Santa Casa de Lisboa converte palácio em ponto de encontro entre gerações

Na Quinta Alegre, na Charneca do Lumiar, vão nascer um lar de idosos e uma unidade residencial para jovens. As obras já começaram, com a reabilitação do Palácio do Marquês do Alegrete, dos seus azulejos e pinturas murais.

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O Palácio do Marquês do Alegrete vai passar a estar aberto a quem o quiser visitar Rui Gaudêncio
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A Quinta Alegre está classificada como Imóvel de Interesse Público Rui Gaudêncio

Construído no século XVIII por iniciativa do 2.º Conde de Vilar Maior e 1.º Marquês de Alegrete, o até aqui degradado e inacessível Palácio do Marquês do Alegrete, na freguesia lisboeta de Santa Clara, está a ser reabilitado e em breve passará a estar aberto à comunidade. A iniciativa é da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que está a desenvolver no local um projecto que inclui a criação de uma residência para idosos e de uma unidade residencial para jovens.

“Este mega projecto tem por base a intergeracionalidade”, sublinha a directora do Departamento de Gestão Imobiliária e Património da SCML, durante uma visita do PÚBLICO ao local. Helena Lucas explica que estão em causa três obras diferentes, que serão executadas de forma faseada. Quando estiverem terminadas, jovens e idosos passarão a partilhar o mesmo espaço, parte do qual estará também acessível a todos os que o queiram visitar.

A primeira dessas obras está já em curso e passa, como resume a dirigente da instituição, pela “reabilitação exterior e interior, na íntegra” do Palácio do Marquês do Alegrete. Está em causa um investimento de “cerca de um milhão de euros”, que contempla também a recuperação do “jardim romântico” que se desenvolve nas traseiras do palácio e do qual se avista o Aeroporto Humberto Delgado.

Do Campo das Amoreiras, artéria para a qual o imóvel tem frente, vê-se pouco mais do que uma tela que anuncia o que ali vai ser feito. É preciso atravessar um dos portões de ferro existentes para perceber a dimensão da chamada Quinta Alegre, na qual se insere o palácio e que está classificada como Imóvel de Interesse Público, e para constatar que lá dentro os trabalhos prosseguem em ritmo acelerado.

Uma vez no interior do palácio de dois pisos, saltam à vista os inúmeros painéis de azulejos e, principalmente, as paredes e tectos decorados com pinturas murais. Os motivos das pinturas, que vão ser restauradas por técnicos da área, são diferentes nas várias divisões, às quais se acede através de longos corredores centrais.

Nas informações disponibilizadas online pela Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), no âmbito do Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (SIPA), detalha-se que ambos os pisos deste “palácio tardo-barroco de planta longitudinal rectangular” se encontram decorados por “silhares de azulejos pombalinos, com a técnica do esponjado, e neoclássicos, com padrões vegetalistas”.

Também referenciadas são as “pinturas murais neoclássicas nas paredes e tectos, algumas em tromp l’oeil, de estuque sobre sanca curva, com elementos geométricos, fitomórficos, pormenores arquitectónicos, mitológicos, aves e frutos”. De acordo com a DGPC, estes elementos “apresentam afinidades com as pinturas murais da Quinta da Francelha [em Loures] e do Palácio dos Marqueses de Angeja [o Museu Nacional do Traje, no Lumiar] e ainda com a Casa Nobre da Rua de Avis [em Évora]”.

Do jardim, a DGPC destaca os “bancos conversadeiras forrados a azulejos, formando miradouro sobre a propriedade” e o “lago artificial”. Quem visitar o espaço por estes dias poderá ver a estrutura do lago e um poço que se ergue no fundo do terreno, bem como os bancos em pedra, aos quais a breve trecho serão devolvidos os azulejos que antes os revestiam.

Tanto o palácio como o jardim, que foi já limpo de todo o mato que o cobria, vão passar a estar abertos ao público, assumindo-se como algo que a SCML designa como “unidade social”. A ideia, como explica Helena Lucas, é que no interior do edifício surja um restaurante e uma cafetaria/casa de chá, bem como um conjunto de salas que permitam a realização de actividades diversas e de eventos culturais.

Já aprovada pela Câmara de Lisboa foi a segunda das obras a desenvolver na Quinta Alegre, cujo arranque se estima que possa ocorrer no início de 2017. Trata-se da construção da chamada “unidade assistida”, que terá 75 camas e se destina a acolher funcionários aposentados da SCML. Para tal vai ser construído um novo edifício, estando igualmente previsto o aproveitamento de parte dos “pavilhões agrícolas” anexos ao palácio, que actualmente se encontram praticamente em ruínas.

Ainda em apreciação no município está a terceira e última intervenção: a criação (também num novo edifício) de uma “unidade residencial”, que vai ter uma ligação ao lar de idosos e que foi pensada para receber jovens ou adultos em início de vida. Questionada sobre quais serão os critérios para a atribuição dos fogos, Helena Lucas diz que essa é ainda uma matéria em aberto. “O projecto vai sendo trabalhado, vai evoluindo”, justifica.   

Certo é que a intenção por detrás deste projecto é que a Quinta Alegra passe a constituir um “ponto de encontro entre gerações”. Isso mesmo lê-se no Programa de Organização e Ocupação de Espaços elaborado pela SCML, no qual se detalha que aquilo que se procura alcançar é “uma relação intergeracional entre os idosos e jovens de forma a garantir uma interacção constante e um desenvolvimento intelectual e social, evitando o isolamento e exclusão recorrente na 3.ª idade”.

No site do SIPA conta-se que o Palácio do Marquês do Alegrete e o seu jardim começaram a ser construídos na 1.ª metade do século XVIII, por iniciativa de Manuel Teles da Silva, tendo a colocação dos painéis de azulejos no interior e no exterior do edifício avançado apenas numa segunda fase. Mais tarde, quando o imóvel era já propriedade de José Bento de Araújo foram feitas obras de remodelação do espaço, que trouxeram consigo as pinturas murais nas paredes e tectos.

A Quinta Alegre foi comprada pela SCML em 1983, tendo esta entidade chegado a elaborar um projecto com vista à instalação nesta propriedade na Charneca do Lumiar de um Museu dos Jogos. Depois disso, o espaço albergou um centro de formação profissional da instituição. Nos últimos anos tem estado fechado e sem utilização, à espera de dias melhores que parecem finalmente ter chegado.