Passos explora ideia de “esgotamento” da solução de Governo

Perante uma plateia quase sem reacção, o líder do PSD baseou-se na estagnação da economia para desafiar a esquerda a mostrar que, apesar de não haver dinheiro, consegue ter propostas para o futuro do país para além de reverter políticas.

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Passos discursou perante uma plateia amorfa Filipe Farinha

Foi em tom de desafio que Pedro Passos Coelho atacou: “Esta solução de Governo está esgotada.” Depois da longa lista de reversões que marcou o primeiro ano da equipa de António Costa com o apoio das “esquerdas radicais” do Bloco, PCP e PEV, o que tem agora o Governo para oferecer se a economia não descola e não tem margem financeira para continuar a sustentar as exigências dos parceiros parlamentares?

“Numa altura em que praticamente esgotou o que era o seu compromisso com os partidos e o resultado é a estagnação, que coisas novas o Governo tem para oferecer ao país? Que noticias para 2017 e 2108? Alguma coisa populista que não custe dinheiro?”,  ironizou o líder do PSD durante o seu discurso na Festa do Pontal esta noite perante 2100 pessoas. É o próprio líder do PSD que tem a resposta: “Não tem nada para oferecer do ponto de vista económico a não ser a estagnação e eventualmente o conflito com os credores, com as instituições europeias e os investidores.” Mas “também está esgotada socialmente porque esta troika governativa só sabe fazer o que é fácil – e depois do que é fácil acabaram-se as boas ideias”.

Porque além das “boas ideias” quase nada resta já que os dados do INE vieram esta semana mostrar que a economia está agora a crescer “metade do que crescia há um ano”. “Eu não sou pessimista, os números infelizmente é que não são bons. Não é uma questão de opinião”, argumentara aos jornalistas à chegada ao jantar. E lembrou Espanha que, sem Governo desde Dezembro, cresce mais de 3%. A explicação para o que se passa está, por isso, “cá dentro”: tudo o que o Governo prometeu de estrutural “não está a acontecer, está a falhar”.

“Eu gostava de estar mais optimista para o país porque isso era um bom sinal para toda a gente. Mas acho que é muito negativo quando os governantes fazem de conta que não vêm a realidade. Isso normalmente é um mau sinal para futuro e eu gostaria que o nosso futuro pudesse ser melhor do que aquilo que os números que têm sido divulgados apontam”, vincou ainda aos jornalistas quando questionado sobre o seu sistemático discurso pessimista dos últimos meses.

Geringonça aguenta-se no OE2017, prevê líder do PSD

Prometendo “aguardar com muita curiosidade o que aí vem nos próximos meses”, Passos Coelho deixa no entanto antever que a sua expectativa é que a “geringonça” ainda se aguente mais um ano. Apesar de por vezes PS, BE e PCP discordarem para fazer “figura”, serão responsáveis o suficiente para “tratarem de aprovar o OE2017”. Mas para lá disso permanece a incógnita.

É por esse momento que o PSD deve aguardar – e foi também aqui que chegou o recado especialmente dirigido para dentro do PSD. “Se há um esgotamento desta solução de Governo, temos que permanecer fiéis ao que é o nosso compromisso com o país e a nossa alma social-democrata: reformista e inconformista.” A que acrescentaria mais tarde a “liderança” para prometer que “enquanto líder do PSD” nunca abdicará de “lutar por esta visão e este futuro” para o país, mesmo quando é preciso “ir ao fundo dos problemas e não ficar pelas palavras bonitas”.

Ou ter uma atitude de “fingimento, de fazer de conta, de facilidade, do empurra com a barriga e depois logo se vê”. Ou ainda ter uma “cultura de compadrio, em que quem exerce funções públicas não saber distinguir o exercício da função do que pode ser a esfera pessoal ou partidária” – uma bicada que lembrou, por exemplo, a polémica das viagens oferecidas pela Galp a governantes.

Com uma plateia amorfa, composta por muita gente de cabelo branco que veio à boleia de autocarros fretados pelas concelhias e distritais sociais-democratas de todo o país (e até da Madeira) Passos Coelho recordou o seu apelo, neste mesmo palco, em 2014, para a “última das grandes reformas que o país tem de fazer”: a reforma da Segurança Social. Mas que, acrescentou, o PS tem recusado sistematicamente – “antes das eleições era tarde, agora não querem” e recusou no Parlamento a constituição de uma comissão para discutir o assunto.

Antes da intervenção do presidente do partido subiram ao palco o líder da JSD algarvia, assim como o presidente da concelhia de Loulé e o da distrital do Algarve. De todos vieram críticas sobre a redução das portagens durante o Verão em apenas 15% quando a esquerda tinha feito promessas entre os 50% (PS) e o corte total (BE e PCP), ou sobre a falta de condições de saúde nos hospitais da região. De David Santos, o novo líder do PSD Algarve e anterior presidente da CCDR algarvia - que o Governo exonerou em Junho -, vieram as críticas mais fortes também ao processo de descentralização de António Costa, afirmando que, ao contrário do que tem sido anunciado, o Algarve tem perdido competências. Por exemplo, até as juntas médicas dos trabalhadores da região são agora realizadas em Lisboa.

Passos Coelho, que desta vez entrou na festa pela mesma porta dos convivas, esteve acompanhado quase só pelo seu núcleo duro – Luís Montenegro, Duarte Marques, Hugo Soares, Simão Ribeiro, Miguel Morgado, Maria Luís Albuquerque, Teresa Morais, Moreira da Silva, Marco António Costa. Não se viram outras figuras de destaque da região tirando Mendes Bota e os líderes distritais e concelhio que discursaram. E no final, apenas subiram ao palco os edis que se posicionam já para as autárquicas de 2017. Também não se ouviram protestos contra as portagens – um dos principais activistas é agora deputado pelo BE.

Vão longe os tempos em que figuras nacionais faziam da Festa do Pontal uma montra para afirmar fidelidade ao chefe – que mais não fosse, apenas para a fotografia. Figuras como João de Deus Pinheiro, Pedro Santana Lopes e Luís Marques Mendes passeavam por aqui exibindo o bronzeado em tempo de quase final de férias. Desta vez, a passerelle foi ocupada por figuras bem mais pálidas do universo político social-democrata, como Manuel Frexes e José Eduardo Martins.

com Idálio Revez