António Costa continua a tratar do campo e guarda os troféus dos tempos áureos na garagem do Atlético

E todos a ponte levou

Na freguesia ribeirinha de Alcântara ficaram assentes os pilares do viaduto da ponte do lado de Lisboa. As obras desalojaram ruas inteiras de pessoas. “Viam-se carroças de cavalos com as camas, moveizitios em cima.” Com as saídas, o Atlético Clube nunca mais foi o mesmo.

A galeria oficial com os troféus do Atlético Clube de Portugal fica ao pé da secretaria, mas na garagem do clube, onde António Costa guarda o cortador de relva mecânico com que apara o campo duas vezes por semana, está o seu “museu pessoal”. Nesta galeria não oficial de troféus, o critério de escolha e a ordenação de imagens são só seus, uma selecção pessoal do que o clube representou na sua vida: ali está uma moldura do seu pai, Eduardo Costa, quando foi treinador da equipa de futebol; mais à frente, uma fotografia do irmão Manuel, que era adepto e atleta. Na colecção está também o próprio António Costa e a equipa de futebol de crianças que treinou, temporada 1987-99. Não está por acaso a mãe, que era quem lavava os equipamentos. Para António Costa, 75 anos, o clube é como se fosse a sua casa, “não tenho é cá cama”, diz.

No “museu” de António Costa constam também glórias oficiais do clube. A sintonia de rádio que tem a tocar na garagem passa música adaptada ao ambiente — agora dá Nat King Cole. Há uma parede de imagens que parecem saídas das décadas de 1940-50. “Estes senhores são todos do passado, antes da ponte”, quando o Atlético chegou a ser um clube da primeira divisão que dava nas vistas.

A ponte sobre o Tejo fez da freguesia lisboeta de Alcântara “um ponto para todo o mundo”, diz António Costa. Mas foi também a ponte que contribuiu para a decadência do clube, o início do fim das suas glórias. Hoje já não é sequer da segunda divisão, desceu para o Campeonato Nacional de Séniores (terceira divisão).

“A ponte foi má para o Atlético, cada mês do ano a ponte havia de dar uma verba”, sentencia. Porque foi a ponte que lhes levou a gente. Eram 12 mil sócios, passaram a dois mil depois da sua construção. “Chefe, quantos sócios temos agora?”, pergunta o ex-vice-presidente do clube, Agostinho Gil, 77 anos, ao actual cobrador de quotas do clube desportivo. Os mesmos, “dois mil”.

O Atlético nunca mais recuperou. “Alcântara agora tem condomínios privados. É chique. Somos um bairro apetecível.” Porém, as pessoas que se mudam para Alcântara não são do tipo de quem se torna sócio do Atlético, de quem tem “o coração pintado de amarelo, vermelho e azul”.

Em muitos edifícios desta freguesia ribeirinha de Lisboa, onde à época da construção da ponte havia fábricas, hoje há bancos, hamburguerias, restaurantes, um consulado. Os alcantarenses da altura eram sobretudo operários. Passavam as suas jornadas a fabricar chocolates, sapatos, alpercatas, sabão, parafusos, alfinetes. “Aqui fazia-se tudo.”

“O Atlético era o único sítio onde as pessoas se reuniam. Era o único motivo de orgulho.” Aos domingos, assistia-se aos jogos. E quando eram longe, reuniam-se para ouvir os relatos pela rádio, lembra Agostinho Gil, que dirigiu o departamento de futebol.

“As pessoas andavam tensas”

Tinha havido vários cenários para a localização da ponte. O primeiro projecto unia a zona oriental de Lisboa ao Montijo — Alcântara é na zona ocidental. Chegou a ser desenhada entre o Chiado e Almada. Com o passar dos anos, outras ideias foram surgindo, como a ligação em Lisboa a terminar em Alcântara. Agostinho Gil lembra-se de ter ouvido falar de outras hipóteses. A ponte podia assentar em Belém, em Algés. “Saía uma notícia aqui ou ali, parece que estavam indecisos.”

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António Costa tem 75 anos e continua a aparar a relva do campo. Guarda os troféus dos tempos áureos do Atlético Clube de Portugal e é o actual cobrador de quotas do clube desportivo dr

Quando se soube que seria mesmo em Alcântara, sentia-se que “as pessoas andavam tensas”. E quando se tornou oficial que muitas pessoas teriam de sair de suas casas porque ali iriam assentar os pilares — algumas souberam-no por carta, outras de viva voz — “houve situações desesperadas. Umas pessoas choravam. Quando se muda é sempre um problema”, comenta Agostinho Gil. “Protestava-se baixinho. As pessoas só se queixavam a quem tinham confiança. Eram os tempos da PIDE.”

“Foram dramas, pessoas que se sentiram desgraçadas.” Outras também ficaram felizes — “dizerem-lhes que lhes davam uma casa era uma alegria”, refere o antigo dirigente. Por norma, eram casas longe dali, na outra banda do rio, que agora, com a ponte, se tornaria mais perto.

“Esta casa vai ser um pilar”, disseram à sua família, lembra António Costa, que era encarregado na fábrica de chocolates da Regina. “Mas a minha mulher não queria sair. Era Alcântara ou a morte.” Com a indemnização, mudaram de casa, mudaram de rua, mas ficaram no bairro.

Os Anais do Município de Lisboa, citados no livro de Luís F. Rodrigues A Ponte Inevitável — A História da Ponte 25 de Abril (Guerra & Paz), referem a existência de 25 mil barracas no concelho de Lisboa. O realojamento dos moradores do Vale de Alcântara foi um dos grandes problemas. “Se é verdade que muitas pessoas beneficiaram de realojamento, outras foram simplesmente desalojadas, não tendo outra hipótese senão construir nova barraca noutro lugar”, lê-se no livro.

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Um programa oficial acompanhou o dia em que margens direita e esquerda do Tejo se uniram dr

Agostinho Gil está convencido de que na escolha de Alcântara também pesaram razões económicas. “Era uma zona pobre. Era mais fácil desalojar pessoas aqui; Algés e Belém eram zonas mais chiques. Nós éramos uns coitadinhos.” Alcântara era um bairro por onde se viam crianças descalças na rua.

“Foi uma sangria completa e absoluta.” Ruas separadas, iam-se embora os de um lado porque ali ia assentar um pilar, ficavam os do outro. Muitos amigos de Agostinho Gil foram-se embora. O ex-vice-presidente do Atlético lembra-se dos dias do êxodo. “Viam-se carroças de cavalos com as camas, uns moveizitios em cima.” “Foram meses de saídas”, o “Chico Correeiro”, que alugava carroças, “que era o que as pessoas podiam pagar”, fez bom negócio por esses dias. “Iam de barco com as carroças.”

Algumas das novas casas eram na outra banda do rio, em Almada, na Cova da Piedade, sítios que com a ponte até ficavam perto, mas não tão perto que permitisse às pessoas gastar o dinheiro da travessia só para vir assistir aos jogos do Atlético no Estádio da Tapadinha.

Hoje em dia, quando o Atlético vai jogar a algumas localidades da margem sul, às vezes ainda se sente uma simpatia especial pelo clube, ecos desses antigos sócios transplantados, constata o antigo dirigente.

“Uma vítima do progresso”

No dia da inauguração da ponte, Alcântara estava completamente diferente. Agostinho Gil atravessou a pé a nova Ponte Salazar: “Olhei cá para baixo e havia um vazio, os terrenos circundantes ao estádio estavam vazios. Fiquei com saudades da Alcântara de outros tempos, do conjunto de barracas bem alinhadas.”

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Agostinho Gil tem 77 anos e já foi vice-presidente do clube. No dia da inauguração da ponte, a 6 de Agosto de 1966, atravessou-a a pé para constatar o que via cá em baixo: uma Alcântara deserta de habitações, que cederam lugar aos pilares dr

“O Atlético é uma vítima do progresso. A ponte tirou, mas não compensou. Retiraram-nos os sócios, o nosso melhor.” E o Atlético era grande.

No site do clube há uma categoria a que se chama “mitos e lendas”. Tempos em que o Atlético jogava com os grandes. Veja-se o texto sobre o final da Taça de Portugal, 1948/49: “O Benfica, nesse dia, era o adversário. Segundo as crónicas da altura, o jogo foi equilibrado. A resposta do Atlético veio dos pés de Ben David, sem sombra de dúvida o melhor ponta-de-lança que vestiu a nossa camisola (119 jogos e 91 golos na 1.ª Divisão pelo Atlético).”

Uma foto de Ben David também consta da galeria pessoal da garagem de António Costa, cabelo arrumado para trás, como se tivesse brilhantina. É o grande herói do clube, um herói pré-ponte. Este herói que reinou na década de 1950 era operário — vinha da equipa de futebol da CUF, no Barreiro, onde era mecânico de automóveis. Continua a constar como “o melhor avançado-centro que o Atlético conheceu”.

As memórias desses tempos estão resumidas no site e tem-nas Agostinho Gil, o único dirigente do clube que ainda é do tempo em que o Atlético estava na primeira divisão. Ultimamente, “os rapazes novos foram buscar-me ao arquivo”, brinca: foi mandatário da lista que está na direcção. Aceitou, mas nos últimos tempos deixou de ir aos jogos de futebol profissional. Agora não sabe o nome dos jogadores do Atlético, nem o do treinador. Faz questão. “Futebol nem pó, nem conheço, nem quero conhecer.” É que se a construção da ponte foi a grande hecatombe para o Atlético, a segunda é mais recente e associa-a à chegada dos chineses. Em 2013, o Atlético fundou uma sociedade anónima desportiva, detida em 70% por um empresário chinês. “A ponte correu com os associados, os chineses pegaram no futebol e fizeram disparates. Nem venho assistir. Fico triste.”

Os chineses mandaram embora os jogadores que deram “a última grande glória do Atlético”, em 2007, diz. Recorte do jornal Record na parede da garagem: “Dragão humilhado.” Recordação do dia em que o Atlético, já longe dos seus tempos áureos, eliminou o Porto da Taça de Portugal.

Nesse dia, de Alcântara para o Porto seguiram cinco camionetas de adeptos e famílias, 2500 pessoas, e no Estádio do Dragão estaria um total de 32.000. O Atlético perdeu e não ficou com o título, mas isso pouco interessa, foi a última grande glória. “Estes é que deram alegria à gente”, diz Agostinho, apontando para a equipa pendurada na parede da garagem. Todos os anos, desde então, há almoço de festejo a 7 de Janeiro, dia da humilhação do Dragão pelo Atlético, no Porto.

Chega agora à garagem outro comentador da história do clube. É Álvaro Roxo, 76 anos, “roupeiro do Atlético”, prefere esta designação à mais pomposa de “técnico de equipamento”.

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Álvaro Roxo, 76 anos, foi "roupeiro" do Atlético. A ele cabia manter os "trinta e tal jogadores limpinhos" dr

Durante 50 anos coube-lhe velar pelos calções, meias, camisolas, ligaduras dos jogadores, chuteiras. Significava que aos domingos, nos dias dos jogos, tinham de estar “completamente limpinhos. Trinta e tal jogadores, pôr em cada cacifo tudo impecável, todos os dias”. Muitas vezes chovia e o Atlético não tinha muitos equipamentos — “agora é que é tudo moderno”.

Se os jogadores ali surgem aprumados nas fotos oficiais é graças ao seu trabalho. “Foi o melhor roupeiro do país, a capacidade de trabalho”, elogia Agostinho. “Ele deu tudo a este clube e vêm uns tipos... Ele está revoltado.”

Álvaro Roxo explica que foi para o hospital com broncopneumonia e quando voltou já não tinha lugar. “Quando eu cheguei, já tinham corrido comigo, não resisti à invasão. Fui corrido pelos chineses.”

Agostinho Gil afasta-nos do Estádio da Tapadinha para nos mostrar os espaços das outras modalidades do clube, para mostrar que há vida além do futebol, nas outras os chineses não têm qualquer intervenção, explica. Afinal, o Atlético foi campeão nacional de hóquei indoor 2015/2016, e em 2006/07 recebeu a Taça Nacional de sub-20 em basquetebol.

“O Atlético é imortal, nunca acaba. Quando o Atlético se acabar, levo isto tudo para minha casa”, diz António Costa.