O disfuncional Exército afegão continua a ceder terreno aos taliban

Cada taliban tem por diante cinco soldados afegãos e aviões norte-americanos. Mesmo assim, os insurgentes islamistas continuam a conquistar territórios no Norte e no Sul do país.

As práticas enquistadas de corrupção fazem pender a balança para o lado dos taliban.
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As práticas enquistadas de corrupção fazem pender a balança para o lado dos taliban. NOOR MOHAMMAD/AFP

O alerta foi dado há quase um ano, em Kunduz, quando uma força de cerca de mil combatentes taliban fez com que um contingente de sete mil soldados afegãos batesse em retirada e entregasse a quinta maior cidade do país aos rebeldes islamistas, que a dominaram por alguns dias. Tornava-se então evidente que o Exército afegão, como o iraquiano, não era capaz de lidar com uma força rebelde mais-ou-menos organizada. Muitos atribuíram-no então à corrupção local e nacional, à fraca coordenação entre polícia e militares e ao baixo moral.

Pouco mudou no último ano. Os taliban controlam hoje mais território do que em qualquer momento depois da invasão norte-americana de 2001. E a tendência é que as conquistas continuem: este fim-de-semana, por exemplo, depois de vários dias de combates na região Norte de Baghlan, onde os islamistas nunca gozaram de muito apoio, os taliban conquistaram o quartel-general do distrito de Dahana-e-Ghori, hastearam lá a sua bandeira branca e abriram duas novas frentes de combate em localidades vizinhas.

“Fizemos uma retirada estratégica”, admitia esta segunda-feira o chefe da polícia local, confirmando à Reuters que Dahana-e-Ghori estava nas mãos dos insurgentes. O distrito não tem a mesma importância de Kunduz, mas demonstra o fulgor dos islamistas, que, começando a alastrar-se pelo Norte do país, ameaçam uma região que no passado escapou em larga medida à violência. O comando central diz ter perdido cinco polícias na batalha por Dahana-e-Ghori. Já os taliban asseguravam terem abatido “muitos” inimigos e capturado 33 militares.

Mas as grandes atenções andam por estes dias voltadas para os antigos bastiões taliban no Sul. Os rebeldes conseguiram avançar nos últimos meses sobre os subúrbios de Helmand, uma das regiões onde as forças da NATO travaram os seus combates mais violentos e se situam as grandes plantações de ópio afegãs, hoje uma fonte crucial de financiamento para os taliban. Cabul assegura que a cidade capital de Lashkar Gah não está em risco e destacou centenas de reforços, mas os combates são os mais violentos de que há memória.

Cerca de 30 mil pessoas fugiram das suas casas nos subúrbios de Helmand nas últimas semanas. A maioria são agricultores, que deixam para trás as suas plantações de lentilhas, milho e algodão e sobrevivem hoje com a ajuda da população local e das agências humanitárias no terreno. A violência chegou a um tal ponto que só entre Janeiro e Junho morreram 388 crianças no Afeganistão — um terço de todas as mortes de civis —, quase mais 20% do que na primeira metade de 2015. “Alarmante e vergonhoso”, nas palavras das Nações Unidas.

O Exército afegão, por sua vez, demonstra as mesmas disfuncionalidades em Helmand que há quase um ano provocaram a queda de Kunduz. O New York Times explica que Lashkar Gah só não está hoje cercada ou nas mãos de rebeldes porque contingentes das forças especiais e generais afegãos de topo são regularmente chamados para ajudar com batalhas em zonas estratégicas. Segundo os militares, porém, os taliban estão melhor treinados e equipados que no passado.

É verdade — dizem-no responsáveis americanos — que os insurgentes usam hoje estratégias mais sofisticadas: conseguiram material de visão nocturna, que lhes permite actuar de surpresa; armadilham  vias de abastecimento e lançam ofensivas de vários dias, quando antes se limitavam a atacar checkpoints ou outros alvos mais fáceis; e são hoje mais ágeis no que diz respeito às operações a partir do Paquistão, onde muitas vezes ficam fora do alcance dos meios aéreos da NATO.

Mesmo assim, sublinham muitos observadores, em Helmand há cinco soldados afegãos para cada taliban e Cabul tem ainda do seu lado a aviação norte-americana e afegã, assim como centenas de conselheiros militares da NATO. O Governo admite problemas organizacionais, sobretudo por ter sido incapaz de recrutar soldados que cobrissem as baixas do último ano — que já de si foi o mais violento depois da intervenção da NATO —, mas o grosso das críticas atingem as práticas enquistadas de corrupção a nível local.

“O mais importante para as forças em Helmand são os seus próprios interesses e negócios”, explica ao New York Times Muhammad Jan Rasulyar, antigo vice-governador da província. Não se tratam apenas de nomeações duvidosas para cargos de grande responsabilidade militar, mas também de costumes diários de má-gestão que faz pender a balança para o lado taliban: é habitual, por exemplo, inflacionar-se o número de combatentes — os chamados “soldados fantasma” — recolher os seus salários e distribuí-los pelos responsáveis locais.

“Combater é uma espécie de negócio: se forem usadas 500 munições num combate, pedem-se mais 10 mil para depois vendê-las”, explicava esta semana Kareem Atal, chefe do Conselho de Província de Helmand, numa entrevista ao Washington Post. Não importa, portanto, a qualidade do apoio militar vindo dos céus quando existe “uma luta desequilibrada entre insurgentes que estão preparados para atacar e morrer e soldados que preferem fugir e sobreviver”, argumenta o diário norte-americano.

Nas contas surpreendentes do governador de Helmand, porém, a batalha contra os taliban parece correr de vento em popa: nas últimas duas semanas, assegura o seu gabinete, morreram 210 combatentes islamistas, enquanto só 15 homens morreram do lado afegão.

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