais. E cerca de minuto e meio depois, toda a gente, incluindo as quatro ginastas que já haviam competido e as três que ainda iriam competir, sabiam que aquele ouro também já tinha dono.

O exercício de solo é aquele em que as ginastas podem apresentar toda uma série de movimentos que os outros aparelhos, pela sua natureza, não permitem. Não é só o físico, nem a capacidade atlética, mas também a graça e a fluidez, e Simone teve tudo isso em doses altíssimas. A sua rotina era a mais difícil (6.900) e foi ela a mais pontuada (9.066), para uma pontuação combinada de 15.966, com o movimento que tem o seu nome, o Biles (duplo twist encarpado). 

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Biles durante o seu exercício no solo REUTERS/Mike Blake

Deixou a concorrência de rastos. Alexandra Raisman, a campeã olímpica de 2012 no solo, ficou com a prata ao ter uma pontuação combinada de 15.500. Para a outra norte-americana da final, não era de todo uma derrota. “Nem sequer estamos a competir contra ela, porque o valor inicial dela era tão alto que só estávamos a competir pela prata”, admitiu a antiga campeã olímpica. Ainda mais longe ficou a britânica Amy Tinkler, que levou o bronze com um total de “apenas” (pelos padrões de Biles) 14.933.

Com o ouro na prova por equipas, no all-around, no salto de cavalo e no solo (e um sinal de humanidade com o bronze na trave olímpica), Simone fez algo que raras vezes aconteceu na ginástica olímpica, um domínio quase avassalador dos aparelhos (só não competiu nas paralelas assimétricas). Mas este já era um domínio anunciado para a ginasta de 19 anos, que começou a ganhar títulos mundiais em 2013 (tem um total de dez em três edições), sendo que em Glasgow 2015 alcançou exactamente o mesmo número de posições – nesses Mundiais ficou com o ouro na trave olímpica e com o bronze no salto de cavalo.

Depois de ouvir mais uma vez o hino norte-americano, a pequena ginasta de 1,42m de altura – só a chinesa Yan Wang, com 1,40m, era mais baixa entre as oito finalistas – circulou pelo pequeno labirinto destinado à imprensa internacional, mas parando alguns momentos em frente a uma televisão para celebrar a medalha de prata de um compatriota na prova masculina, lado a lado com Alexandra Raisman. Disse olá para o Texas, não o seu estado natal, mas onde reside, parou em todas as câmaras e gravadores que lhe apareceram pela frente, de medalha (mais uma) ao peito, com sorriso sempre aberto.

Todo um ritual a que já estava habituada nestes últimos dias e que só teve de cumprir mais uma vez. “Foi uma longa viagem, mas adorei todos os momentos. Foi uma competição longa, tive de competir todos os dias e tornou-se muito cansativo. Só queria que acabasse bem. Foi uma loucura o que eu consegui nos meus primeiros Jogos Olímpicos. Mas estou muito orgulhosa de mim própria”, disse a ginasta que é considerada por todos a melhor do mundo e, por muitos, a melhor de sempre, melhor até que Nadia Comaneci, que também foi treinada por Marta Karoly, a húngara que se retira do comando da ginástica do Team USA nestes Jogos.

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Um sorriso e a quarta medalha de ouro REUTERS/Mike Blake

“Agora só precisamos de descansar e divertirmo-nos, sermos normais quando regressarmos a casa. Tenho a certeza que vou andar por alguns espectáculos onde entregam prémios de música e irei passar por mais algumas passadeiras vermelhas”, diz a jovem de 19 anos, cujo início de vida foi particularmente complicado – mãe toxicodependente e adoptada pelo avô materno, depois de passar por lares de adopção. “Às vezes penso o que teria sido a minha vida se nada disto tivesse acontecido”, dizia há umas semanas em entrevista à revista “Time”, referindo-se à mãe que a negligenciou. “Mas não me cabe a mim pensar nisso. Não são perguntas para mim.”

No que Simone pensa agora é nos dias seguintes à glória dourada do Rio, sem restrições, em que terá uma amostra do que lhe foi negado nos últimos quatro anos. Enquanto estiver entre os cariocas, irá ver o Cristo Redentor e experimentar a praia. Quando voltar aos EUA, já sabe por onde vai começar. “Assim que chegar a casa, vou fazer uma festa. E vamos ter pizza.”

A história de vida de Simone Biles