Opinião

O impacto das Economias Emergentes

Nos próximos 20 anos, a classe média mundial (que é o verdadeiro mercado consumidor no mundo) aumentará em cerca de mil milhões de indivíduos e esse crescimento será essencialmente concentrado nas nações emergentes.

A proeminência global do Ocidente é historicamente recente. Durante milénios outras civilizações foram mais avançadas do que a nossa. Civilizações como a chinesa, a indiana e a egípcia foram mais sofisticadas em domínios como a ciência, a tecnologia, a cultura e a administração pública. A Europa viria a conquistar uma gradual ascendência global com a convergência entre a expansão marítima intercontinental a partir do séc. XVI, o vasto domínio colonial e a revolução industrial. Os últimos dois séculos, desde um pouco após 1800, foram caracterizados por uma economia mundial liderada pelos países ocidentais.

Contudo, factores como a globalização e a integração comercial do mundo criaram novas condições de crescimento económico nas economias mais atrasadas. Como num movimento pendular da economia global, as economias em desenvolvimento, que pareciam perpetuamente condenadas à pobreza, crescem actualmente, em média, a um ritmo muito superior ao das economias “ricas”. Devido a esta tendência, que persistirá, essas economias representam já mais de metade da economia mundial. As nações que nos habituámos a considerar como ricas e mais avançadas encontram-se (em geral) em comparativa perda de peso no conjunto da economia e da tecnologia contemporâneas. A era do seu predomínio está a diluir-se, em especial no caso da Europa. O séc. XXI será o da ascensão das Economias Emergentes.

Em 2016 o crescimento da economia da Zona Euro deverá rondar apenas 1,5% e o dos Estados Unidos poderá ser de cerca de 2,4%, enquanto a economia conjunta das economias em desenvolvimento, que representam 85% da população mundial, deverá crescer 4,1%.

Essas economias não são apenas as mais conhecidas e mediatizadas pela sua dimensão (os “BRIC” - China, Índia, Brasil e Rússia) mas também um elevado número de outras, de diversas dimensões e características, nos vários continentes. Países como a Turquia, a Arábia Saudita, a Argentina, o México, a Indonésia ou a África do Sul são poderes em ascensão. Mas muitas nações de reduzida dimensão são igualmente emergentes.

Dentro de apenas duas décadas a China ter-se-á tornado na maior economia do mundo, a economia asiática será maior do que a dos países ricos que actualmente compõem o G7 e as quatro maiores economias do planeta incluirão três países asiáticos e os Estados Unidos, mas nenhum país europeu. Nas próximas quatro décadas 60% do crescimento da economia mundial terá origem na China, na Índia, na Rússia, no Brasil e no México.

Contrariamente a ideias erradas que persistem, as economias emergentes ultrapassaram a mera condição de fornecedores de matérias-primas, representam agora uma elevada e crescente percentagem da produção industrial do mundo (como se vê constatando a origem dos produtos que todos compramos) e entram já, fortemente, em mercados de tecnologia muito avançada e de sofisticados serviços.

Enquanto muitos ocidentais, ultrapassados pela realidade, ainda imaginam que a China compete à custa de mão-de-obra barata, produtos simples e baixa sofisticação, esse país lidera já a maioria das tecnologias de energias renováveis do futuro, é já o maior exportador mundial de tecnologias da informação, tem uma sonda que neste momento orbita a Lua e constrói uma estação espacial. Muitos ocidentais supõem que a Índia é simplesmente miséria mas este país, que é a maior democracia do mundo, controla mais de dois terços do mercado internacional de avançados serviços de software.

Nos próximos 20 anos a classe média mundial (que é o verdadeiro mercado consumidor no mundo) aumentará em cerca de mil milhões de indivíduos e esse crescimento será essencialmente concentrado nas nações emergentes.

Enquanto em Portugal a empresa líder do mercado de telemóveis necessitou de quase 20 anos para conseguir 7 milhões de subscritores, na Índia o número de novos subscritores de telemóveis chegou a ultrapassar os 14 milhões num único mês.

Formam-se novos mercados. O grande potencial de consumo já não se limita às economias “ricas” e inclui classes médias em forte crescimento nas economias em desenvolvimento. A competição em bens e em serviços, desde os de menor valor acrescentado até aos mais avançados e sofisticados, também tem origem nesses países. As tecnologias mais avançadas florescem em economias em desenvolvimento.

As nações em desenvolvimento já não podem ser vistas simplesmente como países miseráveis, pobres e atrasados. Nos próximos anos essas nações avolumar-se-ão diante de nós como impressionantes competidores, como poderosos consumidores e como detentores das mais avançadas tecnologias. Por outras palavras, terão, perante nós, um grande poder. Novas marcas originárias desses países tornar-se-ão globais. As empresas portuguesas terão que enfrentar novos competidores provenientes desses países, mas neles terá também novos mercados potenciais.

Enquanto a Europa se desvanece consigo própria o mundo transforma-se e o centro de gravidade do poder global afasta-se. Muito na nova estratégia dos europeus deve recentrar-se considerando a nova realidade económica das nações emergentes.