Entrevista

“Estava na moda fazer-se piqueniques à sombra dos pinheiros, com sardinha assada"

José Mendes Bota, 61 anos, organizou a mais importante festa política de Verão do PSD durante 14 edições. O Pontal juntará esta noite, a partir das 19h, no Calçadão da Quarteira, o povo social-democrata. Pedro Passos Coelho será o último a discursar.

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Mendes Bota organizou, durante 14 anos, a Festa do Pontal Virgílio Rodrigues
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Passos foi um dos líderes que ajudou a revitalizar esta rentrée social-democrata Vasco Cécio
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Em 1985, com Cavaco, a festa ainda não se realizava no Calçadão de Quarteira D.R.
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Em 2014, a moda das selfies chegou ao Pontal Filipe Farinha
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Portas esteve presente na edição de 2015 Vasco Cécio
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Por um ano, o Pontal fechou-se numa sala de conferências, no Aquashow de Quarteira Vasco Cécio
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Marcelo passou um cheque de cinco mil contos para que a festa se realizasse D.R.

Há dois anos que o ex-deputado e oito vezes líder do PSD/Algarve, José Mendes Bota, está fora da política activa. Afastou-se “voluntariamente”, diz, seguindo para Estrasburgo, para trabalhar com o comissário europeu Carlos Moedas. Mas não deixará de ir à Festa do Pontal, onde marca presença desde 1980. Nesta entrevista, recorda os anos dourados dessa “festa de confraternização”, que começou no consulado de Sá Carneiro, num pinhal de Faro, tornando-se na primeira das rentrées políticas do país.

Lembra-se de quem foi a ideia da Festa do Pontal?
Em meados de 1976, o presidente do PSD/Algarve demitiu-se, e quem ficou, na prática, a liderar o partido foi o vice-presidente Filipe Abreu, um militante histórico de Portimão, que mais tarde viria a ser deputado à Assembleia da República. Francisco Sá Carneiro chamou Filipe Abreu a Lisboa, à antiga sede na Av. Duque de Loulé, para uma reunião na qual participou também Conceição Monteiro, para debater a forma de dinamizar o partido na região algarvia. Foi nessa reunião que se decidiu organizar um evento popular, mais tarde celebrizado como Festa do Pontal e que contou desde logo com a presença do líder Sá Carneiro. Filipe Abreu discursou em representação do PSD/Algarve. O Diário de Lisboa da época referiu-a como “festa de confraternização”.

Como é que se escolheu a data?
Foi nessa mesma reunião, certamente em função da disponibilidade de agenda de Sá Carneiro.

E o sítio?
Terá sido uma escolha da comissão organizadora, encabeçada por Leontina de Sousa, e da qual faziam parte vários militantes de base muito operacionais, de que recordo nomes como Manuel Benjamim, Jorge Pinto ou Maria Emília Azevedo, entre outros. Estava na moda fazer-se piqueniques à sombra dos pinheiros, com sardinha assada e carne grelhada, provas de tiro aos pratos, motocross e outras brincadeiras para animar a malta. O pinhal do Pontal, no acesso ao aeroporto de Faro, reunia alguns destes condimentos, no meio de muita poeira, engarrafamentos e falta de condições higiénicas. O grau de exigência das pessoas foi aumentando e o local foi perdendo atractivo. O País foi-se “desPRECizando”, a política foi-se descontraindo, a mobilização ideológica afrouxando.

Onde foi a sua primeira festa? Que idade tinha?
Entrei na política activa aos 24 anos. Em Dezembro de 1979 fui eleito autarca em Loulé. O meu primeiro Pontal foi em 1980. No pinhal do Pontal de que já falei, numa zona hoje urbanizada.

Quem proferiu os discursos mais marcantes da Festa do Pontal foi um algarvio, concorda?
É provável que alguns dos discursos mais marcantes da Festa do Pontal tenham sido proferidos por algarvios. Recordo o que mais prazer me deu fazer, um discurso proferido em “algarvio” no dia 8 de Agosto de 1988. Estava Marcelo a assistir. Muitas pessoas não sabem. Não há uma língua algarvia, tão pouco um dialecto, mas há muitos milhares de palavras que compõem o dicionário do “falar algarvio” recolhidas pelo prof. Ruivinho Brazão. Foi um discurso muito reivindicativo. O alvo era António Guterres, o primeiro-ministro da altura. E terminava com versos de António Aleixo, em português popular: “Tu que tanto prometeste / Enquanto nada podias / Hoje, que podes, esqueceste / Tudo aquilo que prometias.”

Para si, qual é o mais célebre discurso do Pontal? O que lhe ficou na memória?
Confesso-me incapaz de recordar ou de escolher. Um dia, quando me reformar, e escrever o livro que desejo sobre os Mitos e as Realidades da Festa do Pontal, talvez tenha ocasião de revisitar o que sobrou de tantas frases ditas por tantos oradores que passaram pelo Pontal, pela Baixa de Faro ou pelo Calçadão de Quarteira.

E a Pontinha e o Pontal, foi mesmo uma rivalidade?
Foi uma vez sem exemplo, fruto de uma competição eleitoral ao rubro, uma medição de capacidades de mobilização, de pessoas por metro quadrado, entre o PS e o PSD. Nunca, nem antes, nem depois de 1995, o PS fez mais pontinha nenhuma.

Disse uma vez que o Pontal foi a despesa singular mais cara que teve, quer contar esse episódio?
Ao longo de quase quatro décadas no PSD, paguei muita coisa do meu bolso. Mas não foi na situação que aponta. Corria o ano de 1997, Marcelo Rebelo de Sousa chegara à liderança do PSD no ano anterior. O partido estava completamente falido. Os cofres nacionais e regionais estavam vazios. No Algarve não tínhamos um tostão para organizar o Pontal e de Lisboa nada viria. Antes de uma reunião da Comissão Política Nacional a que pertencia também, pedi para falar com Marcelo e expliquei-lhe a dramática situação. Marcelo não vacilou. Pegou no livro de cheques e entregou-me ali mesmo um donativo pessoal de cinco mil contos, para garantir a continuidade da Festa do Pontal. Cinco mil contos em 1997 era muito dinheiro. É verdade que Marcelo ganhava muito bem na altura, como professor e com os pareceres jurídicos. Mas que líder, mesmo podendo, abriria de tal forma os cordões à bolsa?

Costuma dizer que ressuscitou três vezes o Pontal. Quando?
Em 1985, a chegada de Cavaco Silva à liderança do PSD foi muito conturbada. No Algarve, José Vitorino demitiu-se do PSD e levou consigo muita gente, pelo menos temporariamente. A Festa do Pontal estava em risco. Assumi a liderança do PSD/Algarve e a Festa fez-se e retomou com grande vitalidade e por muitos anos. Em 1995, com a queda do chamado “cavaquismo”, o moral das tropas do PSD estava pelas ruas da amargura. Fui de novo chamado à liderança regional, e o Pontal reergueu-se por alguns anos. Finalmente, em Novembro de 2004, reassumi responsabilidades no partido, e deu-se início a uma nova fase da Festa do Pontal. Depois de uma tentativa pouco sucedida na Baixa de Faro, em 2005, no ano seguinte pus em marcha um novo formato numa nova localização (o Calçadão de Quarteira), com o sucesso que ainda hoje se conhece. Em 2010 foi o último Pontal que organizei. Hoje, sou um simples participante com o sentimento do dever cumprido.

Se fosse líder do PSD, o que o faria faltar ao Pontal?
Nenhum líder do PSD deveria faltar à Festa do Pontal. Seria um desrespeito pelas bases do partido, pela sua história e tradição. Seria como a Praça de S. Pedro sem o Papa. Seria abdicar de um palco mediático privilegiado para passar mensagens políticas importantes, que são escutadas com muita atenção por todo o país político. Repare que começa a falar-se da Festa do Pontal muito antes da mesma, e os ecos do que lá se passa replicam durante muitos meses após a sua realização, às vezes anos. É uma marca política de elevada notoriedade, conhecida em todos os cantos de Portugal. Tentar liquidá-la, como alguns ex-líderes do PSD fizeram, foi de uma grande insensatez, felizmente sem sucesso. Sá Carneiro foi o iniciador, depois dele muitos líderes marcaram presença: Balsemão, Cavaco, Nogueira, Marcelo, Marques Mendes, Luís Filipe Menezes. Mas, de todos, quem melhor compreendeu e mais apostou e apoiou de forma sustentada a Festa do Pontal, foi Pedro Passos Coelho. Em 2010, aquando da sua eleição como líder do PSD, prometeu-me apoiar a Festa do Pontal. E cumpriu até hoje. Foi dali que saiu o impulso que o levou a primeiro-ministro, e acredito que voltará a fazê-lo.

Alguma vez faltou à festa?
Desde que me inscrevi no PSD, ou tive responsabilidades de dirigente, não me recordo de ter faltado a nenhuma. Não sou da primeiríssima hora, mas estive em todas as horas seguintes.

O que achou daquele ano em que a festa passou para dentro do Aquashow, para fugir às manifestações contra as portagens?
Foi uma decisão infeliz. Acontece. O PSD forjou-se como grande partido popular de massas no combate político em todo o terreno, ocupando a rua também, mostrando que o espaço público de manifestação não é um exclusivo nem um privilégio das forças de esquerda. Ver a Festa do Pontal acantonada num salão de festas de um parque aquático, com receio de um grupelho com uma capacidade de mobilização minúscula, deixou-me bastante triste. Felizmente, foi um ano sem repetição, e tudo voltou ao normal.

Que PSD era aquele, acantonado numa sala de conferências?
Não era o PSD. Estiveram lá algumas pessoas do PSD, mas aquilo não era o PSD. Passemos adiante, isso foi um detalhe sem consequências, não é o essencial do Pontal.

Como viu, no passado, Paulo Portas na Quarteira?
Com naturalidade. Não me incomodou nada. PSD e CDS-PP estavam coligados no Governo e nas eleições que vinham aí. Mesmo agora, que estão “descoligados”, não seria descabido um convite de “cortesia” a responsáveis do CDS-PP.

O que sente quando ouve o PSD nacional assumir que a rentrée política do partido é na Universidade de Verão?
Repare que a própria expressão “rentrée política” foi criada na Festa do Pontal. Na minha opinião não existe incompatibilidade nenhuma em fazer coexistir dois eventos de natureza diferente, mas complementar, numa “rentrée política” a dois tempos, ocupando o espaço mediático duas vezes, numa altura em que o palco parlamentar está de férias ou a meio gás. A Festa do Pontal é inimitável no formato e no local onde se desenrola…

O que é, para si, o Pontal?
O que faz a Festa do Pontal inigualável é que constitui um espaço ecuménico na esfera do PSD. É uma verdadeira diáspora partidária. Onde é que está a maioria dos portugueses em férias no mês de Agosto? No Algarve! Onde é que é possível encontrar portugueses (logo, muitos social democratas) de todas as partes de Portugal e das comunidades espalhadas pelo mundo com a diversidade que se encontra no Algarve? Qual o evento politicamente mais marcante de Agosto, que arrasta uma multidão de jornalistas e de órgãos de comunicação social? Ali junta-se a animação musical à confraternização entre velhos companheiros de luta política, e é também passerelle de figuras conhecidas da cidade política, que se vêm nos ecrãs. Come-se e bebe-se em condições de conforto e qualidade, num cenário idílico à beira-mar plantado. E, no final, temos o momento mais aguardado de todos: o discurso do líder do PSD, sempre aguardado com grande expectativa. Isto é o denominador comum entre o Pontal do meu tempo e o Pontal actual. Nesta transição, perderam-se algumas coisas. Primeiro, o carácter de afirmação do Algarve. O tom reivindicativo e desafiador com que o líder do PSD/Algarve se dirigia a norte da Serra do Caldeirão, sublinhando descontentamentos, solicitando a atenção do poder central. Fiz esse papel ao longo de 14 vezes, tantas quantas as festas que organizei no papel de líder do PSD/Algarve. Depois, perdeu-se muito do carácter participativo dos militantes de base na própria organização, num trabalho humilde e dedicado que nunca esquecerei. Hoje, está tudo mais profissionalizado. O PSD a nível central assume responsabilidades financeiras e organizativas que antes éramos nós, algarvios, quem arcava. Se não o fizéssemos ninguém o faria por nós. Foi assim que resistimos a todas as tentativas de liquidação do Pontal. Mas vencemos!

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