O nadador olímpico que aprendeu a nadar com Phelps no YouTube

O haitiano Frantz Dorsainvil vem de um país onde não há sequer uma piscina olímpica, mas a única coisa que lhe interessa é conhecer o seu ídolo no Rio de Janeiro.

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O nadador haitiano em acção Dominic Ebenbichler / Reuters

Para nadar os 50 metros pelos quais competiu esta quinta-feira no Estádio Aquático Olímpico, o haitiano Frantz Dorsainvil tem geralmente de fazer pelo menos três piscinas no local onde costuma treinar. A única piscina de 25 metros no Haiti foi destruída durante o terramoto de 2010 que arrasou o país, restando ao nadador uma de 18 metros.

“Não é nem de longe o ideal, mas é o que tenho e isso ajudou-me a chegar aos Jogos Olímpicos”, contou Frantz à BBC Brasil. A falta de condições de treino e até a ausência de um treinador ajudam a explicar o último lugar obtido nas classificações para os 50 metros livres, em 85 participantes. Mas não é isso que desanima o nadador de 25 anos.

Na verdade, o grande objectivo do nadador haitiano para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro era apenas um aperto de mão do seu ídolo e, em certa medida, mentor: Michael Phelps. Foi a acompanhar vídeos do campeão olímpico no YouTube que Dorsainvil aprendeu a nadar.

“Vi todos os vídeos de Michael em que consegui pôr as mãos para tentar entender a mecânica das suas braçadas e pernadas. Ele foi uma imensa inspiração para mim”, explicava recentemente. Ao contrário da maioria dos nadadores de alta competição, que começam a praticar bem cedo, Dorsainvil começou a nadar apenas aos 19 anos.

O acesso de Dorsainvil aos Jogos do Rio foi garantido através de um convite do Comité Olímpico Internacional ao abrigo de um programa de promoção do desporto em países subdesenvolvidos. Para manter a carreira de nadador, Dorsainvil tem de a suportar com outros trabalhos como a fotografia e como decorador em espectáculos teatrais.

Apesar de partilhar com a República Dominicana uma ilha nas Caraíbas, a natação não é o desporto mais popular no Haiti. Alguns dados do Governo apontam para que apenas 1% da população de dez milhões de habitantes saiba nadar — mesmo entre os pescadores e outras pessoas com actividades marítimas, nadar continua a ser um desafio. A isto junta-se a pobreza galopante de um país cuja esperança média de vida ronda os 60 anos e em que 60% da população é subnutrida.

O historial olímpico do Haiti é parco. Desde os Jogos de Amesterdão, em 1928, que não vence qualquer medalha e, antes disso, tem apenas uma de prata no salto em comprimento e uma de bronze no tiro. Dorsainvil é apenas o segundo nadador haitiano a chegar a uns Jogos.

Nesta edição, o Haiti conta com uma delegação de dez atletas, que competem em seis modalidades — o dobro da presença em Londres, há quatro anos. Mas Dorsainvil não será o único haitiano a competir no complexo aquático do Rio. Naomy Hope nasceu nos EUA, mas é filha de imigrantes haitianos e conseguiu uma bolsa da Universidade de Chicago, tornando-se na primeira mulher a participar nuns Jogos com a bandeira do Haiti.

Dorsainvil gostaria que a sua presença no Rio sirva para fomentar a prática da natação no Haiti. “Quem sabe as autoridades do meu país assim resolvam construir uma nova piscina olímpica?”