Crónica

Compostela

No caminho de Santiago pensei em como todos nós vivemos das histórias que respiramos e a quem as contamos.

O meu avô sentou-se numa ponte, sob a sombra de um carvalho, e acendeu o cachimbo enquanto um pequeno riacho preenchia o meu cantil com a sua translúcida e gelada gentileza. Contou-me como, quando ele e o pai iam à caça nos montes alentejanos, usavam um lenço para filtrar a água que bebiam. Podia ter feito isso, mas estava tão cansado e inchado daquele calor capaz de depenar galinhas que nem quis saber. Ao saborear aquela frescura senti os meus músculos a recuperarem a vitalidade.

Chegar a Pontevedra foi fácil, apenas 13 quilómetros de Arcade, difícil foi ver todos os albergues, pensões e hotéis esgotados e ter de caminhar mais dez quilómetros à torreira do sol por vertiginosas florestas, até uma pequena e isolada terra chamada Barro. Ficámos no Albergue da Portela, que era dirigido pelo senhor Ribeiro, um galego nascido em Lisboa que, devido a um acidente de viação, ficou confinado a uma cadeira de rodas. Porém, tal infortúnio não o abalou o suficiente para o impedir de conseguir completar um dos vários caminhos de Santiago de Compostela. São este tipo de pessoas que nos dão força para continuar e entregarmo-nos com tudo o que temos aos nossos objectivos. Com 24 quilómetros a pressionarem-nos os ossos, ainda tivemos forças para percorrer mais três e jantarmos no Dom Pulpo, um simpático restaurante onde ouvi a melhor resposta a um piropo até hoje dada: “Isto é tudo carácter por fora mas doçura por dentro!"

No dia seguinte, e após caminharmos durante algumas horas, chegamos a Caldas de Reis, município pitoresco, onde pudemos afundar os pés num lavadouro de pedra que repousava inerte à passagem do tempo. Cálidas ao primeiro toque, depressa sentimo-nos envoltos num reconfortante abraço daquelas águas termais.

Após uma noite repousada, saímos com o passo acelerado e antes de chegarmos a Padrón, cidade onde descansa a pedra que aportou a barca com os restos mortais de São Tiago Apóstolo, vi um casal de idosos de mãos dadas e mochila às costas e pensei em como todos nós vivemos das histórias que respiramos e a quem as contamos.

Não passamos de criaturas furiosas por agarrar uma mão quimérica, quando na verdade devíamos estar a vagabundear por campos de histórias e azedas.

A seguir ao almoço, reparamos que o bafo do alcatrão e a digestão estavam a atacar-nos com uma moleza febril e por isso decidimos fechar os olhos encostados na sombra de um banco de jardim. Se pudesse ficava ali o resto do dia.

Partimos para Picaraña, uma vilazinha abrigada no meio do seio industrial. A pensão onde dormimos estava encostada a um clube — “La Dama del Lago” — e nada podia ser mais adequado. Ao escurecer, andamos até ao único estabelecimento aberto nas imediações, um sítio chamado “Xantares Gallegos”, ironicamente não serviam jantares, dessa forma, perguntamos onde é que poderíamos “cenar". A dois quilómetros, pela estrada principal extremamente mal iluminada e com constante movimento de veículos pesados. No entanto, a dona do restaurante não nos deixou ir a pé. Disse que não nos podia deixar sem jantar e por isso deixou o café por conta dos clientes e levou-nos no seu carro até lá, sem nunca se mostrar aborrecida e com um sorriso perpetuamente estrelado até se ofereceu para nos trazer de volta, mas não deixámos. Despedimo-nos com um carinhoso beijo e fomos jantar uma pratada de arroz de marisco.

Na manhã seguinte, depois de vários quilómetros, tivemos a derradeira provação, uma implacável mas grandiosa subida.

Chegar a Santiago de Compostela foi indescritível! Por um lado senti a minha alma uivar de alegria, por outro senti-me um turista, alguém de fora. Todo aquele mar bravo de gente a inundar a cidade intimidou-me tanto que, por momentos, desejei estar na praia junto à Ponte Sampayo, onde fui tratado como nativo, ou mesmo apenas beber da água de um riacho.

Entendo agora a importância do esforço e suor que marcaram cada passada deste caminho. O asfalto ardente, as tentativas de achar, nos bosques, um cajado que me fizesse parecer com o Gandalf, cada silêncio derrubado pelo vento ou pelo zumbido de uma abelha a pousar num girassol.

É no caminho que nos encontramos, não à chegada.

18 anos, à espera de ingressar no ensino superior