O primeiro arqueiro do Malawi chegou aos Jogos pela mão de uma missionária

O atleta africano tem uma treinadora com passado no tiro com arco e que abraçou a tarefa com genuíno espírito missionário.

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David Areneo em acção no Rio de Janeiro JEWEL SAMAD/AFP

Todos os anos, no Sambódromo, o Rio de Janeiro extravasa numa festa que dura dias a fio. Mas o Carnaval já passou e agora não há música nem samba: o recinto acolhe as provas de tiro com arco dos Jogos Olímpicos e o apelo é para que se faça silêncio. Logo a começar nas movimentadas avenidas circundantes, onde há faixas penduradas a apelar aos automobilistas para se absterem de usar as buzinas. Apenas alguns metros ali ao lado, há atletas concentrados em acertar com as flechas no círculo central do alvo, que vale a pontuação máxima – mas está colocado a 70 metros e só tem 12,2 centímetros de diâmetro.

As medalhas da competição individual serão atribuídas apenas nesta quinta-feira na prova feminina, e no dia seguinte para os homens. Isso ajudou a explicar as bancadas algo despidas, num dia cinzento no Rio de Janeiro. O céu fechado, a largar alguns pingos de chuva de vez em quando, e as temperaturas relativamente baixas (20 graus) desencorajaram as pessoas – e o facto de não haver arqueiras ou arqueiros brasileiros em prova também não ajudou.

Mas o Sambódromo até podia estar vazio que a ocasião seria sempre memorável para, pelo menos, um dos atletas que esteve em competição. Era um jovem com uma missão – e com uma missionária como treinadora. David Areneo fez história, ao ser o primeiro arqueiro a representar o Malawi em Jogos Olímpicos – recebeu um convite para estar no Rio 2016 do Comité Olímpico Internacional e da Federação Internacional de Tiro com Arco.

Ao seu lado, no Rio de Janeiro, o arqueiro de 21 anos contou com a experiência da treinadora Young-Sook Park – a quem trata carinhosamente por Sally. A sul-coreana de 56 anos competiu no tiro com arco nos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles (foi a única a não subir ao pódio entre as três arqueiras da Coreia do Sul que estiveram em prova), e há alguns anos que contribui para divulgar a modalidade no Malawi. “Sou missionária e em 2013 fui destacada para um dos lugares mais pobres do Malawi. O pastor queria criar actividades educativas para as crianças, entre as quais o desporto. Eu propus ensinar tiro com arco e ele concordou”, disse ao PÚBLICO.

Marcar presença nos Jogos Olímpicos foi uma vitória, tendo em conta as circunstâncias em que tudo começou. “Debatemo-nos com muitas dificuldades. Não há equipamento, mas temos recebido apoio de instituições da Coreia do Sul”, afirmou Sally, que chegou a conquistar medalhas em Mundiais na competição por equipas e também treinou a selecção feminina da Itália que se sagrou campeã mundial em 2011.

No Rio 2016, Areneo foi antepenúltimo na fase prévia da competição individual masculina que serviu para estabelecer um ranking dos 64 participantes no evento – o que ditou que, na primeira ronda de eliminatórias, enfrentasse o italiano David Pasqualucci, terceiro classificado. O frente-a-frente entre os dois foi rápido e, sem surpresa, terminou com triunfo do italiano. Mas isso não tirou o sorriso a David Areneo: “Foi a minha estreia nos Jogos Olímpicos e foi muito especial”, confessou ao PÚBLICO.

A primeira experiência olímpica do arqueiro nascido em Lilongwe, capital do país encaixado entre Moçambique, Tanzânia e Zâmbia, aconteceu apenas três anos depois de ter começado a praticar tiro com arco. “Comecei em 2013, no dia 20 de Maio. No Malawi não há muitas actividades para os jovens, mas andavam à procura de jovens para o tiro com arco, eu fiquei interessado e comecei a praticar. Gostei de imediato. E continuo a gostar muito”, sublinhou.

“O tiro com arco ainda está a desenvolver-se no Malawi, é um desporto relativamente novo no nosso país. O David está nos Jogos Olímpicos pela primeira vez e teve um bom desempenho, tendo em conta que competiu contra um arqueiro que foi terceiro na ronda inicial. Foi tremendo e estamos muito contentes com ele”, notou ao PÚBLICO Jappie Mhango, do Comité Olímpico do Malawi, acrescentando: “É uma grande esperança para o Malawi. Ele só está a praticar a modalidade há três anos e tem um futuro brilhante pela frente.”